quinta-feira, 11 de julho de 2013

Solidariedade


Uma pessoa caiu no chão
Na lama ensanguentada
Estendida ali em vão
Toda penalizada

Recusaram-lhe dar a mão
E com dor ela gemeu
Lambeu-lhe um cão
Solidariedade de ateu

Alguém jogou um pão
Não era fome que sentia
Era a falta do irmão
Aquele um que valia

Por isso virou ladrão
E da polícia correndo
Feriu-se na grade do portão
Que pulou gemendo

E caiu na rua pelo chão
Da miséria sentindo a dor
Como amigo só o cão
Solidário em amor

terça-feira, 9 de julho de 2013

Saudade e Nostalgia

A saudade estava procurando
Alguém em quem confiar,
No espelho sujo encarando
A alma gêmea encontrar...

E foi o que aconteceu,
Com susto olhou a nostalgia
E foi aí que compreendeu:
Era a irmã da vida vazia.

domingo, 7 de julho de 2013

Não-Eu

Quem vive esta vida não sou eu
Esse caminhar itinerante
Os sonhos áureos não são meus
Pois tudo é sufocante

O sorriso e a lágrima rareando
Completo estado de inanição
É o que é meu murchando
Apodrecendo pelo chão

Os espinhos e perfumes são meus
O cheiro é infectante
Quem escreve pode não ser eu
Existe um alguém adiante.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Crônica: Aos animais que passaram pelas nossas vidas...


Certo dia, encontrei os restos fúnebres de um gatinho enterrado em meu quintal. Fiquei um bom tempo a contemplar aqueles ossos tão frágeis e já tão deteriorados pela ação do tempo. Desde então, o pequeno animal não saiu mais dos meus pensamentos. Fiquei a imaginar que eu nunca poderei saber como era aquele ser pequenino, frágil e indefeso que ali jazia. Não era possível saber como era a sua pelagem, se era um pelo curto e macio ou longo e sedoso, ou ainda as cores que o compunham e ainda mais a cor dos seus olhos, que nos felinos, são tão lindos e marcantes. Não era possível saber quantos anos de vida ele pôde desfrutar, quanto tempo gastou em brincadeiras, caçadas e namoros no telhado. Nem a causa da morte eu poderia determinar, se ele chegou a sofrer ou não, se foi vítima de algum ato de crueldade humana.

Um corpo que estava ali, tão perto de mim, habitando o mesmo espaço físico, e do qual eu nunca poderei saber absolutamente nada. Histórias que eu nunca farei ideia que aquela criaturinha possa ter participado.

Alguém poderia me dizer que gatos existem em quantidade imensa, não discordo, mas aquele gato eu não conheci e todas as suas aventuras me são ignoradas. Algo insignificante encontrar uma carcaça no quintal, mas que me fez refletir sobre a vida. Bem assim é a vida, repleta de surpresas e fatos do cotidiano que parecem tão banais, mas que num futuro podem se tornar representativos de um momento único e nos transmitir ensinamentos dos mais significativos.

Quantos pequenos animais passaram pela nossa vida, alguns nos pertenceram como animais domésticos, companheiros de boa parte da vida e outros apenas observamos, e encontramos no dia-a-dia, em qualquer lugar, a qualquer hora?

Existe um texto muito bonito, de autoria da excelente Cecília Meireles, que se chama “Um cão, apenas”, em que a escritora nos conta a experiência de uma moça diante de um cão doente que aparece em sua frente, ela nada faz apenas contemplar aquela criatura indefesa e é na contemplação que ela filosofa a respeito de quantos seres passaram pela nossa vida e nada fizemos. Esse texto, eu o tenho num livro de 7ª série e desde que o li nunca o esqueci.

Sempre acreditei que os animais são como uma extensão de nós próprios, seres humanos. Tanto que, quando alguém me diz que um animalzinho não sente nada, me deixa entristecida, por que o que dizer daquela alegria contagiante que um cachorro possui ao ver o seu dono, representada pelo abanar da cauda, ou o gato carinhoso, que se enrosca nas pernas do seu dono, ou ainda o lindo trinado de um pássaro e a conversa de um papagaio para nos encantar? Mesmo a mansuetude de um jabuti e o silêncio de um peixinho podem nos ensinar lições para uma vida.

Fico profundamente tocada ao ver pessoas se empenhando por essas criaturas tão frágeis e por muitos consideradas como “inferiores”, como no trabalho voluntário realizado por um grupo de visionários em prol de resgatar animais, protegê-los e ampará-los dos maus tratos, ou o simples ato de encontrar uma criatura abandonada e lhe dar uma oportunidade para que possa existir com dignidade.

Falamos tanto de valores e direitos humanos, mas e os direitos dos animais? Por que julgá-los como inferiores? Apenas porque nos julgamos como racionais e dominamos tudo o que nos cerca? Então se temos tamanho poder, enquanto criaturas “superiores”, é nosso dever proteger aos mais fracos, e que nos dão tanto.

Quantas vezes em momentos de tristeza, um animalzinho não voltou os olhos carinhosos para o dono, como que para dizer em silêncio: “Eu estou aqui, você não está sozinho!”? Quantas vezes em momentos de alegria nos entregamos às brincadeiras com os nossos animais, em quantos momentos eles nos alegraram com suas atitudes simples e amistosas? Várias e sempre estarão aí para isso, para nos transmitir vida.

Tantos animais passaram pelas nossas vidas, eu mesma tive vários e me lembro carinhosamente deles, cada um deixou uma marca dentro da minha alma, e muitos outros passarão, cabe apenas a nós mesmos aprender essa lição de amor e companheirismo que eles nos dão.

Fiquei triste pelo gatinho, porque eu nunca saberei como foi desfrutar da sua companhia e sinto saudades de todos aqueles seres que passaram pela minha vida, e espero que assim como eu aprendi a ter essa consciência do valor desses animais, outras pessoas também percebam o mesmo e que quando virem um animalzinho olhando para si, com carinho, que possam retribuir, seja num afago, seja num alimento, num pequeno ato de atenção, porque ternura gera ternura, e isso é o que precisamos aprender com os seres chamados de “inferiores”.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Crônica: Amigos que passam e que ficam

Domingo é um dia que sempre me deixa nostálgica, para bem ou para mal, ou ainda, para as duas coisas. Neste domingo específico, meus pensamentos se voltaram para as amizades que ficam pelo caminho.

Penso nos coleguinhas do tempo de escola, dos sonhos, das brincadeiras, de uma infância e adolescência pacíficas, como deveriam ser essas duas fases para todos. Lembro das brincadeiras ao fim da tarde, das andanças de bicicleta pelo bairro, dos jogos infantis, das histórias malucas e encantadas que viviam as bonecas, das competições e torneios em que não havia a ânsia por ser o ganhador ou o melhor, mas sim a alegria de participar. Recordo-me dos livros que eu lia entre amigas com avidez, fascinada e encantada com o descobrimento de novos mundos, novas realidades. Lembro-me  das primeiras festas, das confissões trocadas entre as amigas, filmes, músicas,  paixonites, das fotos de artistas e papéis de carta que se colecionavam, dos diários e das agendas em que cada amiga deixava um versinho simples, colorido, às vezes com erros de ortografia, mas que representavam o carinho, a afeição, a troca. As amizades da época da infância são repletas de pureza, de pequenos sonhos, de brigas num dia e amores no outro. Já as amizades da adolescência são intensas, baseadas na troca, nos planos, na loucura que consiste em ser um adolescente. Muitos, praticamente todos, desses amigos da minha infância e adolescência se perderam ao longo da minha vida, apenas um ou outro ainda ouço falar, existe também a distância que afasta ainda mais e também as próprias mudanças na personalidade de cada um.

Penso nas amizades da época da faculdade, intensas na mesma proporção, idealizadoras, com seus planos e metas. Pessoas que na busca pela profissão, pela carreira a ser seguida encontram-se e juntas tentam conciliar ideais e sonhos. Tive realmente grandes amigos nesse período da minha vida, grandes descobertas, grandes frustrações também, porque também as decepções fazem parte da vida e colaboram para o crescimento. Muitos desses amigos continuam na minha vida, seja no trabalho, seja no cotidiano, seja distante mas presente nas lembranças; outros se foram, mudaram de estado, país, trocaram de carreira, casaram, separaram, tiveram filhos e até um deles já deixou esta vida, mas os bons momentos não podem ser esquecidos.

Também penso nas amizades na fase dita como adulta, amigos remanescentes da faculdade, amigos que de colegas de trabalho se transformaram em algo mais, amigos que conheci por meio de outros amigos, amigos que apenas de olhar um no olho do outro se sabe que pode confiar. Também esses com o tempo foram e estão sendo levados e eu sei que novos virão, mas sei principalmente que cada um tem seu lugar, tem seu espaço no mais íntimo do ser.

Penso ainda nos amigos que o tempo transformou em inimigos, embora eu não goste dessa palavra e muitas vezes prefiro dizer que se distanciaram. Por que isso chega a acontecer? Talvez por falha do amigo, talvez por falha própria, dos dois ou de ninguém, ou porque talvez a vida realmente apronta dessas com todos. Mesmo com esses nem tudo foi em vão, bons momentos ficaram e acredito que, por mais que uma retomada no relacionamento seja inviável, não há que se odiar, não vale a pena.  Melhor que cada um siga sua vida, encontre suas forças e novas amizades, novas felicidades.

E penso, por fim, em quem serão os próximos amigos que conhecerei e que também um dia ficarão pelo caminho, porque assim é a vida. De onde eles virão? Como eles serão? Quem sabe cada pessoa que surge na vida não seja justamente pra deixar uma marca, uma lição, um aprendizado, umas vezes boas coisas, noutras não tão boas, mas que, no fundo, colaboram para se conhecer ainda mais sobre si mesmo e sobre o mundo?

O importante é que, independente do dia da semana em que se está ou da fase da vida em que se encontra,  é muito bom ter amigos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A primeira crônica


        Toda pessoa que escreve, por mais que fique um bom tempo longe da sua arte, sabe que, invariavelmente há de retornar para a magia provocada pela palavra escrita. É exatamente isso que ocorre comigo, numa madrugada insone de quarta-feira. Sinto-me até culpada por relegar, por procrastinar esse ato que, no fundo, é muito significativo na minha vida.

É significativo para mim, pois, desde que me entendo como uma pessoa, eu sonhava em ser escritora. Diversas brincadeiras na infância sempre me direcionavam para o ato da escrita e da leitura. Montava em vários caderninhos longas e ilustradas histórias que acabaram por se perder com o tempo. Na adolescência redigi meu primeiro romance, algo quase épico, mas que para mim era um grande feito; bem como uma série de poesias e pensamentos típicos dessa faixa etária.

No momento da escolha profissional não tive dúvidas ao optar por uma graduação em Letras e continuei a seguir nesse rumo, sempre me aperfeiçoando. Acreditava que fazendo uma faculdade de Letras eu conseguiria escrever ainda melhor. De certa forma, é real, mas ao mesmo tempo, você se transforma no maior crítico de seus escritos. O que você ganha em conhecimento acaba por perder em espontaneidade.

O que quero dizer é que durante mais um tanto de tempo acabei por me dedicar mais a produção de textos acadêmicos, cientificistas e acabei por deixar de lado a produção da minha literatura: coloquei meus poemas, narrativas e reflexões no fundo de uma caixinha e tranquei com cadeado, guardando num cantinho escuro da minha vida.

Hoje, com a ajuda da insônia, resolvi mexer nessa caixinha. Claro que isso é uma metáfora. Metáfora dos sonhos, dos escritos que ficaram guardados enquanto eu seguia com outros planos pela vida afora. Portanto, hoje me permiti abrir a caixinha e produzir esta crônica.

Prometo a mim mesma que escreverei religiosamente a cada quinze dias e sempre que estiver inspirada, mas será que cumprirei essa promessa? Enquanto desfruto das merecidas férias, talvez até consiga cumprir esse trato comigo mesma, mas e quando as atribuições do cotidiano, a correria do trabalho e todos os outros segmentos da minha vida gritarem pedindo atenção, será que vou conseguir? Bom, pelo menos, já estou tentando com essa primeira crônica, profundamente metalinguística.

Já que se trata claramente de um texto metalinguístico, cá estou a pensar nos meios que eu usava para escrever essa minha literatura: caderninhos, pacientemente organizados com uma letra bonita, belas imagens e todos com títulos sugestivos e vistosos. Na adolescência, eis que me debruço sobre a máquina de escrever, e tudo o que estava em cursiva me delicio em transpor para esse novo meio. Até fiz o curso de datilografia! Como eu me sentia uma grande escritora ao som do tec-tec da maquininha! Já adulta sou apresentada ao computador, que meio realmente prático para um escritor: permitindo escrever numa velocidade ainda mais rápida, errar sem problemas e sem culpas e ter tudo armazenado numa memória de tamanho mínimo.

O que dizer então da Internet? Antes, uma boa parcela de escritores vivia num completo anonimato, quase que ostracismo. Se estudarmos a história da literatura brasileira veremos que foi um processo lento, do surgimento do primeiro escritor brasileiro até os mais diversos autores que habitam o mundo virtual. Os escritores contavam com pequenas publicações, os folhetins, colunas em jornal, gradualmente chegando ao livro impresso.

Infelizmente ainda hoje vivemos num mundo que viver de literatura é quase um devaneio. Livros são caros e muitas das vezes, quando um escritor precisa do apoio de alguém, geralmente não há com quem contar. Pelo menos nisso a Internet facilita a vida dos escritores, você publica seu trabalho ali, e, dependendo da qualidade ou da falta dela, você colhe seus frutos.

Fico feliz que, de certa forma, tenho colhido bons frutos, alguns até me surpreendem! Para cada escritor, um texto seu é como um filho, que um dia cresce e vai viver a sua vida, mas do qual você sempre espera ouvir algo com que possa se orgulhar. De fato, me orgulho desses meus filhos. Nem todos são bons, alguns são tão imaturos, inexperientes; outros são tão críticos, cruéis mas, saíram de mim, são parte de mim e não posso negar, assim como essa crônica que ao falar do ato da escrita que me resgata infindáveis lembranças literárias e que sei que depois de pronta terá vida própria. Bom, que ela então ganhe asas e que eu consiga cumprir a minha promessa, quem sabe resolução de ano novo, e que ela seja a primeira de muitas outras, deixando assim minha caixinha permanentemente destrancada.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Quadra



Através da fúria do licor venal,
A chaga purulando no peito,
Abandono estraçalhado no leito
O corpo fervente do gozo letal.

Ser Humano














A barata não é mais nojenta que eu
O verme não é mais podre que eu
A lesma não é mais estúpida que eu
A formiga não é mais insignificante que eu

Eu sou ser humano,
Eu roubo, eu mato, eu piso,
Eu machuco, eu humilho, eu sujo.
Faço isso porque sou racional.

sábado, 15 de junho de 2013

Sinto um prazer

















Sinto um prazer
Percorrer-me o corpo todo
Sinto um prazer
E estremecendo morro

Sinto um prazer
Lentamente subindo a espinha
Sinto um prazer
Que é uma coisa só minha

Sinto um prazer
Que não sei como chegou
Sinto um prazer
Que tudo o mais levou

Escrever...

Escrever,
Escrever por precisar
Escrever para gritar ao mundo o que me consome
Escrever para transmitir minha angústia às multidões
Escrever para expressar minha dor e aliviá-la
Escrever, na tentativa de fazer secar o pranto
Escrever, escrever, escrever...
Para não cobrir com as mãos minhas faces rubras
Para tentar encontrar um motivo de vida
Para fugir da torturante solidão que me envolve
E para escapar à morte
Por isso, eu preciso escrever...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Conto: Instintos noturnos

Nunca me esquecerei quando minha amiga Ângela chegou à pequena cidade universitária onde sempre vivi, para cursar Sociologia. Conhecemo-nos no momento da matrícula, quando ela me solicitou informações sobre documentos e localização dos pavilhões do edifício, que era o maior do local. Eu já havia cursado dois anos de Direito e esperava contentar minha família, todos de origem judaica. Nada mais óbvio que um judeu quieto e uma novata tímida para se tornar grandes amigos; para completar um trio, só mesmo com o Andrew, colega de curso, vindo da Alemanha, que falava nosso idioma com muito sotaque e de forma sofrível, mas que era um grande coração.
As moças da faculdade tinham certo ciúme de Ângela, pois de fato, ela era muito bonita: branca, cabelos de um loiro acinzentado e olhos amendoados, porte atlético. Mas não me convém ficar falando sobre seus atributos físicos, já que grandes amigos nós somos.
No entanto, toda essa aura de felicidade e companheirismo que nos unia, um dia seria destruída por conta de acontecimentos trágicos e impressionantes; e com base no relato de minha amiga e das circunstâncias que eu mesmo presenciei, é que principio a contar o que segue...
Na faculdade, havia um rapaz chamado Lúcio, que também fazia o estilo mais recatado, soturno mesmo. Um sujeito alto, moreno, cabelos bem lisos penteados num corte moderno, olhos castanhos daqueles que intimidam. As mulheres o achavam irresistível, mas nunca era visto com qualquer uma delas.
Durante algum tempo, Ângela levou sua vida sem sequer reparar a presença de Lúcio, ainda mais que estudavam em turnos diferentes. Mas, talvez por uma fatalidade, ou talvez porque realmente as coisas devam acontecer por uma força maior que nosso mero entendimento, eles se encontraram na biblioteca da faculdade.
Existiam ali vários corredores repletos de prateleiras de livros, enumerados por ordem dos cursos, alguns novos, outros antigos, empoeirados. As estantes mais escondidas de todas eram as que abrigavam os livros da área de Psicologia, Sociologia e Filosofia. Lúcio era estudante de Filosofia.
Casualmente, os dois seguiam em direções contrárias e distraidamente pegaram uma obra de Feuerbach, ao mesmo tempo. Uma química, um fogo maior, fez com que seus olhos se encontrassem neste instante. Todo o material que carregavam nas mãos foi ao chão e ficaram com os dedos entrelaçados segurando o livro. Enrubescida, Ângela recolheu sua mão e fitou o desconhecido a sua frente. No princípio, ele pareceu lívido, mas agora lhe sorria. Lúcio retirou os óculos que usava apenas para ler e, encantado com a beleza da moça, teceu comentários sobre um trabalho que necessitava fazer utilizando aquele livro, “A Essência do Cristianismo”. Ela também necessitava do mesmo exemplar para outro trabalho. Gentilmente, Lúcio propôs que dividissem a obra, estudando juntos todas as tardes ali na biblioteca, assim poderiam debater sua temática e seria mais enriquecedor para os dois.
Ângela ficou fascinada e aceitou o convite. Tão logo se encontrou com Andrew e comigo, contou-nos sobre Lúcio. Eu tinha realmente uma sensação de mal-estar com relação à presença dele, mas nada que se comparasse com a repulsa que Andrew sentia. Para ele, Lúcio era um sujeito estranho, com ar egocêntrico e várias outras denominações pejorativas. Não me era estranho o fato de saber que Andrew se afeiçoara a ela de forma bem mais profunda que uma amizade, e também que não era correspondido; pois nossa amiga era sincera. Ficou um pouco chateada com as demonstrações de ira de nosso amigo, mas guardou para si o que realmente estava pensando.
Em casa, Ângela refletiu várias vezes sobre o encontro na biblioteca. Por mais que criasse expectativas, sabia que o convite poderia ser mera formalidade de um rapaz estudioso; era possível ele estar mais concentrado nos estudos do que numa jovem como ela e que realmente estivesse precisando muito do livro, mesmo tendo sido educado e deixado o exemplar com ela.
No entanto, os olhos de Lúcio não saíam de sua mente. Era um olhar arrebatador, que a fez estremecer por inteiro. Lembro de Ângela me contando esses fatos ao telefone com certa ingenuidade e malícia, e lembro principalmente de uma impressão que me relatou.
Ao sair da biblioteca, Ângela percebeu que Lúcio continuou por lá e por um rápido lance de olhos, imaginou que ele cheirava a própria mão como se sorvesse o melhor dos perfumes. Seria seu cheiro que teria ficado nas mãos dele? Ela não saberia dizer. No momento que ela me contou isso, dei risada, brinquei, alertei para não se iludir, mas nem sequer sonhava o que significava aquele gesto.
Várias vezes, Lúcio e Ângela se encontraram na biblioteca para estudar e para o desespero e ciúmes de Andrew, que muitas vezes se acercava do casal e jurava que o outro olhava de forma inapropriada para nossa amiga. Isso o deixava num ciúme que beirava a completa insensatez, muitas vezes ele alegava que Lúcio poderia ter a ver com crimes financeiros e mortes estranhas que aconteciam em nossa pequena cidade.
De fato, era uma época conturbada. Algumas pessoas estavam perdendo suas propriedades enganadas por golpes que nem elas mesmas sabiam dizer como haviam acontecido; geralmente se endividavam profundamente e sem razão, e quando menos se esperava passavam tudo às mãos dos corretores de imóveis da região. Um desses corretores era o pai de Lúcio, por sinal; mas nunca tínhamos escutado qualquer queixa contra sua família. Mas, o que estava chocando realmente a população eram notícias de mortes horrendas envolvendo fazendas inteiras de gado, animais de grande porte e pessoas, em noites de lua cheia. Os animais eram encontrados completamente destroçados, junto aos matagais extensos e alguns na proximidade da floresta que se estendia por detrás da universidade. As pessoas encontradas mortas no mesmo estado e nos mesmos locais, em sua maioria eram os habitantes de vida noturna da cidade, como mendigos, bêbados, vigias e em sua maioria, prostitutas. De início, imaginou-se que poderia ser algum assassino psicopata, mas evidências de pegadas e pêlos, fez com que a polícia desconfiasse da existência de lobos nas imediações. Um alerta foi emitido para que as pessoas não ficassem andando por tais locais tarde da noite. Buscas foram realizadas na tentativa de localizar os animais, mas nenhum fora encontrado. Os jornais traziam a todo instante notícias e artigos sobre as mortes.
Andrew muitas vezes teve a capacidade de pegar esses jornais, mostrá-los à Ângela e dizer que Lúcio poderia estar envolvido em algo. Ela ria, pois em seu coração, sabia o que ele sentia e o respeitava, mas sempre refutava estas observações.
Não havia como negar que Lúcio a fascinava. Ela comentava, principalmente comigo, sobre o teor das suas conversas. De fato, ele era inteligente e tinham gostos semelhantes. Numa ocasião, Ângela comentou sobre o convite que ele lhe fizera para saírem certa noite. Eu não apoiava esta relação que ia se estreitando cada vez mais, mas também não condenava; simplesmente respeitava minha amiga; e para complicar, de brincadeira, tentando trazer Andrew para a realidade, contei sobre o futuro encontro noturno do casal.
Como Andrew ficou pasmo! Durante alguns segundos mastigou a informação e depois, preocupado, chamou-me a atenção para os fatos trágicos que vinham ocorrendo. Todos seus argumentos eram coerentes, pois como um rapaz convida uma moça a sair tarde da noite, véspera de lua cheia, com o risco de se deparar com lobos ou ainda bandidos? Comecei a ficar pensativo depois disto e ele me convenceu a seguirmos o casal, para segurança de nossa amiga.
No dia do encontro, seguimos todos os passos de Ângela. Andrew tinha mesmo razão em se preocupar, pois após tomarem um sorvete, Lúcio segurou-lhe a mão e a conduziu até uma praça, mal-localizada e cercada de árvores, aonde inclusive, dois corpos chegaram a ser encontrados. Sei que, possivelmente, os dois se dirigiam ali para ter mais privacidade, mas era algo fora de propósito na atual circunstância. Considerei Lúcio inconseqüente.
Quando eu estava imerso nestes pensamentos, Andrew puxou-me pelo braço, mostrando o casal a se abraçar. Sua atitude foi tão brusca, que ele acabou por escorregar e fazer barulho, revelando nosso esconderijo atrás de uma árvore.
Ângela estava visivelmente contrariada, mas Lúcio parecia ainda mais transtornado. Caminhou em nossa direção, disse impropérios aos quais Andrew rebateu. Chamei-lhe a atenção para sua imprudência em trazer nossa amiga a tal local. Ele escarneceu de nossa preocupação e, com um sorriso estranho nos lábios, disse para que Ângela então nos acompanhasse e que só o procurasse quando não estivéssemos por perto para lhe atrapalhar. Tirou seu casaco de couro, cobriu os braços dela que tremiam de frio, e em nossa frente beijou-lhe arrebatadoramente, dando as costas logo em seguida.
Eu não fiquei muito estarrecido com a cena, meus pensamentos se concentraram no perigo que poderíamos estar correndo parados ali, no escuro e cercado por vegetação fechada. Andrew se pudesse, naquele momento, teria se batido com Lúcio, mas a cena do beijo o deixara petrificado e Ângela, totalmente confusa. Puxei ambos em direção às luzes e à rua para que fossemos embora o mais rápido possível.
Sei que Ângela ficou chateada conosco por a termos seguido, e com razão; porém, do mesmo modo, compreendia nossa preocupação. Ela me confessou que já estava apaixonada por Lúcio, que ele lhe despertava sensações indescritíveis, que a forma como a tocava apertado, deixava-a fascinada. Nunca duvidei dos sentimentos dela para com ele, mas não conseguia sentir mais a mesma segurança com relação a Lúcio. A forma como nos olhara, com ódio imenso, e depois aquele sorriso sarcástico, não saíam da minha mente. Tive medo de estar ficando neurótico como Andrew, pois pensamentos que ele poderia estar querendo se aproveitar dela por ser nova na cidade invadiram meu espírito.
Retomamos nossas atividades como de hábito, depois deste incidente, mas não os vimos mais juntos. Ângela não tocava no nome de Lúcio e permanecia boa parte do tempo conosco, imersa em seus próprios devaneios. Um dia, encontrei-a de cenho franzido, eu estava sozinho e ela aproveitou para me confidenciar que não tinha se afastado totalmente de Lúcio, mas que uma notícia a perturbara. Escutara seus pais reclamando junto com outras pessoas de alguém com o sobrenome Wolfgang, e tinha quase certeza que esse era o sobrenome de Lúcio. Estava determinada a procurá-lo e tirar a história a limpo.
No dia seguinte, quando a encontrei, perguntei se havia realizado o que me dissera. Ângela não encontrara Lúcio em parte alguma, nem na faculdade, nem em sua casa para onde ligara várias vezes. Não entendia o sumiço. Andrew se aproximou, bastante agitado, nos questionando se sabíamos das últimas aventuras dos lobos. Realmente não sabíamos, ninguém melhor do que ele mesmo para saber, pois seu pai era policial. Segundo seu relato, a polícia estava fazendo a patrulha da cidade, à noite, quando, próximo ao bosque, encontrou uma alcatéia, com lobos enormes. Havia cinco deles no total. À distância, os policiais atiraram e chegaram a alvejar um deles, mas o animal estava tão agitado, que mesmo com dificuldade conseguiu fugir.
Ângela ficou sobressaltada com a notícia, pediu-nos desculpas e agradeceu por estarmos lá naquela noite. Prometeu que não mais se aventuraria em tais locais.
Alguns dias depois, houve um feriado que coincidiu com o final de semana. O tempo estava frio e chuvoso e o único que vi, nestes dias, foi Andrew que sempre me visitava. Não recebi notícias de Ângela, até que num sábado à noite, madrugada, acordo com o telefone tocando. Eu não conseguia entender quem estava falando, o sono era intenso, bem como o frio. Mas quando notei que a voz era de Ângela e que ela chorava amargamente, despertei no ato. Pedi que se acalmasse, que me contasse o que tinha acontecido e ela assim o fez.
Lúcio adoeceu por estes tempos e ligou uma vez apenas para ela, para explicar o motivo de sua ausência. Preocupada, Ângela se dispôs a visitá-lo. Lúcio morava numa casa, próximo às montanhas que rodeavam a cidade. Era uma casa grande e antiga.
Chegando ao local, Ângela tocou várias vezes a campainha até ser atendida por uma mulher muito bonita, com traços que lembravam o rapaz, era a mãe de Lúcio. A mulher tratou-a com extrema amabilidade e a conduziu ao quarto do filho.
Lúcio estava deitado num quarto escuro e fechado, iluminado por um abajur de luz vaga e oscilante. Parecia bastante debilitado, mas isso foi até ver que era Ângela que estava em seu quarto. Imediatamente sentou-se na cama, devorando-a com os olhos. Convidou-a para se sentar ao seu lado, e sem muito conversa, seduziu-a com carícias e beijos. Embora se deleitando com a situação que estava vivenciando, Ângela o achou estranho. Sua aparência abatida se transmudara num semblante vívido de desejo; os olhos pareciam avermelhados, talvez por estar irritadiços; os dentes aparentemente mais salientes, o corpo um pouco mais magro e a barba por fazer; as unhas estavam grandes e algumas vezes ele chegou a arranhá-la enquanto a tocava mais forte.
Lúcio a convenceu que ninguém entraria em seu quarto e a despiu. Ângela não era uma garotinha inexperiente e se entregou ao prazer que sentia, que na hora era imenso. Ela parecia pensar e pausar bem suas falas ao me contar estes fatos.
Nunca em sua vida, ela experimentara tamanha paixão como a que Lúcio lhe demonstrava naquele momento, enquanto a possuía. Ele mal a deixava tocá-lo, pois prendia seus braços e devorava seu corpo com beijos intensos, bem como esfregava o nariz pelo pescoço, seios e ventre dela, extasiado com o cheiro da sua carne. Era como se ela fosse o mais delicioso dos alimentos para uma alma faminta.
Em determinado momento, Ângela se soltou e acariciou seu peito másculo e recoberto de pêlos. Os dois arfavam juntos, o calor e o suor dos corpos se misturando. No auge do prazer, Ângela gemeu e balbuciou que o amava demais.
Isso foi o suficiente para que Lúcio estacasse, imóvel, dentro dela. Ângela sentiu que ele estremeceu por inteiro, como se todo o seu mal-estar tivesse retornado. Ele levantou-se subitamente, nu, abriu a porta e pediu que fosse embora imediatamente, alegando que ela não tinha o direito de lhe dizer aquilo. Ângela não conseguia entender a causa daquele repúdio, correu até ele e tentou abraçá-lo, mas Lúcio com uma força sobre-humana a empurrou e gritou enlouquecido que fosse embora, que o deixasse em paz. Aos prantos, Ângela recolheu suas coisas e partiu. Desconsolada, desesperada, temerosa, resolveu me ligar em busca de ajuda.
Confesso que a sinceridade dela, a princípio, ao me descrever com exatidão suas intimidades tinha me deixado constrangido, no entanto, não podia me recusar a prestar-lhe solidariedade. Também fiquei sem entender a reação dele, pois não havia explicação para que ele a expulsasse de sua casa quando ela, totalmente entregue, lhe confessara seu amor.
Sem saber ao certo o que dizer, aconselhei-a a tentar repousar e já que ele a destratara, deixasse que Lúcio a viesse procurar por vontade própria para se explicar. Ângela acatou o que eu disse e desligou.
Não consegui dormir depois da sua ligação, por mais que tentasse. Tudo o que ela me contara, revi em mente e fiquei mal comigo mesmo por me permitir pensar mais profundamente naquele assunto. Não que eu tivesse algum interesse amoroso por Ângela ou tivesse me excitado com a narração, nada disso. Simplesmente não entendia que uma frase como “eu te amo” pudesse deixar tão transtornado um homem.
Depois dessa ocasião, não encontramos mais Lúcio, e ficamos sabendo que ele tinha requisitado sua transferência. Andrew tentou animá-la muitas vezes com suas brincadeiras e sua atenção, mas não eram suficientes para que Ângela voltasse a sorrir espontaneamente.
Geralmente, Ângela desabafava seus temores comigo, por saber que Andrew nutria um sentimento mais forte por ela, e então tentava poupá-lo. Ela me confessou que apesar da sua tristeza, duas coisas a estavam preocupando: os negócios de sua família estavam muito mal e talvez seus pais tivessem que se desfazer de vários pertences e até mesmo mudar para uma casa mais modesta; outra coisa que a incomodava era que de uns tempos para cá, sempre se sentia acuada, vigiada, como se alguém a estivesse seguindo. Aleguei que Andrew não poderia ser, que ele havia se comprometido a não mais fazer isso. Eu sabia que no fundo, ela desejava realmente que Lúcio a estivesse seguindo, mas tentava, com bravura, não se iludir.
Os fatos foram caminhando desta forma até a família de Ângela ir à falência. Tiveram de vender suas propriedades e veículos, mas o que foi realmente alarmante foi que o pai de Lúcio, era responsável por aquela situação. Como corretor de imóveis e prestando serviços de agiotagem às escondidas, conseguiu roubar não apenas uma família, como umas seis da cidade. Logo em seguida, não se teve mais noticias dos Wolfgang; quando se procurava, nunca estava no escritório e nem sequer na própria casa.
Esse foi um baque muito forte para minha amiga, que se sentiu totalmente enganada. Ela acreditava que cada atitude de Lúcio se relacionava com o fato, principalmente o que havia acontecido no último encontro com ele.
Ela teve de se mudar com os pais e as irmãs para um sobrado modesto, vizinho de uma chácara abandonada. No dia em que mudou, Ângela me relatou que chegou a ver Lúcio escondido por trás das árvores e que tentou correr ao seu encontro para conversar sobre o acontecido, porém ele havia fugido logo em seguida numa velocidade impressionante.
Na universidade, os assuntos se dividiam entre as constantes mortes e ataques de feras e o golpe dos Wolfgang na cidade. A polícia não conseguiu incriminá-los por falta de provas, já que as pessoas enganadas tinham confiado plenamente e assinado documentos em favor do que acontecera. Soube-se depois, por um colega de curso de Lúcio, que os Wolfgang partiriam numa sexta-feira, de barco.
Ângela correu até o porto que ficava na cidade vizinha e conseguiu avistar a família partindo; eles aparentemente estavam felizes e com semblante tranqüilo. Apenas Lúcio, encostado a amurada, aparentava certa tristeza até o momento em que a avistou. Ângela me contou que o olhar dele continha uma mistura de ódio e susto para com ela.
Passaram-se algumas semanas, e apenas animais pequenos, como cães e gatos haviam sido encontrados mortos em situações semelhantes aos outros sucedidos. Nenhuma pessoa havia sido atacada por qualquer criatura, mas restava o medo da população que ainda evitava perambular durante a noite.
Ângela passou a ter crises de insônia. Ficava pensando na situação difícil que sua família enfrentava e no que os Wolfgang haviam feito. Numa dessas noites muito claras, de lua cheia, ela ouviu claramente o uivo de um lobo em volta da sua casa. Seu coração disparou, ao lembrar das notícias envolvendo os ataques. Correu a trancar a janela, e qual não foi seu espanto quando, junto à parede que dava para seu quarto, viu uma criatura horrenda e peluda olhando fixamente para ela, com enormes olhos vermelhos.
Aquele era o maior lobo ao qual ela já tinha visto; nenhum representado em livros ou canais de televisão se assemelhava ao porte daquela criatura assustadora. Para apavorar ainda mais, o animal andava arqueado sob duas pernas, quase como um homem corcunda. Suas patas dianteiras pareciam enormes mãos humanas com garras e pêlos. O focinho era enorme, com dentes protuberantes e afiados. Ângela soube que aquilo não poderia ser nenhuma espécie de lobo conhecida, ao menos se acreditasse que estava praticamente frente a um lobisomem.
Trancou a janela correndo, e pôde ouvir seu pai, que também vira a fera, abrir a porta da casa e dar tiros no escuro. Como estava na parte superior, Ângela viu a criatura novamente lhe encarar e sair correndo enfurecida e assustada para dentro do matagal.
Sua mãe, apavorada, tratou de puxar o marido novamente para dentro de casa e trancar a porta. Suas irmãs correram para ver do que se tratava e a casa se agitou com todo aquele barulho. Ângela não saiu da sua alcova, e ficou pensando no modo como o lobisomem a encarara, não era um olhar estranho.
Os pais de Ângela foram à delegacia prestar queixa, mas ninguém lhes dava crédito por uma visão tão impressionante. No entanto, outros moradores também afirmavam que poderia mesmo ser um lobisomem, e as lendas passaram a crescer, sempre com alguém que já dizia ter visto um ser semelhante.
Ângela não tinha dúvidas sobre o que vira, e compartilhou conosco seus temores. Não duvidamos da palavra dela, era nossa amiga, não havia porque acreditar que ela estivesse enganada quanto a isto. Andrew ficou pensativo e propôs que fossemos até a delegacia ver os laudos e processos envolvendo as mortes misteriosas, pois era plenamente aceitável que os fatos estivessem relacionados.
Por ter um pai policial, a visita de Andrew em nossa companhia à delegacia não causou espanto a ninguém e muito facilmente tivemos acesso aos recortes, documentos e imagens. As fotos, melhor analisadas, realmente nos fizeram constatar que um lobo comum não daria conta de tamanha atrocidade, por mais fome que sentisse. As mordidas eram enormes, bem como as marcas das garras. Outro dado interessante é que as mortes geralmente envolviam seres e pessoas de hábitos noturnos. Em sua maioria, as testemunhas retratavam que as mesmas pessoas sempre tinham sido vistas acompanhadas por alguém até a noite do crime, e em geral, eram pessoas solitárias. Passamos efetivamente a crer que fosse um lobisomem. Qualquer um conhece lendas envolvendo tais criaturas e sobre quem elas são. Passamos a confabular quem poderia ser, e nada era mais óbvio do que a família de Lúcio.
A família de Lúcio, embora sendo bem abastada e influente nos assuntos imobiliários, não era muito vista em público e geralmente eram contidos, reservados, não se sabia muito da vida dos seus integrantes, até o escândalo do golpe na cidade. O que mais nos aterrorizou é que o próprio sobrenome da família remetia a algo do gênero: Wolfgang.
Os fatos coincidiam de forma impressionante, com exceção que ainda mortes de pequenos animais assombravam a cidade; porém os óbitos funestos, em longa escala, não estavam mais acontecendo.
Ângela ficou consternada com nossas cogitações. Não conseguia acreditar, ou pelo menos, tentava negar para si mesma tudo aquilo. Pediu que mantivéssemos segredo sobre isso, pois não era pertinente dar crédito a tais ocorrências e poderíamos estar julgando como assassinas e monstros, pessoas que nada mais eram do que vigaristas.
Talvez por medo, talvez por ter se impressionado com nossas divagações, Ângela cismou que a fera vivia a espreitar sua janela em noites de lua cheia. Sei que no fundo do seu coração, ela tremia em pensar que tal criatura pudesse ser Lúcio.
Para tentar esquecer todos estes acontecimentos, nos unimos mais e acabou que Ângela e Andrew começaram a namorar. Ficava contente por meu colega, mas também sabia que Ângela tentava encontrar no amor dele o esquecimento e a fuga das lembranças do que passara com Lúcio.
Como quaisquer casais de namorados, começaram a fazer suas incursões noturnas. Pessoas não estavam sendo mortas mais por ali e muitos chegavam a supor que o lobo, ou a fera que tinha feito aquele estrago, talvez tivesse morrido.
Na última vez em que vi Andrew, ele estava empolgado, pois naquela noite completariam três meses juntos e ele planejava fazer algo especial na companhia da namorada.
Que dia trágico nos esperava então! Na manhã do dia seguinte, o corpo de meu amigo foi encontrado completamente aos pedaços no rumo da floresta e das montanhas. Corri a casa de Ângela, completamente lívido, e a abracei. Ela chorava imensamente e colocava a culpa em si própria. Pedi que me contasse o que havia acontecido e ela me relatou que saíram e, tarde da noite, quando retornaram a pé, ele se despediu e partiu sozinho. A dor que sentíamos era imensa e ambos buscávamos respostas onde não havia. Todos falavam do ataque como culpa dos lobos, mas Ângela e eu temíamos que algo ainda mais sórdido estivesse por detrás daquilo e nossas suspeitas não foram em vão.
A trilha de sangue deixada levava até as imediações da casa abandonada dos Wolfgang. Os policiais revistaram a casa, dia e noite mantiveram vigília na tentativa de capturar o animal, que acreditavam pudesse ter se refugiado na casa vazia. Mesmo naquela época, a polícia não tinha certeza de quantos animais poderiam ser. Acreditava-se que no início havia uma quantidade maior, uns seis ou oito lobos, mas depois chegaram a cogitar que apenas um ou dois ainda restavam, talvez tivessem morrido de fome ou atacado entre eles mesmos. Era extremamente difícil encontrar qualquer vestígio de corpos de animais na floresta. Andrew foi localizado porque partes do seu braço e sua carteira estavam no início do matagal.
Os céticos encaravam o fato já como incompetência da policia, que não conseguia capturar tais animais. Os supersticiosos acreditavam piamente na existência de um lobisomem e olhavam todas as pessoas como prováveis suspeitos, eu bem sei como foi. Não me importava que dissessem asneiras sobre mim, mas sim que Ângela também passou a ser vista com outros olhos por todos os colegas de faculdade. Achavam estranho o fato de o primeiro namorado dela ter desaparecido e o segundo tivesse sido morto. O clima geral entre a população era hostil por demais.
Agora só tínhamos um ao outro como amigos e confidentes. Então, Ângela me convidou a dormir em sua casa, numa ocasião em que seus pais não estavam e que coincidia com o período de lua cheia. Ela tinha certeza que a criatura apareceria e que eu poderia vê-la.
Não foi fácil aceitar esse convite. Numa cidade pequena, um homem e uma mulher sozinhos numa casa, já viram motivos de falatórios, mas era preciso. Muito me ofendia que pudessem pensar qualquer coisa sobre Ângela e eu, tal era o respeito que sempre lhe dediquei e fui para sua casa, cheio de reservas e constrangido.
De fato, mal chegou o relógio a soar meia-noite quando ouvimos passos em redor da casa. Corri e peguei a arma do pai de Ângela. Fomos para a janela e a criatura estava lá.
Primeiro, centrou seu olhar todo em Ângela, porém ao me avistar ao seu lado, ficou completamente enfurecida e arremetia urrando contra as paredes na tentativa de nos alcançar. Depois, o lobisomem foi até a porta e tentou arrombá-la, por sorte havíamos lacrado bem e encostado objetos pesados nela, mas nossos corações pareciam sair pela boca de tanto pavor.
O lobisomem era exatamente como Ângela me descrevera e imaginei que a fúria maior dele consistia na minha presença ali, ao lado dela. Tive certeza, naquele instante, que deveria ser Lúcio, mas não compartilhei isso com ela; e quanto mais Ângela se apertava ao meu braço, mais a fera urrava.
Em nenhum momento soltei Ângela e a arma que mantinha fortemente presa ao peito. O lobisomem rodeou o sobrado várias vezes, na tentativa de entrar e como não encontrava meios, esperneava alucinado. Cortava-me o coração as lágrimas que via correr pelo rosto de minha amiga, queria poder lhe dizer que aquilo tudo era um sonho, que nada daquilo estivesse acontecendo, mas era impossível. Ficamos horas a fio parados, na janela, observando a fera e por ela sendo observados, até o momento em que a aurora começou a se estampar no céu. Vendo isso, a criatura fugiu em desabalada carreira e nos deixou, enfim, sozinhos.
Deixei cair a arma ao chão e Ângela me abraçou tremendo. Retribui o abraço e não me arrependo de naquele momento tê-la desejado. Sentíamos o alívio de o monstro ter ido embora, e eu sentia que o coração de Ângela, apertado contra meu peito batia sofregamente principalmente em saber que tal criatura poderia ser o rapaz que ela tanto amara. O calor do abraço dela também me reconfortava de toda a tensão e pavor. Senti que eu mesmo enfraquecia com o contato com o seu corpo e que meu instinto de homem sabia reconhecer toda atmosfera envolvente que nos cercava. Mas contive meus desejos, pois nada nesse momento me era mais caro que nossa amizade e não a colocaria a perder e muito menos magoá-la.
Retirei-me para outro quarto a fim de repousar, e cai exausto na cama de uma das irmãs de Ângela. Quando acordei havia um lanche ao meu lado, tanta tensão me dera uma fome tremenda e comi como um selvagem. Chamei por minha amiga e ela não me respondia. Percorri os cômodos e nada, então tive a certeza do que ela havia feito: Ângela fora até a casa de Lúcio. Completamente apavorado ante tal situação, corri ao quarto para buscar a arma, coloquei-a na mochila e sai em seu percalço.
O caminho era íngreme e muito me cansou, pois além da distância havia repousado pouco e feito apenas uma refeição. Ficava pensando que horas Ângela teria saído de casa para encontrá-lo e se estaria a salvo. Quando finalmente cheguei à porta da casa dos Wolfgang, encontrei-a semi-aberta. Era uma daquelas portas pesadas e barulhentas, e rangeu assustadoramente quando a empurrei. Senti um torpor por todo corpo, pois certamente minha presença teria sido anunciada por tal barulho. De repente, escutei os gritos de Ângela vindo do segundo patamar da casa e corri para as escadas. Sequer tive oportunidade de subi-las, pois me deparei frente a frente com o lobisomem me olhando, de forma sanguinária. Corri em direções opostas, lancei em sua direção tudo o que encontrava pelo caminho, mas a fera era impressionantemente rápida e nada parecia atingi-la. Arranquei um pedaço de tábua que se despregava de um móvel velho e joguei em sua direção, o monstro simplesmente a fez em pedaços como uma mera folha de papel. Arremessei minha mochila contra ele, mas antes, sempre correndo, tinha tirado a pistola do seu interior; por sorte ela estava carregada desde a noite anterior e só consegui subir as escadas e chegar até Ângela, graças às suas balas. Os tiros não o espantavam nem o enfraqueciam, mas conseguiam retardar um pouco sua corrida. Alcancei Ângela e na mesma hora ela apertou minhas mãos sobre uma corrente prateada que pendia em seu seio. A criatura não tentou nos atacar enquanto estávamos abraçados segurando a corrente, apenas nos rodeava rosnando ameaçadoramente, como se uma parede nos separasse. Ângela chorava e chamava por Lúcio olhando para o lobisomem, mas ele não dava qualquer mostra de nos reconhecer. Enfim tomei consciência que tinha Ângela seminua nos braços e olhei para a corrente prateada e com um pingente também prateado, com formato de coração. Nunca antes havia visto minha amiga com aquela jóia e imaginei que tivesse sido um presente ou algo do gênero. Perguntei o que era, e ela me disse aos prantos que Lúcio lhe dera aquilo enquanto estava como homem e lúcido, para sua proteção. Compreendi o que se falava nas histórias de lobisomens sobre a prata, um material que os afastava e que poderia mesmo causar-lhes a própria morte; entendi que ele lhe deu a jóia, pois não a reconheceria mais depois de sofrer a mutação e com ela ao pescoço, ele não poderia atacá-la.
O problema que enfrentávamos era quanto tempo conseguiríamos agüentar em pé, abraçados, no território dele. Na noite anterior, não havíamos dormido e ficamos todo o tempo na janela. Nossas pernas tremiam de dor e medo, pois qualquer movimento eu poderia soltar a corrente e ser atacado. Lúcio não parecia cansado por um momento sequer, enquanto nos cercava. Ângela com a cabeça encostada ao meu peito não parava de chorar e suar frio, sequer conseguia encará-lo, vendo que ele não atendeu aos seus rogos. Por fim, vencida pelo cansaço, Ângela quase me escorregou dos braços e foi por uma fração de segundos que a corrente não me escapou das mãos. O lobisomem chegou a se adiantar, rosnando assustadoramente, mas recuou, quando recuperei nosso equilíbrio.
Sei que estava tremendamente apavorado, com medo, com raiva, mas Ângela sequer tinha forças, seu peso estava praticamente todo em meus braços, sentia imensamente piedade por ela, ali tão desamparada, tão frágil, em trajes íntimos, e tentando me proteger também. Notei que a corrente já começava a machucar seu pescoço, mais alguns instantes ela desfaleceria ali e eu também não teria forças para segurá-la ao colo. Chamei-lhe, beijei-lhe a testa. Abriu os olhos marejados com muita dificuldade e me fitou profundamente. De súbito, percebi que o seu corpo ficava mais rígido ao meu abraço e ela ia recobrando a consciência. Pediu para que eu a soltasse com calma, sem largar a corrente. Assenti. Ela segurou o pingente de coração com os dedos trêmulos, sussurrou-me numa voz quase inaudível que nossa salvação estava ali dentro e que teria de fazer uma escolha.
Ângela olhou então para a fera, e nesse momento pude ver que não era mais Lúcio quem ela via a sua frente e sim um ser abjeto e demoníaco. Abriu o pingente e dentro dele havia uma bala de revólver toda de prata; depois enfiou uma das mãos pela minha calça e sacou a pistola, encaixando a bala. Entendi no mesmo instante o que ela ia fazer e o que significava aquela bala, era a única capaz de matar o lobisomem e também ao próprio Lúcio. Era uma decisão para Ângela, senti que ela estava no limite de suas forças, ofereci-me para atirar, mas ela insistiu que faria isso.
Só tínhamos essa bala, pois todas as outras se esgotaram e estavam cravadas na pele do lobisomem, e com o estampido do tiro seríamos separados, era preciso acertar. A nossa única chance de sobrevivência estava ali.
Ângela vacilou duas vezes, a arma tremia em suas mãos, mas senti que os olhos amendoados dela estavam fixos nos olhos vermelhos da criatura. Sem saber de onde ela tirou tamanha força, Ângela disparou.
Como previ, fomos jogados longe pela força do tiro, pois nossos corpos estavam totalmente enfraquecidos. Naquele momento, minha vida toda passou diante dos olhos e temi que o tiro tivesse sido em vão.
Não foi. Ângela fez um disparo certeiro no coração do lobisomem, que agora se contorcia de forma horrenda e emitia guinchos apavorantes. Ângela sentou-se, um filete de sangue lhe escorria pela face, pois ao cair se ferira.
Lentamente, o lobisomem foi tomando um aspecto humanizado e diante dos meus olhos, vi um Lúcio magro, fraco e despido surgir. Nunca a aparência de Lúcio fora tão bela, pois, apesar do estado em que estava, havia um semblante de paz profunda em seu rosto. Ângela se aproximou do corpo moribundo, abraçou-o e beijou-o; com o restante de forças que ainda tinha, Lúcio pegou as mãos dela, beijou com ternura e agradeceu pelo que havia feito. Compreendi que a alma de Lúcio se libertara da maldição e que ele realmente amava Ângela de todo o coração. Faleceu em seus braços, entre lágrimas e beijos. Seu corpo sequer permaneceu ali, virou pó no mesmo instante e apenas a bala de prata estava agora caída no lugar onde ele estivera.
Corri a abraçar Ângela e entreguei o restante de suas roupas. Sei que o coração dela estava arrasado pela morte de Lúcio, mas que também era algo necessário e que ele próprio almejara. Creio que só nesse momento, Ângela percebeu os trajes em que estava e correu a se vestir. Enquanto ela assim o fez, recolhi a arma e o colar do chão, e recoloquei a bala no lugar onde ela estava anteriormente.
Fomos embora devagar, pois estávamos exaustos, andávamos cambaleando pela extensa vegetação. Ângela queria me falar, mas pedi que poupasse suas forças para outro momento senão, não conseguiria retornar e eu também não teria forças para transportá-la.
Deixei-a em sua casa e voltei para minha. Minha família se assustou com meu semblante sujo e machucado, mas guardei silêncio. Não queria conversar com ninguém naquela hora. Queria apenas me deitar e esquecer por algum tempo todo o horror que havia vivenciado.
Alguns dias depois, Ângela me telefonou e pediu que fosse visitá-la. Chegando lá entramos em seu quarto, ela trancou a porta e nos sentamos frente a frente na cama. Estava disposta a me contar tudo o que acontecera enquanto eu não estivera por perto, e deixei que falasse para acalmar seu espírito.
Ângela me contou então, que tão logo viu que eu tinha adormecido, preparou-me um lanche o qual deixou ao lado da cama e partiu rumo à casa de Lúcio. Suas emoções estavam confusas e ela não sentiu tanto medo em procurá-lo, já que era dia. Chegou à casa abandonada, andou pelos corredores e não avistou ninguém, chamou por Lúcio e então ouviu um suspiro. Seu coração bateu mais forte e ela gritou novamente que queria falar com ele, então numa voz sumida, ele avisou-a que estava em seu quarto. Ela subiu às escadas e encontrou-o acuado e enfraquecido, sentado sobre um tapete, próximo a parede.
Desordenadamente, Ângela começou a acusá-lo de todas as vilanias que estavam acontecendo. Sequer o deixava falar. Lúcio teve então de se levantar e forçá-la a se sentar a sua frente. Os olhos dele estavam marejados por lágrimas e começou a falar que a amava, mais do que tudo, mais que a sua própria e desgraçada vida; ela tentava rebater o que ele dizia com mais acusações, mas Lúcio encostou-lhe a mão aos lábios e pediu que o ouvisse e que depois o julgasse.
Contou-lhe que, de fato, era um lobisomem, bem como todos os membros de sua família miserável e que só viviam de atrocidades e assassínios. Havia se transformado num ser daqueles quando sobreviveu a um ataque de lobisomens, e que esse era o meio mais comum de transformação. Vivia isolado porque sabia que a relação dele com as pessoas era artificial e que quando se aproximava era com a finalidade de as atrair e seduzir para a morte. Ele próprio havia matado pessoas e se aproximado de várias mulheres com essa intenção, mas nenhuma era como ela. Desde o primeiro momento em que a viu, foi tomado por um desejo estranho e diferente de tudo o que experimentara. Sentia ímpetos de devorá-la, pois o cheiro da sua carne era o melhor que ele já sentira e ficara impregnado na sua pele, mas também sentiu algo diferente que o fazia pensar nela como a pessoa mais agradável que conhecera e desejava mais e mais a sua companhia.
Ao conhecê-la, não conseguiu mais se alimentar de qualquer pessoa. Seu lado selvagem queria a carne dela, como se fosse uma droga extremamente potente em seu interior. Tentou se alimentar de animais, mas isto o enfraquecia mais e mais. Depois que a conheceu não suportava pensar no estilo de vida que sua família levava e teve várias discussões com eles. Alegou-lhe que não participou do golpe contra a sua família e que quando estava no barco, partindo e a avistou não teve mais forças para deixá-la. Principalmente depois de terem se entregado um ao outro e ela lhe dizer que o amava. Aquilo foi para ele como se mil facas o tivessem perfurado, pois quando a possuiu daquela vez, ele estava quase se transformando e estava prestes a assassiná-la. Entendeu tudo o que sentia, que seu lado humano a amava, mas que conviver com seu lado monstruoso seria impossível. Tentou se afastar, tentou ir embora, mas quando a viu no porto e ela lhe deu as costas, jogou-se na água e nadou de volta. Daquele minuto em diante, rompeu com sua família e sequer soube para onde foram. Não conseguia mais ficar longe da sua janela, enquanto homem que amava e enquanto a fera que deseja loucamente a presa. Seu lado monstro foi quem matou Andrew, e ele sentiu horror só de lembrar isso, pois sequer chegou a devorá-lo; apenas o tratou como um adversário lutando pelo mesmo alimento. O remorso que sentia era imenso, pois sabia que Andrew seria um ótimo parceiro para ela. Seu problema era que, quando transformado, não reconhecia mais as pessoas e poderia atacar qualquer um que se aproximasse.
Enquanto ele assim falava, Ângela olhou pela janela e constatou que estava entardecendo. Sentia raiva de Lúcio pelo que fizera, sentia nojo de si mesma ao saber que se deitará com ele enquanto lobisomem, e ainda angústia por tudo aquilo, mas com a sinceridade, a bondade que aparentava e o arrependimento visível de Lúcio, seu coração se apiedava dele aos poucos.
Chorando, Lúcio lhe confessou que não sabia mais o que fazer com o seu amor e se afastou para protegê-la, porém, não agüentaria mais viver tanto tempo naquela situação e lentamente ia deixando de se alimentar.
Ângela acabou por ficar perplexa diante de todas as revelações, sentiu-se confusa e ao mesmo tempo todo o amor que sempre sentira por Lúcio parecia se fazer presente. Ele chorava com as mãos escondendo o rosto, as lágrimas escorriam por seus dedos. Finalmente, buscando força dentro de si mesma, ela puxou as mãos de Lúcio para olhar em seus olhos. Com ar súplice, ele lhe pediu para não o tocar, pois ao simples roçar da pele dela, para ele era como que seu amor se tornasse uma dor física. Já não se importando com nada, Ângela se entregou a Lúcio mais uma vez. Dessa vez, no entanto, foi diferente: não havia loucura e desespero em sua posse e sim, amor e carinho incalculáveis.
Sobre o tapete empoeirado se amaram, saboreando cada parte do corpo um do outro. Ele não a penetrava da maneira selvagem como a primeira vez e sim, preocupado com o prazer que pudesse dar a ela.
Depois do amor, ficaram enlevados, nus e abraçados, até que Lúcio se levantou e detrás de um quadro antigo, abriu um cofre e tirou um embrulho. Disse-lhe que era um presente e que o usasse quando ele se transformasse naquela criatura asquerosa, para sua própria proteção, pois não poderia machucá-la enquanto estivesse de posse daquele objeto. Ângela abriu o embrulho e se deparou com o colar e o pingente prateados. Olhando em seus olhos, Lúcio a fez prometer que traria sempre consigo a jóia e que, dentro do pingente, existia algo que colocaria um ponto final em toda a sua desgraça, mas que ela só abriria numa situação extrema.
Lúcio caminhou até a janela, a noite já surgia; ficou completamente apavorado, pois sentiu que começava a sofrer a mutação maligna e gritou para que Ângela colocasse o colar imediatamente.
Ela nem havia se vestido completamente quando o fitou e viu que ele ia ganhando as formas do lobo monstruoso, colocou a corrente para se proteger e foi nesse momento que cheguei ao local.
Imaginava que realmente não havia sido nada fácil para Ângela tomar as decisões que tomou e queria saber por que ela mesma quis lhe tirar a vida.
Ângela me contou que no seu íntimo sabia que era o que Lúcio desejava. Ele não queria cometer mais qualquer mal contra quem quer que fosse, por amor a ela. Para se libertar, apenas seria possível com a morte. Ela sentiu pânico ao saber que cabia a si essa missão, entendeu o que Lúcio quis dizer com situação extrema e o que significava o formato do pingente em conjunto com a bala. No fim, sentiu-se aliviada com o que aconteceu ao corpo, pois ninguém iria acusá-lo das mortes. Sabia que ele matara para se alimentar, por puro instinto animal, e para ficar bem consigo mesma, foi ao cemitério para deixar sobre o túmulo de cada uma das pessoas, por ele atacadas, uma flor branca.
Enquanto conversávamos, ela remexia no pingente e a bala se soltou, caindo sobre os lençóis. Pedi licença e a peguei, realmente era uma bala fascinante e bem forjada; no entanto, notei que tinha uma divisória e ao mexer havia um mecanismo de rosca, que a desmontava. Mostrei a Ângela, que desmontou a bala e teve uma surpresa com o que havia dentro: uma fotografia de Lúcio e uma dedicatória romântica endereçada a ela. As lágrimas escorreram suavemente por seu rosto e ela sorriu com a lembrança que ele lhe deixara.
De fato, concordei que Lúcio era realmente uma pessoa digna do amor de Ângela e que havia sido uma lástima não termos oportunidade de conviver. Minha amiga também era uma mulher impressionante e digna de ser amada, tanto por Lúcio, por Andrew e até por mim.
Isso mesmo, eu também depois de todos esses percalços por quais passamos, vi meu sentimento de amizade se transformar em admiração e amor para com Ângela, mas não era um amor carnal e sim, um amor fraterno, tanto que me casei com uma sua irmã, tão linda e especial quanto Ângela.
Quanto a ela, nunca se casou, mas dedicou a vida a cuidar do filho de Lúcio que trouxe em seu ventre e que, para nossa felicidade, embora parecido com o pai, não trazia no sangue a marca do mal.


Ana Claudia Brida.

Conto: Assassinato no convento


Há muito tempo atrás, num século distante e impreciso, havia numa ilha fria e coberta por um denso nevoeiro, um convento encravado no centro de um grande vale, onde as moças eram enviadas para ter alguma educação, seja para se tornarem esposas prestativas no futuro ou simplesmente seguir na carreira religiosa como devotas freiras.
Muito jovens, as moças eram encaminhadas pra lá, algumas inclusive, eram abandonadas diante dos pesados portões de ferro e a vida no convento era tudo o que conheciam do mundo.
Uma dessas jovens chamava-se Julianne, e de todas ali presentes, sem sombra de dúvida, era a mais bela. Sua pele era clara e macia como a da mais delicada rosa branca, suas mãos finas e dedos pequeninos, lábios rosados e olhos claros, com pestanas compridas; seus cabelos, extremamente longos, viviam atados numa trança por baixo do sisudo véu que era obrigada a usar. Este véu, também escondia o brilho dourado dos encaracolados fios de ouro.
Nunca em toda a sua vida, havia conhecido outro lugar senão aquele e, ali era o seu pequeno universo. Fora deixada próximo aos portões numa das noites mais frias que a ilha já experimentara. Quando foi recolhida, as freiras ficaram encantadas com sua beleza terna, mas ao mesmo tempo receosas, com a extrema fragilidade da criança.
Como todas as outras moças, fora instruída dentro dos princípios cristãos, e sabia ler alguma coisa e tecer graciosos bordados, mas seu talento constituía-se principalmente na sua habilidade como musicista, tocava flauta de forma suave e que arrebatava todos os seus ouvintes a um mundo de encantos e paz.
Uma das coisas que a jovem Julianne mais gostava de fazer, era, nas suas raras ocasiões de folga, caminhar pelo bosque aos fundos do convento para ouvir os sons da natureza e talvez desta forma, se inspirar para tocar com tanta graciosidade o seu instrumento.
Não era de se estranhar, que a madre-superiora ficasse um pouco preocupada com isso, pois enquanto, as outras vinte e nove moças que estavam sob os seus cuidados aproveitavam para sonhar com seus futuros maridos ou dedicar-se com mais afinco aos mistérios da religião, aquela quisesse ficar solta e despreocupada, imersa na solidão do bosque. Mas sua preocupação, ficava apenas nisso, não havia o que temer em outros aspectos naquela ilha, totalmente desabitada e patrocinada por alguns pais que moravam em terras distantes. Ali não havia perigos, pelo menos, do caminho do porto até os bosques aos fundos do convento.
No porto, residia um casal de idosos, que ficava responsável em receber as moças ou mandá-las de volta para suas casas e também receber alguma doação, mas estranho algum tinha permissão para colocar os pés naquela terra. E geralmente, quando aparecia alguma criança abandonada, era encontrada primeiro em barcos que ficavam vagando a deriva ou alguma pessoa que vinha entregar nas mãos do casal, e se retirava sem deixar qualquer informação. Desta forma, o casal deixava a criança na porta do convento, entregue a sorte.
Outra pessoa que residia na ilha, mas que também não oferecia nenhum perigo à integridade das moças, era um velho corcunda e mudo, que vivia envolto num manto escuro para esconder sua feiúra e que cuidava do jardim e da horta de onde todos os residentes da ilha, tiravam a sua alimentação.
Dentro do convento, ainda existiam mais quatro mulheres, também já com idade avançada que cuidavam da alimentação e organização do local.
A única pessoa do mundo exterior que podia colocar os pés naquela ilha de paz, era um padre, que vinha a cada seis meses para realizar algum serviço religioso ou tomar a confissão das moças, e mesmo assim, também era um homem de meia-idade e semblante plácido.
A madre-superiora orgulhava-se destas condições, pois as jovens por ela educadas tornavam-se mulheres respeitáveis quando deixavam a ilha ou se tornavam freiras de um caráter ilibado.
Quando Julianne chegou à ilha, o seu aspecto delicado despertou algo no interior da madre, e ela pensou consigo que aquela moça seria uma das que poderia vir a ocupar seu cargo quando ela já não mais estivesse ali. Dedicou-se em torná-la sua principal aprendiz, e tudo a menina fazia com afinco. Também acreditava que a jovem deveria ter alguma missão muito nobre, pois constantemente esta afirmava ouvir a voz de um anjo quando ia ao bosque e ela dizia que este anjo era quem lhe ensinava a tocar de forma tão sublime a flauta. Com toda a sua experiência de vida, a madre-superiora sabia que existiam algumas jovens que tinham capacidade para receber visões ou outros sinais religiosos, a própria Bíblia ensinava que existiam profetizas e que Maria e outras mulheres no Novo Testamento, também receberam a visita de anjos. Portanto, era mais uma coisa para confirmar que aquela jovem deveria no futuro ocupar o seu posto.
No entanto, a madre-superiora nunca mostrou abertamente a sua preferência pela jovem Julianne, tratava a todas de forma respeitosa e com afeto, ora fazendo as cobranças que devia, ora corrigindo-as quando necessário e até punindo quando se era preciso. Sua administração era justa e ela se preocupava com o bem-estar de cada uma delas ali. De certa forma, seu coração se entristecia quando uma dessas moças deveria voltar para seus pais, mas compreendia que assim era vida e em suas orações pedia que o marido que fosse desposar tal jovem, fosse realmente alguém bom e valoroso.
Geralmente quando se sabia que uma moça deveria partir, a notícia era entregue ao casal do porto e este encaminhava a correspondência à madre, outra coisa, é que sempre se sabia que iria para se casar. Então, todas as outras jovens começavam a se esmerar em elaborar um bonito enxoval para aquela que iria deixar a ilha. Até mesmo o vestido de noiva era feito pelas mãos das companheiras de tanto tempo de reclusão. E quando tudo estivesse pronto, o padre vinha buscá-la para entregar diretamente nas mãos dos pais ou do noivo.
A mais recente jovem que recebera a notícia que iria se casar, chamava-se Kelly. Era uma moça simpática e amiga de todas, e que, com certeza deixaria muitas saudades. Logo, todas as noviças começaram a preparar seu enxoval. Julianne era uma das mais próximas de Kelly, talvez por ter a mesma idade ou alguma afinidade inexplicável. Constantemente uma auxiliava a outra em suas tarefas e muitas vezes eram vistas a rirem juntas.
Mas, algo iria quebrar toda aquela paz e felicidade reinante na ilha por tanto tempo...
Inexplicavelmente, o velho corcunda desapareceu por alguns dias sem deixar qualquer explicação e, da mesma forma que havia sumido retornou. Pelo fato de ser mudo e ainda por cima, muito ignorante, a madre-superiora deixou passar esse acontecimento; o importante é que ele havia retornado e continuava a desenvolver o seu trabalho como sempre.
No entanto, mais preocupante ainda foi o fato de que, numa das ocasiões em que Kelly saiu para buscar Julianne no bosque, ouviu-se um grito de extremo pavor e logo em seguida, as duas retornaram, sendo que a última estava inconsciente.
A madre-superiora tentou descobrir através de Kelly o que havia acontecido, mas esta se recusava a comentar qualquer coisa. Foi punida, e nem assim falava, era como se, do nada, tivesse ficado muda.
Julianne, por sua vez, não sabia o que havia acontecido com a amiga. Sabia que esteve inconsciente no bosque, mas a seu ver, havia sido fruto do cansaço pelas tarefas do dia, e a única coisa de que se lembrava, era de que sonhara ouvir a sua flauta sendo tocada.
Depois deste acontecimento, a amizade entre as duas pareceu abalada. Kelly ficava longas horas imersa no silêncio e seus olhos sempre pareciam estar apavorados, já Julianne sentia-se muito triste, e mais de uma vez em que procurou a amiga para tentar conversar, esta repelia qualquer contato. Então, a jovem loura, como única distração para sua alma, ia tocar sua flauta sentada em algum banco em volta do convento.
Mas, até mesmo este acontecimento foi sendo deixado para trás com o passar dos dias, e o convento voltou a ser um lugar de calmaria, com todos executando suas tarefas como de hábito.
Só que a paz há muito já havia deixado aquelas paredes, e o mal silenciosamente ia se infiltrando na vida das religiosas.
Um dia, a hora do jantar, novo grito causou alarme e pavor no convento, desta vez, proveniente da cozinha. Todas se apressaram em chegar até o cômodo, e quando puderam contemplar o que ali havia, imediatamente algumas desmaiaram e outras fugiram para seus quartos, aterrorizadas.
O corpo de uma das cozinheiras foi encontrado na despensa com o pescoço quebrado. Imediatamente, a madre-superiora deu ordens para que as mais jovens fossem para os seus quartos e que ficasse com ela uma ou outra das mais velhas, para ajudar com a remoção do cadáver. Levaram a cozinheira para o seu aposento, e deixaram-na sobre a cama. A madre despediu todas, fechou a porta e foi analisar o que havia acontecido.
Não havia como a mulher ter sofrido uma queda da cozinha até a despensa, a ponto de cair e quebrar o pescoço, por mais que o chão ou as paredes estivessem úmidos, nem sequer havia algum degrau entre um cômodo e outro no local da morte.
Lentamente foi desabotoando a longa veste, e quando foi descer até os pulsos, notou que havia algo preso na mão da mulher. Com muita dificuldade, conseguiu puxar e constatou que era um pedaço de pano de camurça, meio desbotado e que parecia ter sido arrancado a força de algum lugar. Colocou-o a parte sobre a mesa próxima a cabeceira da cama e continuou a retirar a roupa da morta.
De repente, sentiu-se estremecer da cabeça aos pés, e seu coração disparou com o que contemplou. No pescoço da mulher, sinais visíveis de estrangulamento. As mãos que deixaram as marcas eram grandes e másculas. Não poderia ser de nenhuma moça.
Sentou-se na cadeira próxima, e apesar do frio, enxugou o suor da testa. Só havia dois homens naquela ilha, mas sua mente não conseguia aceitar que pudesse ser qualquer um deles. O primeiro era o homem do porto, um senhor de idade, casado, bom cristão e que nunca faria algo deste tipo. O segundo era o corcunda, mas apesar do seu sumiço repentino na ocasião mencionada, era impossível imaginar que fosse ele; com a sua deficiência física ele não teria forças para erguer uma mulher do chão e apertar o pescoço até quebrar. Pensou no padre, e imediatamente, se arrependeu e se benzeu, era um homem santo, que vinha tão raramente à ilha e que ainda faltava uns dois ou três meses para vir buscar Kelly. Talvez algum estranho tenha invadido a ilha, pelo lado mais distante, e onde a floresta era muito densa. Era uma possibilidade, mas que lhe causava extremo desagrado imaginar, pois durante tanto tempo e até mesmo séculos, aquela ilha era impenetrável. Em nenhum dos registros anteriores à sua administração havia qualquer referência sobre alguém que tenha atravessado a floresta até chegar ao convento.
Sentia o peito doer e a garganta queimar, imaginando a presença de um assassino a solta dentro do seu convento. Não podia aceitar esse acontecimento, mas contemplou novamente a mesinha e lá viu o pano desbotado. Pegou-o, analisou-o e teve certeza que a cozinheira tentou se defender e aquele pano deveria ter sido arrancado da roupa do monstro.
Bateram na porta, e ela se assustou. Pediu mais um instante, e tratou de arrumar ela mesma o corpo da mulher para que ninguém descobrisse o assassinato. Era algo muito sério, e era preciso preservar as jovens que estavam sob os seus cuidados.
Realmente era muito estranho o que estava acontecendo de uns tempos para cá: primeiro, o sumiço e o retorno do corcunda, depois o desmaio de Julianne e o pavor de Kelly, que nunca mais abriu a boca, e por último, a morte da cozinheira. Sentiu que todos esses acontecimentos estavam relacionados, mas não sabia explicar como. Caminhou até a vidraça da janela, e novamente sentiu outro arrepio, pois viu corvos voando baixo na direção da floresta. Eram animais agourentos, e que raramente ela via pela ilha, seria um presságio?
Voltou a se sentar, refletindo que não poderia dar essa notícia às suas noviças, seria criar um clima pior do que já estava, ficou imaginando uma desculpa, pois por mais abominável que fosse mentir, não poderia perturbar aqueles corações tão puros com coisas hediondas. Iria conferir todos os cômodos do convento, tentar argumentar com Kelly e chamaria até mesmo o corcunda, talvez por algum sinal ele pudesse explicar alguma coisa; e foi o que fez.
Primeiramente, reuniu todas as noviças na sala de jantar e pediu à elas que ali permanecessem, pois a cozinheira morrera por conta de um animal peçonhento que lá se instalara e que ela iria, juntamente com o corcunda verificar todos os cômodos. Notou o susto das moças, e seu peito doeu pela mentira, pois antes fosse mesmo um animal. Logo em seguida, chamou Kelly e implorou por alguma resposta, mas a jovem tremia e era como se tivesse esquecido como é que se fala. Por fim, começou a chorar, e saiu correndo. A madre-superiora teve certeza de que, realmente, a garota sabia de algo, mas havia sido muito aterrador a ponto de deixá-la em tal estado. Se não conseguisse mesmo arrancar qualquer informação, iria enviá-la para seus familiares, pois não haveria mais nada a fazer.
Chamou o corcunda. Ele veio até a sua sala, envolto em seu manto como sempre, nem sequer havia como contemplar seu rosto por conta do pesado capuz. Ela começou:
- Farei umas perguntas, e como sei que o senhor não é surdo, poderá me responder fazendo gestos com a cabeça, tudo bem?
Ele assentiu.
- O senhor, por acaso, está insatisfeito com alguma forma de tratamento que lhe destinamos aqui no convento?
Negou.
- O senhor se retirou recentemente, não foi?
Confirmou.
- E da mesma forma que foi, também, voltou, não foi?
Confirmou.
- Para onde o senhor foi?
O corcunda levantou o braço, envolto por baixo do manto, e apontou na direção do porto.
- Foi até o porto?
Assentiu.
- O senhor entrou em contato com alguém, além do casal que lá reside?
Negou.
- Viu algum desconhecido ou algum acontecimento estranho por aqui?
Continuou negando.
- Sei que o senhor já trabalha conosco há muito tempo, mas realmente eu preciso lhe fazer estas perguntas. Desculpe-me. Alguma vez, o senhor entrou no convento, talvez para pegar algum objeto ou algo para as plantas?
Negou novamente.
- Já viu alguma jovem passeando pelo bosque?
Confirmou.
- E mais de uma?
Confirmou novamente.
- Houve uma ocasião em que uma das jovens saiu correndo do bosque, carregando a amiga desmaiada. Lembro-me que o senhor adentrou o bosque na ocasião. Viu algo suspeito?
Negou.
- O senhor tinha contato com a cozinheira que faleceu?
Negou.
- Como o senhor conhece muito sobre as plantas, a vegetação aqui da ilha, já percebeu que, recentemente, temos corvos esvoaçando sobre a floresta?
Assentiu.
- Será que algum animal morreu?
O corcunda sacudiu os ombros, em sinal de dúvida.
- Poderia o senhor, numa hora em que estiver com um pouco de folga, dar uma conferida pelo bosque?
Assentiu.
A madre-superiora, então caminhou com o corcunda por todos os cômodos do convento, analisando minuciosamente cada objeto, cada reentrância, todos os vãos escuros.
Por fim, entrou no quarto de Julianne, e dentro do baú de roupas da moça, encontrou um tecido muito fino, uma seda muito delicada, de cor vermelha. O objeto deixou-a intrigada. Quando a garota era pequena, fora abandonada na ilha e não tinha pertence algum. Nem mesmo as jovens de descendência mais elevada ali, possuíam um corte de tecido daquela qualidade, e ainda por cima de cor tão vibrante. Guardou-o novamente, mas iria conversar com a moça sobre a origem do pano.
Despediu o corcunda para seus afazeres, e enquanto ele se virou para partir, a madre-superiora contemplou o seu manto, era de camurça, também desbotada, muito semelhante ao tecido encontrado na mão da cozinheira. Teve um sobressalto. Teria ele mentido durante seu interrogatório? Mas procurou se acalmar, esse tecido era muito comum nas regiões frias, inclusive, já tinha visto tanto o homem do porto, quanto o padre com um manto parecido.
Enterraram o corpo da cozinheira e fizeram os ritos fúnebres, pois não haveria tempo até a chegada do padre. A madre-superiora reuniu as moças e proibiu todas de saírem dos seus cômodos durante a noite e de caminharem sozinhas até mesmo dentro do convento. As portas dos quartos deveriam ser trancadas a chave, e só abertas quando ela passasse chamando uma por uma. Passeio no bosque era uma coisa que deveria ser esquecida. Todas essas medidas, segundo ela, era para evitar que outra moça fosse atacada pelo animal peçonhento, que ela acreditava ser uma cobra, mas que estavam sendo tomadas todas as providências para resolver o caso.
Todas as jovens confiavam nela, e nenhuma se arriscou a desobedecer. A mais aborrecida, era Julianne, por não poder mais desfrutar do ar livre e da companhia da voz daquele anjo que a ensinava tocar flauta. Preocupada, foi até a madre e expôs a questão; a senhora muito tranqüilamente, respondeu:
- Minha filha, se realmente há um anjo que dá a você os ensinamentos da música, e sendo ele um enviado de Deus, por que não viria ensiná-la dentro destas paredes santas, não é mesmo?
Julianne baixou a cabeça e assentiu. Mas o questionamento ficou na alma da madre, seria mesmo um anjo? Novamente, mandou chamar Kelly e disse-lhe:
- Minha filha, sei que você se recusa a falar, mas tem acontecido coisas que eu preciso saber para poder ajudar todas nós aqui dentro! E meu coração me diz que você sabe alguma coisa, mas não quer me contar! Hoje não permitirei que você fuja de mim, eu preciso saber a verdade... o que foi que você viu no bosque?
A moça tremia, contorcia as mãos e seus olhos, como sempre, estavam apavorados. Tentou balbuciar algo com os lábios, mas não saía som.
A madre-superiora insistiu, percebendo que talvez, conseguiria saber algo:
- Responda-me, filha, havia mais alguém ali? Havia alguém com sua amiga Julianne?
As lágrimas passaram a correr pelo seu rosto, e a moça murmurou a palavra “anjo!”, para depois cobrir o rosto com as mãos, e começar a gritar desvairada:
- Terrível... terrível... tenho muito medo... não quero mais ficar aqui... quero embora me casar... eu vou morrer... eu sei!!
A madre-superiora tomou um choque em sua cadeira, não conseguia entender o que aquela garota pudesse estar tentando lhe dizer, mas já fizera muito para a sua mente inexperiente e frágil. Correu e abraçou a moça, que tremia e estava gélida, consolando-a com palavras ternas, e depois levou-a para seus aposentos, onde iria descansar da emoção muito forte que experimentara.
De volta ao seu gabinete, a madre começou a tentar traçar algo para dar significado aquela confissão confusa, e seu pensamento, de súbito, ligou-se à idéia do suposto invasor da ilha, do anjo que Julianne dizia ouvir e do tecido vermelho. Estremeceu! Haveria um homem na ilha e que talvez estivesse seduzindo a jovem?
Em pânico, correu até o aposento da noviça e obrigou-a a contar se conhecia algum homem e de quem ganhara o tecido. A garota ficou perplexa, nunca tinha visto outro homem senão o corcunda e nem sequer se aproximara dele. Alegou que sempre dizia do anjo, mas que era uma voz que ela escutava dentro dela, era uma coisa impossível relacionar com a presença de um homem, e quanto ao tecido, ficou assustada, não sabia do que se tratava.
A madre-superiora, em desespero e já com raiva, pois sentia como se a jovem mentisse, abriu o baú e começou a jogar tudo o que encontrava de lá para fora. Não havia tecido algum. Agarrou os braços de Julianne gritando:
- Eu sei que estava aqui, eu vi, eu o segurei nas mãos, jamais mentiria uma coisa desse tipo! Por que você está me escondendo a verdade, Julianne? Diga-me? De quem ganhou aquele pano?
- Eu não sei, madre... não sei de pano algum... tudo o que tenho é o que a senhora jogou ao chão... eu nunca mentiria para a senhora! – sua voz estava embargada, e as lágrimas começavam a escorrer pelos cantos dos olhos.
Irada, a madre desferiu-lhe uma bofetada na face, que de tão branca e delicada avermelhou-se imediatamente.
- Eu sei que você está mentindo, Julianne! E já que você não quer ser verdadeira comigo, você irá sofrer as conseqüências disso! – afirmou a madre, despregando um saquinho que ficava por dentro do seu manto.
Dentro deste saquinho, havia uma certa quantidade de pedras pequenas e pontiagudas, que imediatamente a mulher lançou ao chão, dizendo:
- Levante suas saias e se ajoelhe sobre elas, em penitência! Você só sairá dela quando eu autorizar!
Retirou-se, batendo a porta violentamente.
Julianne sentia as lágrimas escorrerem pelo seu rosto, queimando toda a pele, e principalmente no lado da face em que fora atingida pela mão de sua superiora. Não conseguia entender nada do que lhe acontecera. Por que a madre pensava que o doce anjo que embalava seus sonhos pudesse ser um homem? Era uma coisa impossível, não havia homens ali além do corcunda e do que morava no porto. E também o comentário sobre o tecido vermelho; nunca vira pano algum em seu baú, não conhecia ninguém que pudesse lhe dar um presente desses. A revolta crescia dentro dela, e não conseguia se concentrar nas orações, não saía da sua cabeça tamanha difamação e muito menos, de vir da boca da mulher que era a única mãe que ela conhecia. Tentava compreender as coisas, mas também, a dor em seus joelhos causada pelas pedras, tirava sua concentração e teve de se segurar com as mãos à mesinha para conseguir se manter na posição, pois sentia que estava sangrando no local.
Naquela noite, as noviças não viram ao jantar nem Kelly, nem Julianne. A madre fez a oração de costume e fez sua refeição no rígido silêncio, que ninguém tinha coragem de romper.
No dia seguinte, uma carta chegou endereçada à Kelly, eram notícias de sua família, dizendo que em breve iria buscá-la e que adiantasse os preparativos do seu enxoval. Para a jovem, a notícia foi restauradora, voltou a sorrir, embora ainda fosse um sorriso melancólico, e até mesmo voltara a conversar com as outras moças, mas quando alguém perguntasse o motivo que a deixou muda durante alguns tempos se calasse e mudasse de conversa.
Julianne foi encontrada inconsciente em seu quarto dois dias depois, as pedras perfuraram-lhe gravemente os joelhos e perdera muito sangue. Foi acometida de uma febre aguda que a deixou de cama durante algumas semanas. A madre sentiu-se culpada desta calamidade, poderia ter perdido a jovem, mas que outra coisa poderia ter feito, se esta se recusava a lhe falar a verdade. Tratou-a com muito amor e carinho no seu período de convalescença, mas nunca deixava a jovem descobrir que era ela quem pessoalmente lhe tratava.
A madre também tentava descobrir algo em meio ao delírio da febre, mas a jovem apenas soltava gemidos.
Tão logo Juliannne se recuperou, embora as cicatrizes nos joelhos perdurassem, Kelly puxou-a para uma conversa a sós, onde as duas fizeram as pazes, perdoando-se mutuamente. Nada foi dito sobre o passado. A partida de Kelly estava próxima, não havia que se perder tempo com ressentimentos. Parecia que toda aquela aura de terror iria se dissolver. Mas era apenas uma impressão, a madre mal conseguia dormir a noite, em vigília, preocupada com suas noviças e Julianne, que nunca mais conversara com ela, parecia ressentida e até mesmo evitava lhe lançar qualquer olhar.
Enfim, numa noite, o vestido de noiva de Kelly ficou pronto e todas as jovens alegremente passaram a comemorar. Queriam que ela experimentasse, e a moça feliz e encantada com tão belo presente, correu aos seus aposentos para preparar uma surpresa às outras. Assim que a viram vestida, todas festejaram ao seu redor, e a madre-superiora tranqüilamente permitia-lhe aquele momento de distração, era realmente necessário para afastar todos aqueles fantasmas dos meses anteriores.
Kelly não possuía toda a beleza divina de Julianne, mas seu semblante de felicidade, ressaltado pela pureza e brancura do vestido e de suas rendas, parecia um doce anjo a iluminar as demais. A jovem, preocupada em não sujar ou amarrotar o vestido, retirou-se para mudar de roupa.
Lentamente, voltando para seu quarto, pensava em sua vida, e naquele instante não conseguia recordar os meses de terror. Realmente estava feliz, tinha amigas preciosas no convento, tinha uma acima das outras que mais lhe acalentava o coração e fizera as pazes com ela, iria se casar e seria feliz, não havia o que temer.
Na sala onde todas festejaram, as outras moças começaram a ficar impacientes com a demora de Kelly em mudar de roupa, talvez estivesse tendo algum problema com os laços ou algum alfinete. A mais velha das jovens foi procurá-la, quem sabe poderia ajudar.
Mas, repentinamente, ouviu-se um grito aterrorizante. A madre-superiora sentiu todos os seus nervos se retesarem e a pressão cair, mas lutou contra a vertigem, e correndo com ânimo a frente das moças, subiu as escadas que levavam aos quartos e já no corredor parou estática.
A moça que fora chamar Kelly estava agarrada à parede tremendo de horror e apontava em direção a porta do quarto da outra. O sangue da madre-superiora parecia congelar nas veias, e como um fantasma ela foi caminhando em direção ao local. Avistou o pé da jovem a prender a porta, e quando se encostou a ela para abrir, quase caiu.
Outras jovens agarraram a madre, e lançaram um olhar para a alcova, mas começaram a gritar apavoradas. Julianne desmaiou, sendo amparada por uma que estava as suas costas.
A madre-superiora, com muito sacrifício recuperou suas forças e contemplou a jovem.
Não conseguia aceitar o que estava vendo. Atravessado no peito de Kelly, uma das barras de ferro da janela havia sido fincado e lhe perfurara o coração, manchando quase que totalmente seu longo vestido branco. O sangue ao seu redor formava poças e tremendo ela deu ordem para todas se afastarem e voltarem imediatamente para a sala onde estavam, e ficassem juntas. Chamou as faxineiras para ajudá-la, e enquanto aguardava a chegada delas, contemplava a cena do crime.
Havia um assassino dentro do convento. Não havia mais dúvida. Olhou o rosto desfalecido da jovem, e não agüentou segurar o pranto. As lágrimas deslizavam silenciosas por seu rosto. O homem se escondera no quarto, e com tamanha força conseguira até arrancar uma das barras de ferro que protegiam as janelas. Com certeza, logo após cometer tamanha monstruosidade, fugiu escondendo-se, provavelmente em outro quarto.
Sentou-se na cama, cruzou as mãos e fez uma oração pela alma da jovem, mas, ao levantar os olhos, ficou petrificada, não havia notado antes, mas atrás da porta havia alguma coisa, havia uma frase escrita com o sangue de Kelly.
“Ela sabia demais!”
Aproximou-se para ver com mais nitidez, e confirmou o que havia lido antes. “Ela sabia demais!” Mas sabia o quê?
Então, como se também recebesse uma punhalada, lembrou-se da confissão desesperada da jovem, que dizia que iria morrer. De fato, ela sabia de algo de extrema gravidade que estava acontecendo lá dentro e não podia revelar, e por conta disto havia sido silenciada. Quem deveria ser o monstro que invadia o convento, um lugar santo, para cometer esses horrores? Quem era o demônio que levava a vida daquela menina e por que motivo?
Sua mente, ao pensar na palavra demônio relacionou-se ao corcunda. Não! Como poderia ser ele? Era o único homem que estava ali, e fazia parte do convento muito antes dela se tornar madre-superiora, ela já era de idade avançada e ele provavelmente muito mais, como teria forças para cometer tais crimes?! Escutou a batida nos portões de ferro e novamente se sobressaltou. Alguém estava ali.
Deixando o corpo com as faxineiras, a madre correu a atender a porta. Quem estaria no convento em tal hora? Teve medo quando estava próximo da porta, talvez fosse realmente um erro trazer tantas jovens para um lugar deserto e ter somente dois homens velhos por toda a ilha. Perguntou com voz firme quem era, e notou que era o casal que morava no porto. Imediatamente, abriu os portões e os introduziu no convento. O homem parecia assustado, bem como a mulher. Ele foi logo dizendo:
- Minha senhora, perdoe-nos vir incomodar tão tarde, mas é que, realmente é um assunto grave e de seu interesse!
A expressão de pavor estampada no rosto dos dois preocupou-a mais ainda, saberiam eles do assassinato que acabara que ocorrer ali ou traziam notícias ainda piores? Autorizou que o homem continuasse falar.
- A senhora sabe que minha obrigação é cuidar do nosso porto, e sabe que sempre fiz isso com muita dedicação, e que nunca permiti que outra pessoa além do padre colocasse os pés aqui... mas algo de muito estranho deve estar acontecendo... tenho um cão de caça, e recentemente ele me apareceu com um pedaço de osso que me pareceu muito suspeito... preocupado, tomei o osso e junto com o cachorro fomos em busca de onde ele havia encontrado o objeto... a senhora não imagina o meu espanto quando ali encontrei um carcaça humana, já em avançado estado de putrefação!
- Meu Santo Deus! – murmurou a madre-superiora.
- E creio, minha senhora, que os despojos são do jardineiro do convento!
- Não é possível!
- A senhora sabe que eu o conheço há muito tempo, e mesmo o corpo estando comido de vermes e repleto de corvos arrancando as carnes, não haveria como me enganar... espantei as aves, e mesmo com o cheiro fétido me aproximei o máximo que pude... tenho certeza que é o jardineiro!
- Isso é impossível! Eu o vi hoje mesmo!
O homem deu um salto, e a esposa se benzeu. Ele continuou:
- Justamente por isso que estou aqui, minha senhora! Pelo estado em que encontrei o corpo, o seu jardineiro faleceu na mesma ocasião ou um pouco antes daquela cozinheira! Esse homem que está aí não pode ser ele! Seu jardineiro sempre me tratou muito bem, apesar de todas as suas deficiências, mas este aí foge ao meu contato.
- O senhor tem certeza do que está me dizendo? – disse a madre, alarmada.
- Tenho! Não podem ser a mesma pessoa!
- Preciso lhes mostrar algo! Disse a madre.
Ela os levou até o aposento de Kelly e os dois ficaram atônitos, a mulher teve uma vertigem e o homem exclamou:
- Foi o que eu disse! Esse homem conseguiu adentrar pela outra parte da ilha, pode ser algum maníaco, algum prisioneiro abandonado para morrer ou algum pirata! O antigo jardineiro jamais cometeria essa abominação! Precisamos todos nos unir e nos proteger, tentar enviar algumas delas de volta para suas famílias ou até mesmo para outros conventos. Esse homem invadiu o convento.
- Eu não consigo crer, é muito assustador!
- Vou provar para a senhora! Irei agora mesmo a casinha do jardineiro! – E o homem se retirou o mais rápido que pôde.
As duas mulheres ficaram a sós no quarto de Kelly, até que a madre chamou a outra senhora para ficarem juntas com as noviças, pois seria mais seguro. As jovens estavam alvoroçadas e não aceitavam ficar sem explicações. Falavam todas ao mesmo tempo, até que a senhora do porto, pediu-lhes silêncio, para que aguardassem apenas mais alguns instantes que tudo seria esclarecido.
O homem retornou ofegando e lívido, exclamando no meio de todos, sem se importar com a confusão:
- Foi o que eu disse, minha senhora! Na cabana do jardineiro não há nenhum sinal! Não há ninguém ali! Se a senhora quiser, farei a vistoria em todos os quartos imediatamente! – como a madre assentiu, o homem foi cumprir sua missão o mais rápido que pôde.
A madre cobriu o rosto com as mãos, sentindo uma mistura inexplicável de sensações: medo, dor, angústia, vergonha. Mas, teria que ser mais forte, pois as moças novamente começavam a balbúrdia e era preciso esclarecer os fatos e colocar ordem. Bateu palmas, e todas sentaram-se silenciosamente ao seu redor, para ouvi-la:
- Minhas queridas filhas, não fui sincera e peço perdão a Deus e a vocês por isso. Agi de forma indigna, tentando lhes ocultar a verdade, acreditando que desta forma estariam protegidas, mas me enganei. E vou agora relatar os fatos: Nunca houve um animal peçonhento aqui, nossa cozinheira foi assassinada por estrangulamento e Kelly, da forma brutal como vocês puderam ver. O homem que fingia ser nosso jardineiro na verdade é um impostor. O jardineiro verdadeiro foi encontrado morto, e pelo visto desde a ocasião em que a cozinheira também se foi. Chegamos a conclusão que algum invasor penetrou nesta ilha desejando semear o mal e aqui se refugiou. Não sei como isso aconteceu, mas é com muita dor que venho lhes comunicar isso. Nosso convento já não é um lugar seguro para nenhuma de nós, estamos indefesas e por conta disto, hoje mesmo estarei elaborando uma carta para cada uma das famílias que possui filhas aqui para que venham buscá-las, e aquelas que são órfãs, estarei enviando para outros conventos.
Quando terminou seu discurso, as moças estavam pálidas, silenciosas e assustadas. Também não podiam conceber em suas cabeças inexperientes que aquele lugar que fora sempre tão seguro fora conspurcado pela mão de um assassino demoníaco. Depois do silêncio inicial houve choro, lamentos e tristeza.
Julianne, ainda tão bela, por entre as lágrimas, fazia uma prece silenciosa para que seu anjo a procurasse para protegê-la daquele mal e em nome de Deus não permitisse que mais atrocidades ocorressem e ela e suas companheiras não tivessem de ir embora.
O homem retornou cansado e ofegante, e garantiu que o assassino havia fugido, pois vistoriou os quartos e nada havia, e encontrou uma porta que dava para o bosque escancarada. Imediatamente fechou e pôs um peso para que não pudesse ser aberta pelo lado de fora.
A madre-superiora acolheu o casal em seu convento e encaminhou as moças para seus dormitórios, dando novamente a instrução para trancar a chave e não abrir senão sob suas ordens.
Julianne lentamente foi seguindo as demais, o coração apertado pela perda da grande amiga. Tentava entender por que alguém faria mal à uma jovem, e sua mente, num turbilhão, lembrava dos meses em que estivera brigada com a amiga. Nunca poderia imaginar o que havia acontecido no bosque naquela ocasião. Lembrava-se apenas, de que, como num sonho, ouvira uma flauta tocar com maestria e adormeceu, acordando somente quando estava no castelo. Será que talvez o maníaco tenha tentado se aproximar dela durante o sono e Kelly a tenha defendido? Nunca poderia saber, mas sentiu o peito apertado.
Entrou em seu quarto e viu que havia uma claridade tênue, não se lembrava de ter deixado a vela acesa. Trancou bem a porta, e quando se virou para o interior, viu um pano sedoso e de uma cor viva aberto sobre o seu baú. Estremeceu, e pegou levemente numa das pontas que se arrastava até o chão, era de fato, um belo tecido. Então, seria esse o tecido pelo qual havia sido ela castigada, mas não entendia como ele havia parado ali, seria uma brincadeira de alguma de suas amigas, ou pior, seria um presente do assassino que andava a solta pelo convento?
Sentiu uma vertigem, talvez promovida por todas as emoções daquele dia. Era como se a névoa que circundasse a ilha, passasse a invadir o seu quarto ou os seus olhos, e como numa visão, viu um homem sair de dentro do baú, enrolado no pano vermelho. Esfregou os olhos para verificar se realmente era verdade, mas já não conseguia distinguir realidade ou ilusão.
Nunca havia visto outro homem em sua vida senão o jardineiro corcunda ou o homem do porto e sentiu suas pernas tremerem. Era uma criatura belíssima, alta, de ombros largos e braços fortes, pernas rígidas e uma pele branca e aparentemente sedosa. Possuía cabelos negros e lisos que lhe cobria em parte a testa e o canto dos olhos, que também eram escuros. Sorria, e era um sorriso envolvente.
O homem adiantou-se e abraçou-a por trás. Seu abraço era irresistível, e ela sentiu as pernas novamente estremecerem e seu coração palpitar intensamente. Ele puxou o véu que cobria os cabelos dourados, e mergulhou o rosto neles. Em seu abraço, com uma das mãos deslizava pelos seios da jovem e seu abdômen, e com a outra agarrava-lhe o pescoço, sorvendo o perfume dela.
Julianne nunca experimentara tamanha sensação de prazer em sua vida, nem mesmo os êxtases religiosos ou o contato com a natureza propiciavam todo esse calor que se irradiava pelo seu corpo.
O corpo do homem colado ao seu era quente e terno, não havia como resistir. Num impulso, ele a virou de frente para si, e começou a despi-la. Enquanto os trajes de noviça e até mesmo os trajes íntimos caiam ao chão, ela não conseguia sequer envergonhar-se, pois a sensação prazerosa era intensa.
Sentia seu sexo queimar e deixá-la molhada, e era algo novo, indefinível. De repente, o homem colou sua boca na dela, e tudo ao redor pareceu sumir. Quando tornou a abrir os olhos, ele a apertou mais ainda contra seu corpo e foi lhe conduzindo até a cama de solteira.
A jovem deitou-se, e não conseguia parar de fitar os olhos daquele ser, e ele devolvia o olhar com extremo desejo. A jovem sentia que queria mais, mas sequer sabia o que era esse mais.
Novamente ele a cobriu de beijos da cabeça aos pés, e ela apenas se entregava pensando que se tudo aquilo fosse um sonho, seria o melhor de todos que ela já havia experimentado. Deixou com que ele usasse seu corpo da forma que bem lhe aprouvesse. Então, ele abriu suas pernas e introduziu algo volumoso e quente no seu interior, e Julianne sentiu uma mistura de dor e prazer intensos. E quanto mais o homem em cima dela se movia, maior era o seu prazer, até culminar num êxtase intenso, onde ela sentia todo o seu corpo pulsar. Escorriam lágrimas dos seus olhos, mas eram lágrimas de quem não conseguia esconder nem nomear tudo o que estava sentindo. Por fim, dentro de si, sentiu o homem expelir jatos quentes e relaxar. Então, ele deitou-se ao seu lado e continuou a lhe dar carinho.
Embevecida com todo aquele prazer que ele lhe proporcionara, ela se ergueu e passou a devolver cada beijo que ele lhe deu pelo corpo todo, com paixão. O homem gemia baixinho, como se, assim como ela, estivesse delirando com toda aquela sensação. Sentiu que ele a puxava para que ficasse por cima, e com calma, ele a conduziu até seu membro e fez com que ela se sentasse e passasse a se mexer por sua vez. Novamente, depois de algum tempo ela sentiu a explosão das ondas de prazer percorrer o seu corpo, e caiu sobre ele abraçada, murmurando:
- Agora sei quem você é... eu pedi que você estivesse aqui esta noite, e você atendeu meu pedido...
Ele sorriu, e com uma voz grave e ao mesmo tempo suave, a mesma voz que ela ouvia em seus sonhos, respondeu:
- Sim, eu vim... estou aqui porque eu te amo! – e beijou novamente a sua boca.
Aquelas três últimas palavras que ele dissera, ficaram reverberando em sua alma, e ela as reproduziu:
- Sim, eu também te amo... não me deixe... tenho medo... me proteja!
- Protegerei.
Logo após, adormeceu nos braços daquele que ela julgava ser o seu anjo protetor, e quando acordou na manhã do dia seguinte, ele não estava mais lá. Estava sozinha e nua em seu quarto, enrolada no pano vermelho, e notou que seu lençol também tinha uma pequena mancha vermelha; pensou que talvez suas regras tivessem chegado, e tratou de ajeitar tudo.
Quando terminou, agarrou-se ao pano vermelho como se agarrasse ao seu dono que estivera ali a noite passada. Com medo que a madre-superiora encontrasse o pano e a castigasse novamente, escondeu-o por baixo do colchão.
Mal havia feito isto quando a madre adentrou em seu quarto parecendo muito pálida e assustada:
- Julianne, você recebeu uma carta!
- Carta? Mas de quem minha senhora? Não conheço ninguém lá fora!
- Mas alguém a conhece! Veja isto!
A carta dizia que a moça em questão pertencia a uma família muito nobre, mas que para protegê-la, tiveram de omitir o fato quando foi enviada ao convento. E que agora, a família iria buscá-la, pois um outro lado da família estava procurando a jovem para tentar usurpar o poder.
- Nossa, nunca poderia imaginar tal coisa... o que a senhora me diz?
- Bem, acho que devemos deixar suas coisas no jeito, e aguardar que apareça alguém no porto com uma carta de recomendação para levá-la!
Então a madre levantou-se e encostou a porta para falar com mais privacidade junto à sua noviça:
- Sabe, Julianne... eu também estou impressionada com esta história, nunca imaginei que isso pudesse acontecer algum dia... e vou te confessar algo... sempre desejei que você ocupasse meu cargo quando eu não mais estivesse por aqui... não se assuste... é verdade... talvez até por isso eu tenha sido mais rígida com você do que com as outras... agora me sinto perdida em meio a todos esses acontecimentos dos últimos tempos...
- Madre, fico muito lisonjeada em saber da sua vontade... mas, e agora, o que pretende fazer?
- Já enviei as cartas para as famílias e para outro convento... e em poucos dias, todas deveremos partir... estou apavorada com esse homem... não sei como ele conseguiu entrar em nosso convento e destruir nossa paz... três vidas foram desgraçadamente destruídas por suas mãos... e não posso fazer outra coisa senão fugir... sinto-me velha e cansada... ah, Julianne, minha querida... você tem certeza que não sabe de nada?
A jovem engoliu em seco, como poderia revelar sobre o pano vermelho ou a presença do anjo na noite passada em seus aposentos, a madre ainda poderia encará-la com desconfiança. Refletiu e achou melhor nada dizer.
A madre continuou:
- Bem, se você também não sabe, o que posso eu fazer? Você era minha única esperança... deixe suas coisas arrumadas, minha filha, não sabemos ao certo quando virão lhe buscar, mas garanto que será em breve.
Quando a madre-superiora retirou-se dos seus aposentos, a jovem ficou encarando a parede cinzenta da sua alcova, sabia que estava omitindo algo, mas nem mesmo ela entendia ao certo o que estava acontecendo, e tinha medo, que se revelasse tudo, o seu protetor não mais voltasse a lhe visitar nos poucos dias que restavam para ela naquele recinto. Sequer ficava imaginando a família que nunca conheceu, apenas queria sentir novamente todo o turbilhão de emoções que experimentara na véspera.
O desejo de Julianne foi concretizado, e quando retornou à noite para sua alcova, lá estava ele lhe esperando, e tornaram a se amar, de forma ainda mais intensa. Depois do amor, recostada em seu peito, a jovem revelou sobre a carta, e sentiu que seu companheiro estremecera.
- O que aconteceu, meu amor? – perguntou ela.
- Nada! Mas sei que não posso lhe perder... Diga-me, meu anjo, você será sempre minha?
- Mas é claro!
- Confiaria em mim com todo o seu coração?
- Com todo o meu coração e a minha alma.
- Até mesmo se fosse preciso conhecer as terras da morte para estarmos juntos?
Ela sobressaltou-se, mas ainda sorrindo respondeu:
- Sim, eu lhe seguirei em tudo!
Ele tornou a beijá-la, mas ela percebeu que havia lágrimas em seus olhos. Teve vergonha de perguntar o motivo do pranto, e calou-se, para enfim repousar nos braços do amado.
Quando a madre-superiora passou batendo de porta em porta para despertar as jovens, achou estranho que Julianne não atendesse ao seu chamado, e com sua chave-mestra adentrou no recinto. O coração da mulher estremeceu, o quarto estava organizado como se nem mesmo alguém estivesse repousado ali, mas uma coisa chamou-lhe profundamente a atenção: o pano vermelho estava sobre a cama, como uma colcha, e sobre ele, um pedaço de papel.
Com uma letra que não era a de Julianne, havia o seguinte escrito:
“Encontre-me em seu gabinete ao entardecer!”
A madre-superiora levou as mãos aos olhos e começou a chorar. Agora tinha certeza, o maníaco levara Julianne. Seria então ele um dos membros da família que desejava usurpar o poder e havia tramado todo aquele plano ardiloso para capturá-la? Mas como teria ele reconhecido quem era a jovem?
Como não quis causar pânico entre as outras jovens, alegou que Julianne estava indisposta e que ninguém fosse perturbá-la em seus aposentos. A madre superiora, de fato, não teve coragem de subir até o seu gabinete antes do prazo determinado. O coração doía-lhe profundamente no peito, desesperada sem saber o paradeiro de sua noviça. Trancou-se no seu quarto de descanso, mas sequer conseguiu sentar, andava de um lado para o outro imersa em orações pela alma de Julianne, rogando desesperadamente ao seu Deus que a protegesse de todo mal.
Quando chegou o momento, foi caminhando como num estado sonambúlico até seu gabinete, e quando entrou não encontrou outra coisa senão o ambiente escuro. Acendeu uma vela, sentou-se, mexendo em alguns papéis que estavam sobre a mesa. Mas, de repente, sentiu que não estava só ali, viu um vulto por trás da porta e logo ele se moveu e trancou o gabinete. Foi caminhando até ela, e sentou-se numa das cadeiras destinadas a algum convidado.
A madre-superiora ficou surpresa. Sentado ali com ela não havia um monstro disforme nem um homem com aspecto de maníaco, pelo contrário. Sentado a sua frente, um homem de semblante belíssimo e muito bem trajado sorria de forma amistosa.
- Quem é você? Perguntou ela, sentindo que sua voz tremia.
- Posso ser muitas pessoas, mas vou me apresentar como você quer me conhecer: sou o assassino do convento!
A mulher esforçava-se para não demonstrar o seu pavor, e por baixo das vestes, torcia angustiada, as mãos.
- Não é preciso que fique nervosa, não farei mal à senhora! Mas preciso contar primeiro minha história.
Recostou-se tranqüilamente no encosto da cadeira, e começou a narrar os fatos:
- De fato, sou um dos parentes de Julianne! Quando ela nasceu já estávamos predestinados um ao outro, mas nossas famílias entraram num conflito devastador, que resultou em muitas desgraças, sendo uma delas, o fato da mãe de Julianne ter de se desvencilhar da filha para poder protegê-la, e assim, Julianne veio parar aqui, neste convento. Meus pais também conseguiram me esconder e preservar, mas quando me tornei homem e tomei conhecimento da minha história decidi me vingar e sair em busca daqueles que destruíram toda a minha paz, mas já era tarde, muito tempo havia se passado, fui preso durante alguns anos numa masmorra infernal, e lá experimentei todo o tipo de humilhação que pode ser infringida a um ser humano. Dentro de mim cresceu um ódio desmesurado e eu sentia que devia procurar minha noiva, pois somente ela poderia trazer a paz novamente para as duas famílias. A única coisa que eu sabia sobre ela era que estava num convento, mas existiam tantos, seria impossível saber. Consegui fugir da masmorra, e junto com piratas cruzei os mares. Foi quando numa ocasião ouvi falar do convento escondido numa ilha assustadora, era quase uma lenda e todos diziam que as meninas enviadas para este lugar eram preservadas de todo o mal exterior e que ninguém poderia atingir a ilha, embora muitos tenham tentado e morrido nas densas florestas que a protegiam. Senti que era esse o lugar, e que eu precisava alcançá-lo, nem que para isso perdesse a vida. Os piratas desembarcaram-me nesta ilha, deram-me provisões e eu pude a cada dia, tentar me embrenhar selva a dentro.
Foi quando ouvi o som da flauta de Julianne. Desconfiei que era ela, nossa família tinha um talento impressionante para a música, não deveria ser diferente com minha noiva. Mas eu precisava vê-la para ter certeza, e como também eu portava uma flauta, cativei-a pelos sons e consegui atingir sua mente, fazendo com que ela pensasse que eu era um anjo protetor. Então eu a vi, também trazia comigo uma foto da mãe de Julianne, herança dos meus pais, e simplesmente as duas eram iguais. Não tive dúvidas, senti meu coração disparar e eu precisava fazer alguma coisa para resgatá-la. Numa noite, rondando pelas imediações do convento, o velho jardineiro corcunda me avistou e tentou me delatar, não podia permitir que isso ocorresse sem que eu tivesse dominado completamente os pensamentos de Julianne, e tive de matá-lo! Aproveitando-me da condição privilegiada que ele tinha em estar próximo do convento, tomei o seu lugar e passei a imitá-lo em seus gestos e modos, ninguém desconfiou. Consegui cada vez mais me aproximar de Julianne, fazendo com que acreditasse nos seus sonhos juvenis de anjos e bondade, e numa ocasião, em que ela foi ao bosque consegui hipnotizá-la ao som da flauta, e ela caiu inconsciente. Quando me aproximei, a sua amiga viu-me e começou a gritar, achando que, na realidade, quem se aproximava de sua amiga era o velho corcunda. Tive de fugir, mas deixei-a sob ameaças. A jovem passou a espreitar cada um dos meus movimentos, e protegia dia e noite a amiga, mas fingia estar brigada. Ela não queria falar, ao menos que me pegasse. Então para atemorizá-la, intensifiquei minhas ameaças. Até que, na ocasião em que tentei entrar a primeira vez no convento e a cozinheira descobriu-me e tentou me enfrentar, também foi preciso silenciá-la. Consegui entrar no convento depois de nova tentativa, e desta vez a noviça me viu; foi na ocasião em que tentou falar com a senhora, mas o medo a paralisou. Não havia mais como ela permanecer viva, sabia demais e poderia facilmente me prejudicar agora que eu conseguira entrar. E, para dificultar ainda mais meu trabalho, a senhora estabeleceu muitas normas, como a de não deixar nenhuma moça andar sozinha pelo convento. A única ocasião que pude alcançar a jovem, foi no dia em que todos, distraídos a deixaram sozinha por um minuto. Ela tentou lutar, mas foi em vão. Consegui, por fim, entrar na alcova de Julianne e a tornei mulher, mas não esperava que a família a encontrasse aqui. Ela contou-me tudo, acreditando que eu era seu anjo, e eu tive de protegê-la ao meu modo. Essa parte da família que escreveu a carta, era justamente o lado que queria destruir Julianne. Queriam recuperá-la para arrancar toda a fortuna que ela nem sequer sonhara ou se importara em ter. Tive de defendê-la novamente, e assim como havia me entregado o seu corpo, também me entregou a alma...
- O que você está me dizendo?! Matou-a também? – A madre superiora estava atônita com toda aquela história repleta de reviravoltas, traições e mortes.
- Matei a mim mesmo, antes de fazer isso!
A mulher observou-o sem compreender.
- Sim, matei-a, mas por que ela me entregou a sua vida. E se a senhora quiser, posso levá-la até o seu corpo! Mas com uma única condição!
- Qual? – perguntou a madre, já com os olhos marejados.
- Eu nunca teria tirado a vida de ninguém senão fosse para proteger Julianne, nunca teria tirado a vida dela senão fosse para protegê-la de todos os horrores que a estariam esperando quando retornasse para a família amaldiçoada. Preferiria mil vezes acabar com minha vida a ter permitido que tudo isso tivesse acontecido, mas foi o único jeito que tinha para salvá-la...
- Somente Deus salva uma pessoa...
- Se realmente seu Deus tivesse se importado alguma vez, as coisas nunca teriam chegado ao patamar que chegaram! Eu não seria um assassino! Julianne não estaria morta! Você quer ou não vê-la?
- Quero!
- Prometa-me primeiro que ninguém saberá desta história! Quando os familiares de Julianne chegarem aqui na ilha, diga a eles que ela morreu no mesmo dia em que a trouxeram para cá. Faça com que eles pensem que ela nunca existiu!
- E para que farei isso?
- Porque Julianne sim era um anjo, era um anjo que traria a paz que eles não queriam. Não quero que sequer saibam que eu existi. Tudo ao final foi em vão, mas a memória de Julianne eles não poderão conspurcar, entende?
- Agora, entendo... você quer preservar a imagem de Julianne, mesmo depois de morta!
- Sim, antes acreditem que ela não tenha suportado os rigores do inverno quando era criança do que ter sido entregue ao homem a quem estava destinada.
- Leve-me até ela, então!
Esgueirando-se pelos corredores mais sombrios e escuros do convento, o rapaz conduziu a madre-superiora por uma entrada secreta, até uma trilha escura, floresta adentro, e quando ela atravessou todo aquele percurso, avistou um barco junto a margem. Ele apontou-lhe a direção, e ela caminhou cambaleante pela areia. Quando olhou seu interior, ali jazia o corpo angelical de Julianne, envolto num vestido branco e com várias flores ao seu redor. Pensou consigo: “Teria este rapaz feito de tudo mesmo para salvá-la de um destino pior que esse?”.
A madre-superiora tornou a encarar os olhos do assassino, mas notou que eles estavam marejados d’água e o arrependimento dele parecia sincero. O rapaz desamarrou as cordas que prendiam o barco, e pulou para dentro dele.
- Preciso partir com minha irmã! Perdoe-me!
Abraçou o corpo sem vida de Julianne, e o barco saiu flutuando pelas águas. Durante algum tempo, a madre superiora ficou observando o barco se afastar, inerte. Mais que noivos, eram irmãos! Talvez estivesse justificada tanta desgraça causada no seio da família e na própria vida dos que conviveram com Julianne. Mas ainda assim, nada precisava ser do jeito que era. Muita dor, muita lágrima, o fim do seu convento, as mortes, não teria Deus outro meio de resolver tamanha situação?
De repente, notou que o barco havia parado, e esfregou seus olhos para confirmar o que estava vendo, e estava afundando. A mulher correu até a margem tentando ver mais adiante, mas tudo o que viu foi a embarcação afundar nas águas escuras, com os dois irmãos que estavam destinados a se amar como homem e mulher. Talvez houvesse mesmo sido melhor Julianne partir sem saber qual a identidade do seu protetor, antes pensasse mesmo que era um anjo.
Afinal, a vida tinha mais mistérios do que um ser humano poderia imaginar, e mesmo para coisas sem razão ou extremamente condenáveis talvez houvesse um motivo além da compreensão. Então, a madre-superiora fez o sinal da cruz, e voltou ao seu convento pela última vez.


Ana Claudia Brida
28/07/2007