
A
poeira subia pela estrada de terra, com a velocidade do pequeno carro
vermelho. Os pés, descalços e feridos pela corrida desenfreada até
conseguir obter um meio de fuga, calcavam com tudo o acelerador. As
mãos brancas no volante tremiam e delas uma gosma misturada de suor
e sangue.
O
amanhecer lentamente estendia-se no horizonte e em breve, chegaria à
rodovia, onde provavelmente, mais cedo ou mais tarde, alguém a
deteria. Mas já não importaria mais para Lígia. Queria apenas se
distanciar das pessoas que tanto intoxicaram sua vida, que
prejudicaram sua família e que, no fim das contas, num mundo de
tantas injustiças, sairiam impunes se ela nada tivesse feito.
Sua
mente era um turbilhão de lembranças e ela revisitava todas as
memórias que a fizeram chegar naquele instante de agonia que
desencadeou sua vingança. Sua primeira lembrança era a de que o pai
estava morto, vítima de uma depressão que o levou ao suicídio.
Depressão causada por uma dívida contraída para libertar um dos
filhos do vício nas drogas. Não adiantou, pois o rapaz, crente do
valor dos falsos amigos, não deu ouvidos à família e mergulhou
rumo à morte certa nas mãos dos traficantes. Ambos mortos, seu pai
e seu irmão… causas diferentes, motivos iguais.
Para
permanecer viva, ela e a mãe tiveram de prestar serviços, tais
quais escravas, para o bandido maldito, causador da morte de seus
entes, e a prepotente família, enriquecida por agiotagem, tráfico e
corrupção. A mãe, exaurida física e mentalmente, trabalhou alguns
anos, mas também havia sucumbido a um câncer em um leito de
hospital, cabendo apenas a si mesma a prestação de serviços para
pagar a dívida eterna.
A
segunda lembrança, a dívida que engolira toda a sua família e
agora sugava-lhe a existência. Evaldo, esse era o nome do assassino
de sua família, o maldito traficante que seduziu seu irmão, o
miserável agiota que destruiu seu pai, na verdade, um importante
político a quem estava aparentemente amarrada enquanto vivesse. Nos
círculos sociais, era um indivíduo sempre presente, fingindo
caridades por um lado, enquanto pelo outro arrancava o dinheiro e a
dignidade das pessoas. Sujeito imenso e intimidador, pálido, na
faixa dos cinquenta anos, porém ainda não totalmente grisalho, de
grandes e saltados olhos azuis recobertos de olheiras fundas, sorriso
sarcástico, barriga protuberante e enormes mãos que facilmente
esmagariam o que tocasse. Falava alto e sempre dando ordens,
gesticulava muito e, por baixo de suas roupas sociais, andava sempre
com uma arma escondida às costas. As pessoas o temiam e obedeciam
quase que às cegas, riam de suas piadas sem graça, acatavam suas
ordens por mais absurdas que fossem. Vivia rodeado de pessoas, de
puxa-sacos às pessoas que extorquia. Tinha prefeitos, governadores,
outros políticos e membros da justiça na palma das mãos. Com
alguns era de uma simpatia cínica, com outros, arrogante e tirânico.
Lígia sabia que, primeiro ele, com seus capangas, torturara seu
irmão até a morte e depois o quanto o pai se humilhara a pedir o
perdão pela dívida; não satisfeito, obrigou-a a prestar serviços
junto com a mãe, até esta também não aguentar. Não suportava
sequer olhar sua face, pois o ímpeto de fazê-lo pagar pelos seus
familiares era o que ainda a segurava debaixo do mesmo teto.
Estava,
pois, sozinha. Crescera dentro da enorme propriedade, aturando os
desaforos e futilidades da esposa do patrão, mulher baixa e
atarracada, recoberta de joias, de voz irritante e manias que
enlouqueceriam a qualquer um; aturando os filhos do homem, duas
crianças intoleráveis e mimadas; havia ainda dois adultos que quase
nunca estavam em casa e pareciam não suportar a própria família. O
lugar era imenso, em meio a serra, uma legítima mansão campestre.
A
casa central era um imponente sobrado acinzentado, de arquitetura
moderna, com vários quartos, salas de visitas e escritórios. A
esposa do patrão, preenchia todos os espaços com pinturas e
esculturas que seus hábitos artísticos a faziam criar. Aos fundos,
havia uma grande área para churrasco e uma piscina, com uma cascata
artificial. Próximo à casa, na lateral, um salão de festas, com
palco, camarins e bar, que eram locados com bastante frequência para
os eventos dos cidadãos ilustres da região; ali, apresentavam-se
artistas diversos e até importantes reuniões que não podiam
acontecer as claras, na cidade, usavam o espaço. Na outra lateral,
um vasto estacionamento para a coleção de carros ali mantida por
Evaldo, de Corvete, Cadilac e Fords antigos aos modernos Escort,
Kadett, Ômega, contando ao todo uns vinte veículos apenas de
enfeite. Atrás do estacionamento, ficava a ala dos empregados, como
uma pequena sequência de quitinetes que mais funcionavam como
penitenciária, visto que, grande parte dos funcionários ali estava
presa por dívidas semelhantes à sua; poucos eram, de fato,
registrados legalmente. Separada da propriedade central, havia a
parte da criação dos animais, que funcionava como haras e, mais
aquém, escondido entre um bosque, quase a alguns quilômetros de
distância, um galpão que funcionava para o cartel de armas e
drogas. Seguranças circulavam armados, dia e noite, em volta de todo
esse território de Evaldo, adquirido às custas de mãos alheias.
Nesse
local, ela perdeu sua família, perdeu sua infância e, por fim, o
que lhe restava de humanidade. Quando foi para lá morar, contava
treze anos. Menina alta, magricela, de olhos esverdeados e
assustados, retraída, com o hábito de retorcer frenquentemente as
mãos brancas de longos dedos. Pagaram seus estudos e financiaram sua
entrada em um curso de Psicologia, pois percebiam que era inteligente
e poderia se tirar proveito disso, gostava de ler e, quando
raramente, dispunha de uma folga, fugia para a biblioteca da mansão,
recheada em sua maioria de livros da área do Direito, pois Evaldo e
sua esposa possuíam a mesma formação. A medida que foi crescendo e
seu corpo acompanhando o desenvolvimento, Evaldo viu desabrochar
dentro da casa a mais bela jovem a que tinha visto: esbelta, de corpo
feito, olhar agateado e os longos e sedosos cabelos castanhos que
ondeavam-lhe pelos quadris quando andava. Dessa forma, ao tornar-se
mulher, por todos a considerarem muito bela, Lígia passou a
trabalhar no salão de festas como garçonete, preparando e servindo
bebidas e como um atrativo para os homens poderosos da região.
No
entanto, não chegara nunca a se prostituir, talvez pelo único
fator: Evaldo a queria para si! Desejava-a ardentemente e por querer
ter a posse do objeto que anelava, não permitia que lhe fizessem
mal, que nenhum homem ousasse tocá-la. Quando ia para escola ou logo
que entrou para a universidade, seguranças escoltavam-na de longe,
armados. Era preciosa demais para o patrão desperdiçá-la. Não
podia fazer trabalho em casa de colegas, mas era estimulada a trazer
os mesmos colegas para a mansão como que para servir de pretexto
para demonstração da falsa caridade da família e para que o patrão
não a perdesse de vista.
Ao
perceber o frenesi que o tomava, Evaldo consumiu-se pela insônia.
Pensava na moça a todo momento, almejando sentir-lhe cada parte do
corpo, de forma brutal; desejava mordê-la, beijá-la, apertá-la,
penetrá-la até que desfalecesse em seus braços, sentir a pequena
boca, de lábios vermelhos e levemente carnudos em seu próprio corpo
a fustigá-lo por inteiro. Traíra a mulher inúmeras vezes, mas era
diferente o sentimento novo que o apossara, um desejo que lhe corroía
as entranhas, afligia-o por querer que fosse recíproco. De princípio
não tivera coragem de se aproximar, mesmo ciente do seu poder, por
ter um filho da mesma idade debaixo do mesmo teto; no entanto, quanto
mais o tempo passava, maior o desejo ficava. Noites houve em que
chegou à porta do quarto da moça e por pouco não o invadiu, sem
sequer entender o que o impedira de avançar nessas primeiras
ocasiões. Mandou os dois filhos mais velhos para fora estudar por
receio de a tomarem de si; ameaçara seus empregados se algo lhe
acontecesse e cogitava mil planos para atacá-la, seduzi-la ou
dominá-la a força, além de planos macabros para desfazer-se da sua
esposa e tomar para si a jovem beldade.
Ainda
não chegara a ponto de fazer algo pela proximidade da esposa, sempre
atenta e enciumada, que percebendo os atrativos de Lígia, enquanto
os dela via decair apesar de todas as plásticas, vigiava muito de
perto. Mesmo assim, o asqueroso sujeito, gradativamente, sempre dava
um jeito de roçar-lhe as mãos em toda e qualquer situação que
tivesse oportunidade. Se ela estivesse limpando o balcão do bar,
Evaldo, sentava-se em sua frente, puxava suas mãos, dando apertos
que a machucavam e dizia coisas jocosas, entre a piada aparentemente
inocente ou obscena e, ao mesmo instante, com o receio de, por um
triz, deixá-la escapar; se estivesse passando por ela, numa das
festas, e a garota estivesse servindo algum convidado, apertava-lhe
as nádegas ou aproveitava o movimento da pista de dança, em que
esta precisava transitar para entregar as bebidas, a fim de se
aproximar do seu corpo e fazê-la perceber como o deixava excitado;
essas ocasiões iam lhe tornando eufórico e mais animado a cada nova
investida. A jovem apenas se esquivava, de olhos baixos, não ousando
lhe dizer nada; isso o fez pouco a pouco crer que realmente ela lhe
pertencia.
Com
o passar do tempo, mais de uma vez, armou pequenas emboscadas para
ficar a sós com a garota, em ocasiões que pedia para ser atendido
em particular, mas o máximo que conseguia era sapecar-lhe um beijo
melequento no rosto, uma apalpadela nos seios ou um deslizar de mão
entre suas pernas; ela fugia, como bicho acuado, sempre que possível
ou, para a infelicidade do patrão, eram sempre surpreendidos pela
esposa e seus azedumes. Para dormir, Lígia trancava seu quarto e
colocava várias escoras na porta por medo de arrombamento no meio da
madrugada.
Vivia
nesta situação e sendo lembrada a todo instante que se ousasse
fugir de lá, estaria morta, com certeza, e pela patroa, que a
ameaçava constantemente, caso se aproximasse de seu precioso marido.
Ela enfrentou o jogo, dissimulou toda a sua vida, fingiu estar feliz
e agradecida sentindo-se morta por dentro, trabalhou arduamente,
suportou em silêncio cada situação de assédio. Mas agora,
faltando um ano para sua formatura, já não tinha mais ninguém que
a prendesse ao mundo, não existia mais ninguém que precisasse dela
a não ser ela mesma. Os outros empregados a tratavam com rancor,
ressentiam-se, pois achavam que gozava de mais privilégios que os
demais: tinha um quarto com televisão, videocassete e aparelho de
som só para ela, tinha livre acesso à casa, tinha os estudos todos
pagos e até ensinaram-lhe a dirigir. Mas não sabiam da paixão
fulminante que Evaldo lhe mantinha nem do ódio que Lígia nutria por
toda aquela família.
A
garota assistiu a tudo isso acontecer, primeiro com medo pulsante,
depois dominou-a o asco, a repulsa e um ódio fremente. Por fim, um
desejo de vingança lhe ascendeu ao espírito e ciente do poder que
seus encantos causavam ao miserável patrão, gradualmente foi
desfiando a teia da sua ira. O estudo da psicologia humana fez com
que despertasse seus próprios instintos para finalmente alcançar
seu objetivo. De menina acuada e arisca, tornou-se uma jovem vaidosa,
de língua rápida, que sabia exatamente o que dizer e quando dizer,
aprendeu a fingir para agradar a todos que a cercavam, aprendeu que
seu silêncio e discrição teriam um peso significativo quando a
hora de se vingar daquela família chegasse. Talvez a solidão que
viveu por todo esse tempo, com o desprezo dos demais empregados, as
manias da patroa, a impertinência das crianças e a insanidade do
homem, preparou-a para um destino diferenciado.
O
único companheiro que tinha era um dos garçons que trabalhava com
ela, nas noites de festa, no bar. Outro rapaz que ali estava preso
por uma dívida de drogas e que, tentava, como ela, sobreviver num
mundo que o engolia todos os dias. Via nele seu irmão, mas
reconhecia que o amigo tivera um pouco mais de força ao passar pela
abstinência e agora estar livre do vício, mesmo que preso ao
causador. Conversavam pouco, mas esse pouco já lhe era
significativo. O rapaz percebia as situações de constrangimentos
por ela enfrentadas e dizia-lhe palavras para animá-la a dar fim
naquilo, nem que fosse quando se formasse. Lígia, por sua vez,
jamais se aproximava de seu colega sobre as vistas de Evaldo, desde
que tomara ciência dos desejos do patrão por si; tinha medo que
mais um inocente pagasse com a vida e poupava o único laço de afeto
verdadeiro que possuía.
Nas
noites em claro, fomentava intrincados planos de vingança, ouvindo
as fitas cassetes que gravara músicas de Alice in Chains e Nirvana.
As canções ora a mergulhavam em acessos de ira, ora em profunda
melancolia. Olhava o ventilador do teto girando imaginando formas de
fugir dali ou de pôr fim às suas angústias. Ligava a televisão
apenas para ocupar o espaço com barulho das vozes de Kevin Arnold
enfrentando os problemas da adolescência ou Fox Mulder e Dana Scully
resolvendo algum enigma alienígena, enquanto remoía seus dilemas
reais. As garotas de sua idade, estavam terminando o curso superior,
indo em festas ou ao cinema, conhecendo seus namorados/futuros
maridos, sonhando com viagens, shows ou conhecer algum artista
famoso. Não ela… estava terminando também sua universidade,
escolhida não ao acaso, mas para tentar se entender e entender a
mente humana; trabalhava nas festas que suas amigas desejavam ir e
teve o desprazer de conhecer várias celebridades nesses ambientes, a
maioria chafurdada no vício das drogas; assistia a filmes em casa,
de preferência aos que instigavam-lhe o desejo de vingança, como
Cape Fear, Misery, The Silence of the Lambs ou Basic Instinct;
viagens e alguém para amar simplesmente eram além da sua
imaginação, não havia possibilidade alguma diante da estreita
vigilância que vivia. Eram tantos os momentos que ela se via
coibida, sem ação, sem rumo, sem destino, que pensava em desistir
tal qual seu pai; mas ao mesmo tempo, a força do ódio tomava seu
corpo e fazia vibrar.
Enfim,
um dia, a oportunidade pela qual sempre esperou, surgiu-lhe diante
dos olhos. O salão de festas estava reservado para um evento
particular, no qual, garotas seminuas dançariam para um público
masculino específico, ou seja, respeitáveis senhores da mais alta
classe da região, casados ou divorciados endinheirados, políticos e
autoridades, a nata da hipocrisia estariam presentes. Uma cantora
famosa receberia um alto cachê para se apresentar diante de tais
senhores, no entanto, às vésperas do evento, encontrou-se adoentada
e teve de cancelar sua participação. No entanto, toda a parte de
equipamento, bebidas, aperitivos e as dançarinas já estavam
confirmados e o público havia adquirido as entradas; não havia
possibilidade de adiamento, mesmo porque alguns indivíduos do alto
escalão se deslocariam de outros lugares para aquele momento. O
organizador do evento estava desesperado e Evaldo cobrava-lhe a
imediata solução sob certas ameaças à sua integridade. Por fim,
depois de muitas discussões e ligações, conseguiu-se outra
celebridade, mas esta, devido a algum problema de deslocamento, não
conseguiria chegar no horário, seria preciso encontrar alguém para
ir entretendo o público até a chegada da atração principal.
A
jovem, silenciosa, lavava os copos e as coqueteleiras, enquanto que
seu amigo, às suas costas, abastecia os refrigeradores com as
bebidas. O palco estava montado, e um microfone fora posto ao centro
para ser testado. Os spots de luz oscilavam, ora iluminando o palco,
ora as mesas e cadeiras em que se acomodaria a plateia. De repente, a
concentração em que estava foi rompida por um sujeito, com
trejeitos femininos, usando um terno brilhoso e apertado, enormes
óculos escuros e cabelo amarrado em um rabo de cavalo:
-
Oh, minha filha, você poderia nos dar uma ajudinha?
Lígia
fechou a torneira e ergueu os olhos, aparentemente incrédula de
alguém tirá-la dos seus pensamentos e afazeres.
-
O senhor falou comigo?
-
Ora, estou vendo outra mocinha aqui por acaso? Claro que foi com
você!
Antes
de responder, a moça sentiu sobre si queimarem os olhos do patrão,
que a observava, ao longe, sentado numa das últimas mesas, fumando
um charuto. Toda vez que qualquer homem chegava diante dela, olhava
em redor, receosa de ser surpreendida, pois há muito tempo notara
que Evaldo a tinha como algo unicamente seu, a quem os demais
espécimes masculinos deveriam manter uma distância respeitável. Se
por um acaso, ela demorasse um pouco mais a atender algum cliente,
ele chegava a pretexto de cumprimentar o convidado e deixar bem claro
a quem pertencia o seu brinquedo; se não estivesse presente, sempre
havia um segurança que surgia próximo de Lígia e lhe sugeria
circular mais para ver se outras pessoas também precisavam ser
atendidas. Educadamente, respondeu-lhe:
-
Em que posso ajudá-lo, senhor?
O
sujeito, que era o organizador da festa, pediu-lhe, então, que
testasse o microfone, pois queria ouvir uma voz feminina nas caixas
de som, para não ter qualquer problema de acústica, pois a tal
artista era muito exigente. Lígia, aparentemente sobressaltada,
perguntou-lhe como poderia testar o aparelho visto que não era
cantora nem apresentadora e, muito menos, tinha se imaginado falando
ao microfone. Grosseiro, ele mandou-lhe falar ou cantar qualquer
coisa ou até recitar um versinho se quisesse; ninguém prestaria
atenção no conteúdo, afinal, era só um teste para o equipamento.
Lígia
secou as mãos no avental e depois o tirou, deixando sobre o balcão.
Com seu visual básico, de jeans rasgado, camiseta e tênis, que
usava antes de começar o trabalho com o uniforme de atendente,
caminhou até o palco. A cabeça levemente inclinada para baixo,
sempre pensativa, os braços pendentes ao lado do corpo. Evaldo, sem
sequer disfarçar, acompanhava, de longe, cada um dos seus passos.
Ela subiu os poucos degraus que davam para o palco e postou-se diante
do microfone. O organizador sinalizou-lhe para dar uma batida de leve
no objeto com os dedos e fez um gesto para que falasse. Estática, a
moça não sabia ao certo o que faria ali, mas gostava de música,
gostava de cantar baixinho no seu quarto ou em pensamento enquanto
fazia o serviço, e então pensou em cantar algo. No momento em que
concluiu esse pensamento, o DJ, postado ao lado do palco, iniciou a
introdução de uma canção que ela conhecia, era “What’s up”,
da banda 4 Non Blondes, que tocava bastante à época. Lígia começou
a cantar, de olhos fechados, com uma naturalidade e espontaneidade
que todos ali pararam para escutar. Os técnicos do som e iluminação
foram para próximo do palco ver quem era a cantora; seu amigo, no
bar, com uma garrafa em mãos, sentia as lágrimas aos olhos com sua
canção; Evaldo ergueu-se da cadeira, deixando o charuto ao
cinzeiro, atônito, absolutamente deslumbrado por encontrar mais um
encanto na jovem, a voz; e, por fim, a esposa do patrão, que chegava
neste instante, no lugar e ficou petrificada diante do que viu. O
organizador e o DJ se olharam com a constatação de que haviam
encontrado alguém para abrir o show para a artista retardatária.
Sem delongas, o primeiro foi ao encalço do patrão que, sem se
voltar para responder e sem tirar os olhos da moça, anuiu.
Quando
Lígia terminou sua canção e abriu os olhos, um pequeno público a
aplaudiu animadamente. Sentiu-se corar, pois nem ela sabia do dom
escondido. Antes de descer do palco, lá estava o esbaforido
organizador com a proposta; a moça olhou para o patrão e tudo o que
ele lhe fez foi mostrar o polegar levantado e um sorriso de
deslumbramento na face. A esposa, fulminou-a com seu olhar invejoso,
cheio de rancor e saiu do ambiente. Foi-lhe prometido os trajes e a
maquiagem e para que ela estivesse, dentro de quatro horas, no
camarim com as dançarinas; o DJ pediu-lhe para cantar mais umas três
músicas além dessa e a garota se comprometeu, passando-lhe os nomes
de algumas canções que conhecia.
A
moça voltava para trás da bancada do bar, ainda assombrada com o
que havia feito, sem prestar muita atenção no caminho, quando foi
interceptada por Evaldo a sua frente. Talvez a nova realidade,
imbuiu-a de uma nova determinação de ânimo, que ela sequer se
assustou ou ficou amedrontada. Apenas encarou-o, ambos olhando-se
fixamente. Para ele, aquele olhar fez estremecer a ponto de segurar
suas piadas maliciosas ou qualquer atitude insidiosa, seu coração
disparou. Levantou a mão enorme e puxou a presilha dos cabelos da
jovem, passando os dedos lentamente pelos longos fios castanhos e
depois, com suavidade, pela face delicada:
-
Use solto e não se esqueça de quem colocou você ali!
Disse isso e saiu, com a presilha
entre os dedos, completamente aturdido. Lígia percebeu seu poder,
percebeu que o desestabilizara. Havia ameaça na fala, mas além
disso, havia medo, medo de perdê-la. Não era mais o homem poderoso
e perigoso que tinha estado a sua frente e sim o alucinado
apaixonado, um homem tal qual adolescente diante da mulher que deseja
e ao mesmo tempo teme. Não sentiu a menor piedade, ao contrário,
seu nojo pela sua figura grande e grotesca só crescia; sentiu-se
forte, renovada e a tal ponto confiante, que nem se preocupou em
concluir o serviço no bar. Foi direto para seu quarto, precisava
pensar, chegara o momento de preparar sua vingança e precisaria ser
rápido.
Quando
volveu ao quarto, sentou-se a beira da cama, firmou os cotovelos
sobre os joelhos e com as mãos, segurava a cabeça que parecia
explodir com tantos pensamentos surgindo desenfreados. Ficou
aproximadamente uma meia hora nessa posição até que, por
conseguinte, suspirou fundo, ergueu-se resoluta. A oportunidade de
fugir e se vingar era aquela, não possuía muitas coisas para levar
e mesmo assim precisaria deixar a maioria. Pegou a bolsa da
faculdade, retirou todos os livros, cadernos e apostilas e colocou-os
na mesa de canto. Uma pequena muda de roupas, um casaco, documentos,
parcas economias que guardava num cofrinho de lata, as fitas cassetes
que gravara junto com o walkman e alguns poucos retratos que tinha
dos seus familiares. Após juntar o essencial em sua mochila, para
passar o tempo, deixou o quarto organizado, como que para se despedir
do seu pequeno cárcere. Foi para o banho. Colocou o chuveiro no modo
frio, pois a água gelada lhe despertaria de qualquer letargia que a
dominasse. Entrou rapidamente e tremendo, mas aos poucos, o corpo
acostumou-se com a temperatura e ficou vários minutos apenas
sentindo as águas escorrerem por seu longo cabelo.
Ao
sair do banho, estendeu a toalha sobre a cadeira e ainda lembrou-se
de guardar na bolsa alguns objetos de higiene pessoal. Olhou seu
reflexo nu, no vidro do banheiro e pensou mais uma vez se teria
coragem suficiente para realizar tudo o que fosse preciso. Não
recuaria, não podia, pois talvez fosse essa a única chance que
tivesse. Vestiu-se, jogou a mochila sobre os ombros e saiu, deixando
a porta apenas encostada.
Caminhava
calmamente, pela frente da residência, olhando tudo pela última
vez: os carros na garagem, o sobrado imponente, o jardim sempre bem
cuidado à frente, o movimento dos carros e das pessoas entrando e
saindo do grande salão de festas. Seu plano poderia dar totalmente
errado, mas já não se importava mais, nada mais tinha a perder.
Entrou no salão e foi até os camarins. Lá as dançarinas ensaiavam
alguns passos de suas danças eróticas enquanto se vestiam com
roupas mínimas e brilhosas, passavam uma quantidade de maquiagem
sobre as faces que mudavam-lhes totalmente os traços originais, iam
para lá e para cá em saltos vertiginosos com a destreza de gazelas
correndo no campo. Entre elas, Lígia, sentia-se absolutamente
deslocada. Não possuía o sorriso no rosto que ostentavam ao falar a
todo instante, o brilho nos olhos de quem tinha muitas esperanças, a
vivacidade que sentia emanar das demais. As garotas também
estranharam a presença da moça alta, bonita e silenciosa no
recinto; não sabiam quem era, mas também não tiveram muita
curiosidade em saber. Olharam-na a princípio com um certo espanto,
porém, depois voltaram aos seus primeiros hábitos.
O
cabeleireiro entrou no camarim seguido pelo organizador e
horrorizou-se da aparência de Lígia, com os cabelos úmidos, as
roupas habituais e a pele completamente translúcida. O organizador
trazia uma caixa grande, em que estava um vestido e sapatos para a
apresentação da moça, a qual entregou-lhe. Colocaram-na sentada em
frente a um espelho e começou então o trabalho frenético de
transformar a beleza natural da garçonete no esplendor exuberante da
cantora.
Lígia
estava alheia a toda a reviravolta e balbúrdia das pessoas a sua
volta. Seus olhos no espelho estavam petrificados. Em seus
pensamentos, repassava mil vezes o plano para fugir do local
amaldiçoado e a oportunidade de um único momento de glória para em
seguida um desfecho ainda mais grandioso, independentemente das
consequências.
O
barulho das vozes, com a agitação das dançarinas, e o som alto da
música ecoavam. O organizador estava mais eufórico que nunca,
falava aos berros e saltitando de um canto para o outro. Nenhum sinal
de Evaldo nem sua esposa. Lígia sabia que a mulher não estaria
presente, pois era um evento apenas para homens, mas ele estaria
sentado em sua mesa de honra, praticamente em frente ao palco, com
senhores ilustres da política, da cultura e os grandes no mundo do
crime também, ao seu lado, idolatrando-o, e como sempre, haveria de
estar com alguns seguranças a tiracolo e com a arma presa ao coldre
junto ao corpo. Mas ela tinha certeza que, a um chamado seu, ele
acolheria solícito, pois era a oportunidade perfeita, para
disfarçadamente e longe da esposa, encontrar-se com a moça… ele
não haveria de perder a chance, portanto, se o plano desse certo,
seria apenas os dois, frente a frente e pela última vez, mesmo que
fosse preciso morrer para que isso acontecesse.
Quando
a produção de Lígia se deu por finalizada, ela olhou-se ao espelho
uma última vez e gostou do que viu: maquiaram-na realçando a beleza
do esverdeado do seu olhar e a sensualidade nata rubra dos lábios;
seus cabelos foram ondulados e fizeram leves mechas douradas que
realçaram o movimento e o brilho dos fios. O longo vestido vermelho,
modelado ao corpo pelo detalhe do corpete em pedrarias também
escarlates, salientava ainda mais a alvura da pele, a altura que
fazia se sobressair, uma sensualidade que parecia brotar de cada
detalhe que lembraram-na da personagem de Jessica Rabbitt: linda,
sensual e perigosa. Era isso! Exatamente isso que queria! A partir
daquele momento não seria mais a jovenzinha calada, que se escondia
e fugia dos assédios – era a mulher, que encararia o mundo de
frente e colocaria no devido lugar aquele que arruinara a sua vida e
a de sua família.
A
equipe de produção, concluído os trabalhos, saiu para um breve
descanso; as dançarinas se encaminharam para abrir as apresentações
e Lígia ficou sozinha no camarim. Sabia que o momento seria breve,
portanto, correu até sua mochila, abriu-a, pegou um bloco de papel e
uma caneta. Sentou-se em frente a penteadeira, deu um longo suspiro,
pois sabia que depois de feito, não haveria mais volta e redigiu o
bilhete. Dobrou-o. Guardou suas coisas e tentou não amassar o papel
que escondia entre as mãos que suavam. Saiu rapidamente pelo
corredor e encontrou dois dos seguranças que sempre estavam a velar
por sua integridade e os chamou.
-
Olá! Será que um de vocês poderia entregar esse bilhete ao doutor
Evaldo para mim? Não posso sair e é muito importante!
Os
homens, pasmados com a transformação e sem nem esconder a admiração
se adiantaram, e um estendeu a mão.
-
Por favor, se possível entregue quando eu estiver me apresentando!
Grata!
Lígia
colocou o papel dobrado sobre a mão do segurança e voltou
rapidamente para o aposento. Mal conseguia respirar quando bateu a
porta. As pernas tremiam de tal forma que jogou seu corpo sobre a
cadeira e ficou a segurar os joelhos. A sensação de terror era
imensa, mas tinha de ser forte, precisava ser forte, por ela e pelas
pessoas que amava. A garganta ardia, ressequida e, como um paliativo,
um garçom entrou e deixou uma garrafa de champanhe. Assim que o
homem se retirou, a moça correu a abrir o vidro, sem nem ver o
bilhete que o acompanhava, e virou com tudo, sentindo o líquido
queimar-lhe por dentro. Agora era uma questão de tempo. O relógio
na parede corria devagar e as sensações se misturavam: ódio,
rancor, medo, angústia, ferocidade, pânico. Então, as dançarinas
romperam ruidosamente pela porta do camarim; acabara a primeira parte
do espetáculo.
A
equipe voltou para levá-la rumo ao palco. O organizador, de mãos
geladas, perguntava a todo instante, segurando seu pulso, se ela ia
ter coragem mesmo, se não o decepcionaria. Com uma força interior
sobre-humana, Lígia sorriu e disse que ficasse tranquilo, pois faria
tudo o que esperavam dela. Passou pelos bastidores, por várias
pessoas, até ser empurrada gentilmente para o centro do palco quando
anunciaram seu nome ao microfone. As cortinas se abriram para o
público e por um segundo, ela não divisou nada além das luzes em
sua direção que quase a cegavam. A máquina de fumaça artificial
com seu odor enjoativo e a mistura com os cigarros e charutos acesos
geravam uma névoa densa que tornava tudo como uma espécie de mundo
onírico. Quase não conseguia enxergar as pessoas, mas podia
perceber que havia homens em pés e sentados e o alvoroço dos gritos
e assobios.
As
primeiras notas começaram a soar e gradativamente o ambiente foi se
aclarando diante dos seus olhos. Quando começou a cantar, a música
soava bela e distante dentro de si. Era quase tão etérea quanto ela
mesma em meio aquele universo. Não notava os homens extasiados com
sua beleza e sua voz, queria apenas deixar as canções fluírem e
tentar esquecer por algum tempo os horrores que ainda enfrentaria
naquela noite, todavia, Lígia o divisou, exatamente onde imaginara
que ele estaria, na mesa principal, em frente ao palco, olhando e
bebendo cada gesto dela.
Evaldo
estava deslumbrado como nunca antes, em toda a sua vida. A espera por
ver Lígia o tinha extenuado profundamente. Não vê-la, não ter
notícia sobre ela o afligiam. Passara o dia inquieto, delegara as
funções de todos os compromissos do dia para seus subordinados, não
conseguia pensar em outra coisa: no seu objeto diante de todos os
homens e a possibilidade de todos a quererem. O ciúme do que achava
que era sua propriedade o corroía com amargor. A esposa, percebendo
a razão do mal humor, começou a aborrecê-lo, andando atrás do
marido com ameaças e dizendo-lhe impropérios; a situação chegou a
tal ponto, que não mais se controlando, o homem deu-lhe uma forte
bofetada à face que fez com que caísse estatelada ao chão,
arrebentando o colar de pérolas que trazia ao pescoço. Soluçando
baixinho, a mulher resignou-se, começou a recolher as bolinhas que
corriam pelo piso e por fim, trancou-se com os filhos. Desta forma,
Evaldo se viu livre da esposa a quem já não suportava há muito
tempo. Tomou um banho demorado, colocou seu traje de gala e como
sempre trazia, a arma junto ao corpo. Quando chegou ao salão de
festas, enclausurou-se no escritório que mantinha numa saleta
fechada, próximo à entrada, e esperou ser chamado para receber os
cumprimentos dos convidados. A sua espera talvez não tenha sido tão
longa quanto a de Lígia, pois a todo momento, vinham consultá-lo,
mas ainda assim foi-lhe angustiante, pois queria se desvencilhar de
todos para vê-la. Por fim, quando as dançarinas já estavam se
apresentando, entrou no ambiente, dirigindo-se até a sua mesa de
praxe, recebendo elogios, fazendo brincadeiras e cumprimentando os
indivíduos ali presentes. Sentou-se, ao lado de figuras importantes
que haviam adquirido o direito de sentar-se ao seu lado, acendeu o
charuto, tomou seu uísque e fingia entreter-se com as mulheres
dançando e as conversas do recinto. Porém, quando Lígia finalmente
entrou, não viu nem ouviu mais ninguém ali presente. Estava linda,
deslumbrante, desejável ao extremo! Como a queria! Sentiu a ereção
por dentro das calças e ficou a cogitar hipóteses de realizar seu
anseio.
Enquanto
Lígia cantava, o segurança se aproximou do patrão e entregou-lhe o
papel, sinalizando com o indicador para dizer que fora mandado pela
moça. Ela acompanhou o movimento tão distante quanto podia, mas com
a certeza que o momento chegara. Evaldo, aparentemente incrédulo,
olhou-a surpreso e abriu o papel: o bilhete, com a caligrafia
delicada, pedia um encontro em particular, no escritório, para
agradecer-lhe pessoalmente e a sós pela oportunidade, logo após o
término de sua apresentação! O homem aprumou-se na cadeira e viu
ali a realização do seu desejo. Ele a conquistara. Sabia que ela
seria grata e lhe retribuiria. Abriu um grande sorriso, tal qual a
fera a mostrar os dentes diante da presa; salivou e tomou um grande
gole de uísque levantando o copo para que a jovem percebesse seu
contentamento. Anuiu com a cabeça e Lígia, buscando dissimular o
asco, sorriu-lhe fingindo amabilidade.
Assim
como a jovem previu, o patrão amassou o bilhete, colocando no
cinzeiro e queimando com a ponta do charuto; afinal, não poderia
haver provas de um encontro aparentemente adúltero. Sabia que ele
seria discreto e daria qualquer desculpa para ausentar-se e, os
homens ali presentes, embriagados, drogados ou a espera dos favores
sexuais das dançarinas, nem reparariam. Foi o que aconteceu.
Faltando poucos minutos para o fim da apresentação, Evaldo mandou
chamar o organizador, conversou, olhou o relógio, levantou-se e saiu
dando uma última relanceada de olhos para a moça.
Esses
instantes, para Lígia, pareceram transcorrer como cenas de um filme
noir e em câmara lenta, era como se sua consciência gradativamente
a deixasse a mercê das atitudes premeditadas e mecanizadas. Os sons
das palmas ao término de seu primeiro e único show pareciam ecoar
distantes em seus ouvidos. Os cumprimentos das pessoas nos
bastidores, os elogios que ouvira, absolutamente nada, faziam sentido
e a moça passou por todas com um sorriso vazio e sem palavras. Foi
até o camarim e nem se importou com o buquê de rosas em sua
penteadeira. Pegou a mochila com seus pertences e foi ao encontro do
carrasco.
Não
pensava em mais nada, não sentia mais nada. O caminho até o
escritório de Evaldo estava iluminado por fracas e poucas luzes
amarelas, pois não havia mais ninguém por lá. Até os seguranças
não estavam ali e sim na festa. A moça deu uma leve batida a porta
e ouviu a voz do homem dizendo para entrar. Ao contrário da moça,
fria e robótica, ele estava totalmente tomado pela ansiedade, suando
abundantemente, sentindo-se como um adolescente apaixonado e que,
depois de uma longa espera, receberia o que deseja do objeto de sua
afeição. Havia tirado o paletó e a gravata, que estavam sobre o
assento da poltrona. O coldre e o revólver estavam ao seu lado, na
mesa.
Lígia
entrou. Com uma expressão de falsa felicidade, agradeceu tudo o que
Evaldo fizera por ela até então e que como não tinha meios de
retribuir-lhe, faria isso oferecendo-lhe seu próprio corpo.
Lentamente despiu-se do longo vestido escarlate, das peças íntimas
e descalçou os sapatos, olhando-o fixamente. Extasiado, Evaldo
sentia a plena realização dos seus desejos próximo de si, arrancou
com brutalidade a própria camisa e baixou as calças revelando seu
membro inchado e descomunal. Vagarosa, a moça caminhou até o homem,
suavemente deixando sua mão correr pela mesa. Quando chegou diante
do seu torturador, passou-lhe os dedos entre os pelos do peito e,
ele, irrefletidamente, puxou-a com tudo para si. O movimento de
Evaldo fez com que os sentimentos de fúria e rancor brotassem com
violência no coração da jovem e acelerassem aqueles momentos que
até então transcorriam lentos, acelerando-os. Com a mão sobre a
mesa, Lígia puxou rapidamente o revólver e desajeitada apertou o
gatinho em direção ao tórax de Evaldo.
-
Sua cadela! Gritou o homem, atordoado, tentando segurá-la com uma
das mãos e com a outra, tentando estancar o ferimento, porém, era
tarde demais, outro disparo o atingiu, desta vez no peito,
paralisando-o.
A
força com que segurara o punho de Lígia cedeu e ela conseguiu se
desvencilhar. O sangue respingara em seu corpo e um tremor violento
começou a apossar-se dela. Rapidamente, vestiu apenas a calcinha e o
vestido; abriu a mochila, tirando uma jaqueta jeans e jogando o
revólver em seu interior; tateou sobre a mesa e achou a chave de um
dos carros, saindo em disparada. Na porta, relanceou um último olhar
diante do sujeito que lhe arruinara toda a existência e a das
pessoas que amava, sentindo um misto de alívio pela vingança e o
medo do que viria após tudo aquilo. Por fim, correu. Correu como
nunca havia corrido antes em toda a sua vida. Atravessou os
corredores com a fraca iluminação, chegou à saída de incêndio,
olhando de um lado para o outro tentando avistar o carro de Evaldo a
que pertencia aquela chave, encontrou o Escort vermelho estacionado
mais adiante e entrou o mais rápido que pode, ligando a chave e
acionando o motor.
Ninguém
ouviu o tiro nem o grito de Evaldo, a música alta da festa abafara
todos os ruídos. Os convidados estavam bêbados demais ou drogados
demais ou ocupados demais apalpando as dançarinas para prestar
atenção em qualquer outra coisa. Na estrada de terra que ia da
propriedade à rodovia, um ou outro casal apalpava-se dentro dos
carros ou juntos às árvores, mas nenhum deles parou para olhar o
carro que se afastava com velocidade.
A
madrugada findava-se e, lentamente, os tons de rosa do aurorescer
estampavam-se no céu. Lígia sabia que não sairia impune do que
fizera, sabia que mais cedo ou mais tarde dariam falta do anfitrião
e lhe encontrariam o corpo esvaído pelos dois tiros, sabia que
encontrariam seus sapatos e sutiã deixados no recinto e que ligariam
uma coisa à outra, sabia que logo a polícia estaria em seu encalço
ao darem por falta também do carro. O tremor continuava vibrando por
seu corpo, fazendo-lhe suar e ter calafrios ao mesmo tempo. Sensação
de paz e medo do desconhecido, um rodamoinho de confusão.
No
entanto, iria dirigir até consumir a última gota de gasolina do
carro, iria dirigir até onde fosse possível, mesmo que a estrada
terminasse em um abismo rochoso ou em um penhasco próximo ao mar,
mesmo que um caminhão viesse de encontro e lhe transformasse em
destroços de massa humana e lataria, mesmo que a polícia tentasse
pará-la à bala; absolutamente sem destino. A liberdade de fazer o
que quisesse com sua vida estava pela primeira vez a sua disposição
e dali por diante nada mais a deteria nem sequer a morte. Com os
dedos sujos e trementes, apertou o play do toca-fitas, que reverberou
um som metálico pelas caixas de som, pisou fundo o acelerador com o
pé descalço e, lentamente, guiada apenas pelo embalo da canção,
foi se tranquilizando. Havia alcançado seu objetivo, nada mais
importava.
13/08/2018


