quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crônica: Amar não é uma escolha


Amar alguém não é uma escolha, porque se fosse, seria muito fácil. Amar simplesmente acontece, por mais que se tente sufocar isso. Ou você acredita que alguém simplesmente escolheria amar outra pessoa do mesmo sexo sabendo que seria vítima de preconceitos na sociedade? Alguém escolheria amar uma pessoa de etnia diferente da sua ou idade superior ou inferior para se tornar motivo de chacota, de piadinhas depreciativas, de mau-gosto? Quem escolheria amar alguém de uma crença diferente para enfrentar gratuitamente críticas imensas?

Não é uma questão de escolha, porque o amor não é fácil. Implica em decisões que mudarão sua vida para sempre, implica renúncias, implica aceitação de si mesmo e de suas fraquezas, além de aceitar o outro tal como é, para juntos tentar trilhar um caminho de incertezas, mas que é gratificante para quem o percorre.

Todo esse questionamento vem, a priori, por conta de uma importante marca, que em campanha publicitária para o Dia dos Namorados, resolveu mostrar as diferentes formas de amar, causando verdadeiro furor e demonstrações de ódio das pessoas ditas “normais”, “tradicionais”. E, por que, as pessoas tanto se incomodam, criticam e julgam quem ama o diferente? Não seria o mundo um local de paz se, ao invés de condenarmos uns aos outros, nos amássemos e aceitássemos na nossa multiplicidade cultural?

Será que temos de fingir ser o que não somos para fazer parte de uma sociedade “certinha”, que define nossas crenças, qual etnia é superior a outra, qual o limite de idade para amar e com quem nos deitamos?  Precisamos mentir para nós mesmos, ignorar o que somos para não sermos vítimas de preconceitos, julgamentos, por uma grande parcela da população que diz seguir a filosofia do “amor ao próximo”?

Amor ao próximo, numa sociedade que define padrões, seria o amor apenas entre homem e mulher, de idades semelhantes, etnias e crenças semelhantes? Se sou um homem, mas amo outro homem devo ser estigmatizado por isso; se sou uma mulher e amo outra mulher devo ser condenada e depreciada; se sou branco não posso amar um negro, um índio, um asiático (numa sociedade miscigenada como a brasileira, ainda há quem pense assim); se sou mais velho e amo alguém mais novo sou desmoralizado, com brincadeiras que vão desde a acusação de pedofilia a que não tenho mais idade para amar; se sou mais novo não posso amar alguém mais velho, porque existe limite e isso é considerado loucura, ilusão ou a relação é por interesse financeiro; se possuo uma crença diferente da pessoa que amo, um dos dois será forçado a ceder, para o bem comum e felicidade geral da nação.

Nessa sociedade de aparências é preciso fingir o tempo todo que somos felizes, bem resolvidos, sem dúvidas algumas. Perdemos quem amamos, mas não podemos mostrar o que sentimos, sob a acusação de sermos fracos, que você é obrigado a esquecer a todo custo. Se já tivemos relacionamentos anteriores e carregamos marcas disso também somos chamados de promíscuos, acusados de não conseguir nos manter ao lado de ninguém porque o defeito é provavelmente nosso, sendo criticados por tentar reconstruir nossas vidas.

Toda forma de amor, que não seja a tradicional, é criticada. Mas por que nos preocupamos tanto com quem o outro ama? Para disfarçar o vazio que sentimos, talvez, ou ainda acusar o outro daquilo que tememos em nós mesmos; no íntimo, muitos não se aceitam e o meio de escape encontrado é o vilipêndio, é a desmoralização do outro, é criticar no outro aquilo que está represado em nós. Há tanto desespero em querer parecer normal nessa sociedade moralizante, que a maioria das pessoas se reprime, sofrem em silêncio, porque não assumem as diversas formas de amor que existem. Preferem se calar para ser aceitas ou ofender o outro para se sentir superior e, quanto mais fazem isso, mais se mostram vazias.

De fato, amar o diferente não é escolha, porque muito mais fácil seria fazer parte dessa sociedade e fingir que está tudo bem. Dar a cara a tapa não é para qualquer um, servir de estigma, de deboche, ter de lutar para se fazer ouvir, enfrentar a multidão pelo o que se acredita não é fácil, todavia, é o mais sincero.

Se amar ao próximo é a meta, isso significa amar e aceitar o outro, significa amar o diferente, ainda bem que existem pessoas que fecham os olhos e cobrem os ouvidos para essas classificações de normalidade e tentam viver suas vidas da maneira como acreditam. Ainda bem que existem pessoas que ousam amar o que não é aceito, que ousam dizer e expressar o que sentem, porque se for para amar o próximo, pois que todos sejam amados, independente de orientação sexual, credo, etnia, idade e o que mais for. Amor é para todos, não privilégio de alguns.