segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre a legalização do porte de armas

Um tempinho da sua atenção é possível? Você mesmo que defende a legalização do porte de armas! Não sei se você vai tirar algum proveito do que pretendo dizer, porém eu não poderia deixar de expressar minha opinião sobre esse fato, que vem me perturbando já há algum tempo e compreenda, ao menos, essa necessidade de desabafar.

Sinceramente, não me entra pela cabeça como as pessoas podem querer legalizar o porte de armas diante da sociedade corrupta, trapaceira, hipócrita, preconceituosa e violenta que é a sociedade brasileira. As justificativas que tenho visto é para se utilizar na proteção contra bandidos, assaltos, invasão de domicílio, sequestros e alguns, mais enfurecidos, em caso de vingança se um ente querido tenha sofrido algum ataque. A exigência é para que o porte seja concedido aos “cidadãos de bem”. Mas o que é um cidadão de bem? Alguém que nunca tenha tido passagem pela polícia? Pessoas com certo grau de instrução, poder aquisitivo ou cargos elevados? Devotos religiosos? Isso é garantia para que alguém seja classificado como cidadão de bem? Infelizmente, conheço pessoas que pertencem a essas categorias e que não praticam o “bem”; pelo contrário, pelas costas prejudicam, falam mal, fazem de tudo para interferir e se aproveitar dos outros. Por uma questão ética nem vou citar os exemplos específicos que conheço. Conheço também pessoas que não se encaixam nessas categorias, mas que tentam redimir seus erros e são profundamente humanas, no entanto, sem requisitos para a classificação de cidadão de bem.

Direto acompanho notícias de pais que possuem armas em casa, escondidas, que, no entanto, filhos pequenos encontram e acontecem tragédias; vizinhos que atiram uns nos outros por motivos banais; alunos que já entraram armados em escolas provocando chacinas; inúmeras pessoas “de bem” ou até mesmo criminosos, mortos, por que alguém possuía uma arma e num momento de pânico, violência, terror, privação dos sentidos foi lá e descarregou a sua fúria nos outros.

Se, nesse momento, em que o armamento é restrito e já acontecem todos esses crimes, como será com a liberação? Todo mundo possuir uma arma em casa e, quando se achar no direito de usar, vai usar, não importa contra quem. Uma discussão qualquer em que os ânimos se elevem, um há de ameaçar o outro.

É um absurdo que com tanta violência no país, os massacres causados pelas guerras no mundo inteiro, que geralmente começam porque um usa o seu poder bélico contra o outro, ainda existir quem queira se armar. Alguém pode me dizer que os “cidadãos de bem” passarão por testes psicológicos e eu pergunto de volta, quantos psicopatas conseguiram burlar o sistema? Quantos casos passam por baixo dos panos porque é alguém importante ou com dinheiro para comprar até a integridade dos demais?

As pessoas se odeiam porque uma não aceita a ideologia da outra, a filosofia da outra, as opiniões políticas, a religião, a sexualidade, a cor da outra; o que dirá dessas mesmas pessoas de posse de uma arma?

Tenho medo de esse dia chegar e sair para trabalhar, deixar minha família em casa e tomar um tiro de um aluno que não aceite ser repreendido por algo inapropriado ou até mesmo um pai mais exaltado, uma discussão no trânsito.  Esse já é um medo existente, mas imagina com todos tendo acesso tão fácil a uma arma?

Eu não quero ter uma arma em casa, quero ter minha consciência limpa que nunca precisei agredir, ferir ou matar alguém. Houve quem já tentou me prejudicar na vida, mas nem por isso eu me “vinguei”. O que ganharia com isso? Se existe uma justiça, uma constituição, minha maior vontade é que ela seja respeitada e aqueles que não respeitam que sejam punidos por uma força específica constituída para tal.

Não quero uma arma em casa, com o risco da minha família se ferir, um louco invadir minha casa e encontrá-la. Quero que meu lar seja um lugar de paz, de respeito. Se, infelizmente, existem bandidos, que não respeitam isso, eles devem sofrer as punições previstas pela Lei. Não serei eu que bancarei um super-herói para salvar a sociedade, ou melhor, um justiceiro, pois até mesmo os heróis, na maioria das vezes, capturam os criminosos e os entregam às autoridades, sem precisar atirar ou matar.
Não me considero uma cidadã de bem, mas sim tento ser um bom ser humano, não prejudicar ninguém, não me intrometer na vida dos outros e quem que me trata com antipatia e preconceito, apenas me afasto e ignoro. Acredito que, se a maioria das pessoas cuidasse da própria vida, muita coisa boa começaria a acontecer, as mudanças necessárias para se construir uma convivência melhor e pacífica, por meio do respeito e não pelo medo de tomar um tiro ou porque uma é superior a outra por ter um revólver.

Por que, ao invés de lutar por armamento, não lutar por uma educação melhor (comprovadamente, os países que mais investem em educação têm taxas mínimas de criminalidade); um sistema único de saúde que seja digno para todos; um regime penitenciário que incentive o preso a mudar de vida ou os casos mais hediondos que se estudem métodos de tratamento, de intervenção que sirva de exemplo para que não se pratiquem crimes; justiça social; uma distribuição mais igualitária dos bens sociais; uma reforma política que elimine essa bancada corrupta que só vota projetos relativos aos interesses pessoais e não ao coletivo? Não vejo isso como utopia, mas sim, como algo possível, se houver persistência.

Mas, se você que ainda permanece a favor do armamento, apesar de todas as desgraças que nos rodeiam por conta disso, não concordar comigo, o que eu posso fazer?  Apenas posso torcer para que um dia você veja que violência só gera mais violência. E se me permite uma última colocação: em vez de armar, por que não amar?

Ana Claudia Brida

27/10/2015, 00h e 49min.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Crônica: Amar está fora de moda?


Queria saber em qual momento, de tanta evolução e modernidade, os sentimentos se perderam? Amar alguém, atualmente, parece se resumir em postagens de redes sociais (pois não se mantém mais relacionamentos íntimos, mas sim públicos); “eu te amo” repetido a exaustão para qualquer pessoa, contudo, são apenas palavras vazias de significado e que não se demonstram por atitudes; envio de fotos de cunho sexual como prova de interesse, como se as pessoas fossem meros frutos a venda em um supermercado, vistos e sendo apalpados antes de se decidir a levar para casa; hoje, diante de um poema sobre o amor ou uma letra de música que necessite de interpretação mais profunda, os jovens riem, consideram ultrapassados, melosos, alheios à realidade. Meninas preferem ser denominadas por termos de baixo calão como nas músicas de funk ou, como nas letras do sertanejo, dito “universitário”, que expressam a vontade de um sujeito em “pegá-las” e fazer coisas designadas por onomatopéias ou palavras sem sentido algum, porém que expressam apenas a intenção sexual.

Se essa é a forma de amar dessa época, confesso que estou fora de moda e prefiro continuar assim. Ainda me emociono ao ler um poema, pois sei que para expressá-lo o poeta arranca de si o que sente e transborda suas emoções sobre o papel; ainda lágrimas escorrem por minha face diante de uma música bem executada, de sua melodia e letra, que trazem lembranças ou fazem sonhar; ainda acredito que cartas de amor escritas de próprio punho, mesmo que com alguns errinhos ortográficos tenham mais valor que textos de Internet que podem ser facilmente apagados; ainda acho bonito passeios de mãos dadas, uma flor roubada, um chocolate surpresa, um filme debaixo das cobertas e tantas outras ações que denotem companheirismo; gestos de ternura que valem mais que todos os verbetes de um dicionário.

Também acredito que respeito é a base de tudo e que fidelidade é algo muito importante sim! Relações abertas, flertes por aplicativos de celulares, ménage a trois... Lamento, mas isso não é para mim. Prefiro ser de uma pessoa apenas e dedicar meu afeto a um único alguém, pois, parafraseando Charles Chaplin, meu coração não é estrada para muitos transitarem, mas sim um lugar onde só fica quem realmente faça por merecer e não há necessidade de se explicar o que isso quer dizer, pois o entendimento é claro.

É possível que, como amante da Literatura e das Artes, eu tenha lido demais ou visto muitos filmes que ajudaram a moldar minha personalidade; que tenha valores que ninguém mais dê créditos, no entanto, continuarei assim, a acreditar que existam pessoas verdadeiras e sentimentos verdadeiros e, se isso for ilusão, ainda é melhor que aceitar essa realidade degradante.

Amar por inteiro, com intensidade, com sinceridade, com entrega e troca pode não ser valorizado por essa geração que se transforma em máquinas de banalidades, como mais uma vez Chaplin previu em um dos seus textos. Mas, fico feliz em ser “quadrada”, “retrógrada”, pois mesmo na contramão desses avanços (se deixar de amar de fato e se importar com o outro seja um avanço...), eu permanecerei com a minha ideologia e meus princípios arcaicos. Antes a beleza de um sentimento que o vazio existencial, antes amar demais que não amar...

Ana Claudia Brida, 04/08/2015.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crônica: Amar não é uma escolha


Amar alguém não é uma escolha, porque se fosse, seria muito fácil. Amar simplesmente acontece, por mais que se tente sufocar isso. Ou você acredita que alguém simplesmente escolheria amar outra pessoa do mesmo sexo sabendo que seria vítima de preconceitos na sociedade? Alguém escolheria amar uma pessoa de etnia diferente da sua ou idade superior ou inferior para se tornar motivo de chacota, de piadinhas depreciativas, de mau-gosto? Quem escolheria amar alguém de uma crença diferente para enfrentar gratuitamente críticas imensas?

Não é uma questão de escolha, porque o amor não é fácil. Implica em decisões que mudarão sua vida para sempre, implica renúncias, implica aceitação de si mesmo e de suas fraquezas, além de aceitar o outro tal como é, para juntos tentar trilhar um caminho de incertezas, mas que é gratificante para quem o percorre.

Todo esse questionamento vem, a priori, por conta de uma importante marca, que em campanha publicitária para o Dia dos Namorados, resolveu mostrar as diferentes formas de amar, causando verdadeiro furor e demonstrações de ódio das pessoas ditas “normais”, “tradicionais”. E, por que, as pessoas tanto se incomodam, criticam e julgam quem ama o diferente? Não seria o mundo um local de paz se, ao invés de condenarmos uns aos outros, nos amássemos e aceitássemos na nossa multiplicidade cultural?

Será que temos de fingir ser o que não somos para fazer parte de uma sociedade “certinha”, que define nossas crenças, qual etnia é superior a outra, qual o limite de idade para amar e com quem nos deitamos?  Precisamos mentir para nós mesmos, ignorar o que somos para não sermos vítimas de preconceitos, julgamentos, por uma grande parcela da população que diz seguir a filosofia do “amor ao próximo”?

Amor ao próximo, numa sociedade que define padrões, seria o amor apenas entre homem e mulher, de idades semelhantes, etnias e crenças semelhantes? Se sou um homem, mas amo outro homem devo ser estigmatizado por isso; se sou uma mulher e amo outra mulher devo ser condenada e depreciada; se sou branco não posso amar um negro, um índio, um asiático (numa sociedade miscigenada como a brasileira, ainda há quem pense assim); se sou mais velho e amo alguém mais novo sou desmoralizado, com brincadeiras que vão desde a acusação de pedofilia a que não tenho mais idade para amar; se sou mais novo não posso amar alguém mais velho, porque existe limite e isso é considerado loucura, ilusão ou a relação é por interesse financeiro; se possuo uma crença diferente da pessoa que amo, um dos dois será forçado a ceder, para o bem comum e felicidade geral da nação.

Nessa sociedade de aparências é preciso fingir o tempo todo que somos felizes, bem resolvidos, sem dúvidas algumas. Perdemos quem amamos, mas não podemos mostrar o que sentimos, sob a acusação de sermos fracos, que você é obrigado a esquecer a todo custo. Se já tivemos relacionamentos anteriores e carregamos marcas disso também somos chamados de promíscuos, acusados de não conseguir nos manter ao lado de ninguém porque o defeito é provavelmente nosso, sendo criticados por tentar reconstruir nossas vidas.

Toda forma de amor, que não seja a tradicional, é criticada. Mas por que nos preocupamos tanto com quem o outro ama? Para disfarçar o vazio que sentimos, talvez, ou ainda acusar o outro daquilo que tememos em nós mesmos; no íntimo, muitos não se aceitam e o meio de escape encontrado é o vilipêndio, é a desmoralização do outro, é criticar no outro aquilo que está represado em nós. Há tanto desespero em querer parecer normal nessa sociedade moralizante, que a maioria das pessoas se reprime, sofrem em silêncio, porque não assumem as diversas formas de amor que existem. Preferem se calar para ser aceitas ou ofender o outro para se sentir superior e, quanto mais fazem isso, mais se mostram vazias.

De fato, amar o diferente não é escolha, porque muito mais fácil seria fazer parte dessa sociedade e fingir que está tudo bem. Dar a cara a tapa não é para qualquer um, servir de estigma, de deboche, ter de lutar para se fazer ouvir, enfrentar a multidão pelo o que se acredita não é fácil, todavia, é o mais sincero.

Se amar ao próximo é a meta, isso significa amar e aceitar o outro, significa amar o diferente, ainda bem que existem pessoas que fecham os olhos e cobrem os ouvidos para essas classificações de normalidade e tentam viver suas vidas da maneira como acreditam. Ainda bem que existem pessoas que ousam amar o que não é aceito, que ousam dizer e expressar o que sentem, porque se for para amar o próximo, pois que todos sejam amados, independente de orientação sexual, credo, etnia, idade e o que mais for. Amor é para todos, não privilégio de alguns.