segunda-feira, 13 de agosto de 2018

SEM DESTINO




A poeira subia pela estrada de terra, com a velocidade do pequeno carro vermelho. Os pés, descalços e feridos pela corrida desenfreada até conseguir obter um meio de fuga, calcavam com tudo o acelerador. As mãos brancas no volante tremiam e delas uma gosma misturada de suor e sangue.

O amanhecer lentamente estendia-se no horizonte e em breve, chegaria à rodovia, onde provavelmente, mais cedo ou mais tarde, alguém a deteria. Mas já não importaria mais para Lígia. Queria apenas se distanciar das pessoas que tanto intoxicaram sua vida, que prejudicaram sua família e que, no fim das contas, num mundo de tantas injustiças, sairiam impunes se ela nada tivesse feito.

Sua mente era um turbilhão de lembranças e ela revisitava todas as memórias que a fizeram chegar naquele instante de agonia que desencadeou sua vingança. Sua primeira lembrança era a de que o pai estava morto, vítima de uma depressão que o levou ao suicídio. Depressão causada por uma dívida contraída para libertar um dos filhos do vício nas drogas. Não adiantou, pois o rapaz, crente do valor dos falsos amigos, não deu ouvidos à família e mergulhou rumo à morte certa nas mãos dos traficantes. Ambos mortos, seu pai e seu irmão… causas diferentes, motivos iguais.

Para permanecer viva, ela e a mãe tiveram de prestar serviços, tais quais escravas, para o bandido maldito, causador da morte de seus entes, e a prepotente família, enriquecida por agiotagem, tráfico e corrupção. A mãe, exaurida física e mentalmente, trabalhou alguns anos, mas também havia sucumbido a um câncer em um leito de hospital, cabendo apenas a si mesma a prestação de serviços para pagar a dívida eterna.

A segunda lembrança, a dívida que engolira toda a sua família e agora sugava-lhe a existência. Evaldo, esse era o nome do assassino de sua família, o maldito traficante que seduziu seu irmão, o miserável agiota que destruiu seu pai, na verdade, um importante político a quem estava aparentemente amarrada enquanto vivesse. Nos círculos sociais, era um indivíduo sempre presente, fingindo caridades por um lado, enquanto pelo outro arrancava o dinheiro e a dignidade das pessoas. Sujeito imenso e intimidador, pálido, na faixa dos cinquenta anos, porém ainda não totalmente grisalho, de grandes e saltados olhos azuis recobertos de olheiras fundas, sorriso sarcástico, barriga protuberante e enormes mãos que facilmente esmagariam o que tocasse. Falava alto e sempre dando ordens, gesticulava muito e, por baixo de suas roupas sociais, andava sempre com uma arma escondida às costas. As pessoas o temiam e obedeciam quase que às cegas, riam de suas piadas sem graça, acatavam suas ordens por mais absurdas que fossem. Vivia rodeado de pessoas, de puxa-sacos às pessoas que extorquia. Tinha prefeitos, governadores, outros políticos e membros da justiça na palma das mãos. Com alguns era de uma simpatia cínica, com outros, arrogante e tirânico. Lígia sabia que, primeiro ele, com seus capangas, torturara seu irmão até a morte e depois o quanto o pai se humilhara a pedir o perdão pela dívida; não satisfeito, obrigou-a a prestar serviços junto com a mãe, até esta também não aguentar. Não suportava sequer olhar sua face, pois o ímpeto de fazê-lo pagar pelos seus familiares era o que ainda a segurava debaixo do mesmo teto.

Estava, pois, sozinha. Crescera dentro da enorme propriedade, aturando os desaforos e futilidades da esposa do patrão, mulher baixa e atarracada, recoberta de joias, de voz irritante e manias que enlouqueceriam a qualquer um; aturando os filhos do homem, duas crianças intoleráveis e mimadas; havia ainda dois adultos que quase nunca estavam em casa e pareciam não suportar a própria família. O lugar era imenso, em meio a serra, uma legítima mansão campestre.

A casa central era um imponente sobrado acinzentado, de arquitetura moderna, com vários quartos, salas de visitas e escritórios. A esposa do patrão, preenchia todos os espaços com pinturas e esculturas que seus hábitos artísticos a faziam criar. Aos fundos, havia uma grande área para churrasco e uma piscina, com uma cascata artificial. Próximo à casa, na lateral, um salão de festas, com palco, camarins e bar, que eram locados com bastante frequência para os eventos dos cidadãos ilustres da região; ali, apresentavam-se artistas diversos e até importantes reuniões que não podiam acontecer as claras, na cidade, usavam o espaço. Na outra lateral, um vasto estacionamento para a coleção de carros ali mantida por Evaldo, de Corvete, Cadilac e Fords antigos aos modernos Escort, Kadett, Ômega, contando ao todo uns vinte veículos apenas de enfeite. Atrás do estacionamento, ficava a ala dos empregados, como uma pequena sequência de quitinetes que mais funcionavam como penitenciária, visto que, grande parte dos funcionários ali estava presa por dívidas semelhantes à sua; poucos eram, de fato, registrados legalmente. Separada da propriedade central, havia a parte da criação dos animais, que funcionava como haras e, mais aquém, escondido entre um bosque, quase a alguns quilômetros de distância, um galpão que funcionava para o cartel de armas e drogas. Seguranças circulavam armados, dia e noite, em volta de todo esse território de Evaldo, adquirido às custas de mãos alheias.
Nesse local, ela perdeu sua família, perdeu sua infância e, por fim, o que lhe restava de humanidade. Quando foi para lá morar, contava treze anos. Menina alta, magricela, de olhos esverdeados e assustados, retraída, com o hábito de retorcer frenquentemente as mãos brancas de longos dedos. Pagaram seus estudos e financiaram sua entrada em um curso de Psicologia, pois percebiam que era inteligente e poderia se tirar proveito disso, gostava de ler e, quando raramente, dispunha de uma folga, fugia para a biblioteca da mansão, recheada em sua maioria de livros da área do Direito, pois Evaldo e sua esposa possuíam a mesma formação. A medida que foi crescendo e seu corpo acompanhando o desenvolvimento, Evaldo viu desabrochar dentro da casa a mais bela jovem a que tinha visto: esbelta, de corpo feito, olhar agateado e os longos e sedosos cabelos castanhos que ondeavam-lhe pelos quadris quando andava. Dessa forma, ao tornar-se mulher, por todos a considerarem muito bela, Lígia passou a trabalhar no salão de festas como garçonete, preparando e servindo bebidas e como um atrativo para os homens poderosos da região.

No entanto, não chegara nunca a se prostituir, talvez pelo único fator: Evaldo a queria para si! Desejava-a ardentemente e por querer ter a posse do objeto que anelava, não permitia que lhe fizessem mal, que nenhum homem ousasse tocá-la. Quando ia para escola ou logo que entrou para a universidade, seguranças escoltavam-na de longe, armados. Era preciosa demais para o patrão desperdiçá-la. Não podia fazer trabalho em casa de colegas, mas era estimulada a trazer os mesmos colegas para a mansão como que para servir de pretexto para demonstração da falsa caridade da família e para que o patrão não a perdesse de vista.

Ao perceber o frenesi que o tomava, Evaldo consumiu-se pela insônia. Pensava na moça a todo momento, almejando sentir-lhe cada parte do corpo, de forma brutal; desejava mordê-la, beijá-la, apertá-la, penetrá-la até que desfalecesse em seus braços, sentir a pequena boca, de lábios vermelhos e levemente carnudos em seu próprio corpo a fustigá-lo por inteiro. Traíra a mulher inúmeras vezes, mas era diferente o sentimento novo que o apossara, um desejo que lhe corroía as entranhas, afligia-o por querer que fosse recíproco. De princípio não tivera coragem de se aproximar, mesmo ciente do seu poder, por ter um filho da mesma idade debaixo do mesmo teto; no entanto, quanto mais o tempo passava, maior o desejo ficava. Noites houve em que chegou à porta do quarto da moça e por pouco não o invadiu, sem sequer entender o que o impedira de avançar nessas primeiras ocasiões. Mandou os dois filhos mais velhos para fora estudar por receio de a tomarem de si; ameaçara seus empregados se algo lhe acontecesse e cogitava mil planos para atacá-la, seduzi-la ou dominá-la a força, além de planos macabros para desfazer-se da sua esposa e tomar para si a jovem beldade.

Ainda não chegara a ponto de fazer algo pela proximidade da esposa, sempre atenta e enciumada, que percebendo os atrativos de Lígia, enquanto os dela via decair apesar de todas as plásticas, vigiava muito de perto. Mesmo assim, o asqueroso sujeito, gradativamente, sempre dava um jeito de roçar-lhe as mãos em toda e qualquer situação que tivesse oportunidade. Se ela estivesse limpando o balcão do bar, Evaldo, sentava-se em sua frente, puxava suas mãos, dando apertos que a machucavam e dizia coisas jocosas, entre a piada aparentemente inocente ou obscena e, ao mesmo instante, com o receio de, por um triz, deixá-la escapar; se estivesse passando por ela, numa das festas, e a garota estivesse servindo algum convidado, apertava-lhe as nádegas ou aproveitava o movimento da pista de dança, em que esta precisava transitar para entregar as bebidas, a fim de se aproximar do seu corpo e fazê-la perceber como o deixava excitado; essas ocasiões iam lhe tornando eufórico e mais animado a cada nova investida. A jovem apenas se esquivava, de olhos baixos, não ousando lhe dizer nada; isso o fez pouco a pouco crer que realmente ela lhe pertencia.

Com o passar do tempo, mais de uma vez, armou pequenas emboscadas para ficar a sós com a garota, em ocasiões que pedia para ser atendido em particular, mas o máximo que conseguia era sapecar-lhe um beijo melequento no rosto, uma apalpadela nos seios ou um deslizar de mão entre suas pernas; ela fugia, como bicho acuado, sempre que possível ou, para a infelicidade do patrão, eram sempre surpreendidos pela esposa e seus azedumes. Para dormir, Lígia trancava seu quarto e colocava várias escoras na porta por medo de arrombamento no meio da madrugada.

Vivia nesta situação e sendo lembrada a todo instante que se ousasse fugir de lá, estaria morta, com certeza, e pela patroa, que a ameaçava constantemente, caso se aproximasse de seu precioso marido. Ela enfrentou o jogo, dissimulou toda a sua vida, fingiu estar feliz e agradecida sentindo-se morta por dentro, trabalhou arduamente, suportou em silêncio cada situação de assédio. Mas agora, faltando um ano para sua formatura, já não tinha mais ninguém que a prendesse ao mundo, não existia mais ninguém que precisasse dela a não ser ela mesma. Os outros empregados a tratavam com rancor, ressentiam-se, pois achavam que gozava de mais privilégios que os demais: tinha um quarto com televisão, videocassete e aparelho de som só para ela, tinha livre acesso à casa, tinha os estudos todos pagos e até ensinaram-lhe a dirigir. Mas não sabiam da paixão fulminante que Evaldo lhe mantinha nem do ódio que Lígia nutria por toda aquela família.

A garota assistiu a tudo isso acontecer, primeiro com medo pulsante, depois dominou-a o asco, a repulsa e um ódio fremente. Por fim, um desejo de vingança lhe ascendeu ao espírito e ciente do poder que seus encantos causavam ao miserável patrão, gradualmente foi desfiando a teia da sua ira. O estudo da psicologia humana fez com que despertasse seus próprios instintos para finalmente alcançar seu objetivo. De menina acuada e arisca, tornou-se uma jovem vaidosa, de língua rápida, que sabia exatamente o que dizer e quando dizer, aprendeu a fingir para agradar a todos que a cercavam, aprendeu que seu silêncio e discrição teriam um peso significativo quando a hora de se vingar daquela família chegasse. Talvez a solidão que viveu por todo esse tempo, com o desprezo dos demais empregados, as manias da patroa, a impertinência das crianças e a insanidade do homem, preparou-a para um destino diferenciado.

O único companheiro que tinha era um dos garçons que trabalhava com ela, nas noites de festa, no bar. Outro rapaz que ali estava preso por uma dívida de drogas e que, tentava, como ela, sobreviver num mundo que o engolia todos os dias. Via nele seu irmão, mas reconhecia que o amigo tivera um pouco mais de força ao passar pela abstinência e agora estar livre do vício, mesmo que preso ao causador. Conversavam pouco, mas esse pouco já lhe era significativo. O rapaz percebia as situações de constrangimentos por ela enfrentadas e dizia-lhe palavras para animá-la a dar fim naquilo, nem que fosse quando se formasse. Lígia, por sua vez, jamais se aproximava de seu colega sobre as vistas de Evaldo, desde que tomara ciência dos desejos do patrão por si; tinha medo que mais um inocente pagasse com a vida e poupava o único laço de afeto verdadeiro que possuía.

Nas noites em claro, fomentava intrincados planos de vingança, ouvindo as fitas cassetes que gravara músicas de Alice in Chains e Nirvana. As canções ora a mergulhavam em acessos de ira, ora em profunda melancolia. Olhava o ventilador do teto girando imaginando formas de fugir dali ou de pôr fim às suas angústias. Ligava a televisão apenas para ocupar o espaço com barulho das vozes de Kevin Arnold enfrentando os problemas da adolescência ou Fox Mulder e Dana Scully resolvendo algum enigma alienígena, enquanto remoía seus dilemas reais. As garotas de sua idade, estavam terminando o curso superior, indo em festas ou ao cinema, conhecendo seus namorados/futuros maridos, sonhando com viagens, shows ou conhecer algum artista famoso. Não ela… estava terminando também sua universidade, escolhida não ao acaso, mas para tentar se entender e entender a mente humana; trabalhava nas festas que suas amigas desejavam ir e teve o desprazer de conhecer várias celebridades nesses ambientes, a maioria chafurdada no vício das drogas; assistia a filmes em casa, de preferência aos que instigavam-lhe o desejo de vingança, como Cape Fear, Misery, The Silence of the Lambs ou Basic Instinct; viagens e alguém para amar simplesmente eram além da sua imaginação, não havia possibilidade alguma diante da estreita vigilância que vivia. Eram tantos os momentos que ela se via coibida, sem ação, sem rumo, sem destino, que pensava em desistir tal qual seu pai; mas ao mesmo tempo, a força do ódio tomava seu corpo e fazia vibrar.

Enfim, um dia, a oportunidade pela qual sempre esperou, surgiu-lhe diante dos olhos. O salão de festas estava reservado para um evento particular, no qual, garotas seminuas dançariam para um público masculino específico, ou seja, respeitáveis senhores da mais alta classe da região, casados ou divorciados endinheirados, políticos e autoridades, a nata da hipocrisia estariam presentes. Uma cantora famosa receberia um alto cachê para se apresentar diante de tais senhores, no entanto, às vésperas do evento, encontrou-se adoentada e teve de cancelar sua participação. No entanto, toda a parte de equipamento, bebidas, aperitivos e as dançarinas já estavam confirmados e o público havia adquirido as entradas; não havia possibilidade de adiamento, mesmo porque alguns indivíduos do alto escalão se deslocariam de outros lugares para aquele momento. O organizador do evento estava desesperado e Evaldo cobrava-lhe a imediata solução sob certas ameaças à sua integridade. Por fim, depois de muitas discussões e ligações, conseguiu-se outra celebridade, mas esta, devido a algum problema de deslocamento, não conseguiria chegar no horário, seria preciso encontrar alguém para ir entretendo o público até a chegada da atração principal.

A jovem, silenciosa, lavava os copos e as coqueteleiras, enquanto que seu amigo, às suas costas, abastecia os refrigeradores com as bebidas. O palco estava montado, e um microfone fora posto ao centro para ser testado. Os spots de luz oscilavam, ora iluminando o palco, ora as mesas e cadeiras em que se acomodaria a plateia. De repente, a concentração em que estava foi rompida por um sujeito, com trejeitos femininos, usando um terno brilhoso e apertado, enormes óculos escuros e cabelo amarrado em um rabo de cavalo:

- Oh, minha filha, você poderia nos dar uma ajudinha?

Lígia fechou a torneira e ergueu os olhos, aparentemente incrédula de alguém tirá-la dos seus pensamentos e afazeres.

- O senhor falou comigo?

- Ora, estou vendo outra mocinha aqui por acaso? Claro que foi com você!

Antes de responder, a moça sentiu sobre si queimarem os olhos do patrão, que a observava, ao longe, sentado numa das últimas mesas, fumando um charuto. Toda vez que qualquer homem chegava diante dela, olhava em redor, receosa de ser surpreendida, pois há muito tempo notara que Evaldo a tinha como algo unicamente seu, a quem os demais espécimes masculinos deveriam manter uma distância respeitável. Se por um acaso, ela demorasse um pouco mais a atender algum cliente, ele chegava a pretexto de cumprimentar o convidado e deixar bem claro a quem pertencia o seu brinquedo; se não estivesse presente, sempre havia um segurança que surgia próximo de Lígia e lhe sugeria circular mais para ver se outras pessoas também precisavam ser atendidas. Educadamente, respondeu-lhe:

- Em que posso ajudá-lo, senhor?

O sujeito, que era o organizador da festa, pediu-lhe, então, que testasse o microfone, pois queria ouvir uma voz feminina nas caixas de som, para não ter qualquer problema de acústica, pois a tal artista era muito exigente. Lígia, aparentemente sobressaltada, perguntou-lhe como poderia testar o aparelho visto que não era cantora nem apresentadora e, muito menos, tinha se imaginado falando ao microfone. Grosseiro, ele mandou-lhe falar ou cantar qualquer coisa ou até recitar um versinho se quisesse; ninguém prestaria atenção no conteúdo, afinal, era só um teste para o equipamento.

Lígia secou as mãos no avental e depois o tirou, deixando sobre o balcão. Com seu visual básico, de jeans rasgado, camiseta e tênis, que usava antes de começar o trabalho com o uniforme de atendente, caminhou até o palco. A cabeça levemente inclinada para baixo, sempre pensativa, os braços pendentes ao lado do corpo. Evaldo, sem sequer disfarçar, acompanhava, de longe, cada um dos seus passos. Ela subiu os poucos degraus que davam para o palco e postou-se diante do microfone. O organizador sinalizou-lhe para dar uma batida de leve no objeto com os dedos e fez um gesto para que falasse. Estática, a moça não sabia ao certo o que faria ali, mas gostava de música, gostava de cantar baixinho no seu quarto ou em pensamento enquanto fazia o serviço, e então pensou em cantar algo. No momento em que concluiu esse pensamento, o DJ, postado ao lado do palco, iniciou a introdução de uma canção que ela conhecia, era “What’s up”, da banda 4 Non Blondes, que tocava bastante à época. Lígia começou a cantar, de olhos fechados, com uma naturalidade e espontaneidade que todos ali pararam para escutar. Os técnicos do som e iluminação foram para próximo do palco ver quem era a cantora; seu amigo, no bar, com uma garrafa em mãos, sentia as lágrimas aos olhos com sua canção; Evaldo ergueu-se da cadeira, deixando o charuto ao cinzeiro, atônito, absolutamente deslumbrado por encontrar mais um encanto na jovem, a voz; e, por fim, a esposa do patrão, que chegava neste instante, no lugar e ficou petrificada diante do que viu. O organizador e o DJ se olharam com a constatação de que haviam encontrado alguém para abrir o show para a artista retardatária. Sem delongas, o primeiro foi ao encalço do patrão que, sem se voltar para responder e sem tirar os olhos da moça, anuiu.

Quando Lígia terminou sua canção e abriu os olhos, um pequeno público a aplaudiu animadamente. Sentiu-se corar, pois nem ela sabia do dom escondido. Antes de descer do palco, lá estava o esbaforido organizador com a proposta; a moça olhou para o patrão e tudo o que ele lhe fez foi mostrar o polegar levantado e um sorriso de deslumbramento na face. A esposa, fulminou-a com seu olhar invejoso, cheio de rancor e saiu do ambiente. Foi-lhe prometido os trajes e a maquiagem e para que ela estivesse, dentro de quatro horas, no camarim com as dançarinas; o DJ pediu-lhe para cantar mais umas três músicas além dessa e a garota se comprometeu, passando-lhe os nomes de algumas canções que conhecia.

A moça voltava para trás da bancada do bar, ainda assombrada com o que havia feito, sem prestar muita atenção no caminho, quando foi interceptada por Evaldo a sua frente. Talvez a nova realidade, imbuiu-a de uma nova determinação de ânimo, que ela sequer se assustou ou ficou amedrontada. Apenas encarou-o, ambos olhando-se fixamente. Para ele, aquele olhar fez estremecer a ponto de segurar suas piadas maliciosas ou qualquer atitude insidiosa, seu coração disparou. Levantou a mão enorme e puxou a presilha dos cabelos da jovem, passando os dedos lentamente pelos longos fios castanhos e depois, com suavidade, pela face delicada:

- Use solto e não se esqueça de quem colocou você ali!

Disse isso e saiu, com a presilha entre os dedos, completamente aturdido. Lígia percebeu seu poder, percebeu que o desestabilizara. Havia ameaça na fala, mas além disso, havia medo, medo de perdê-la. Não era mais o homem poderoso e perigoso que tinha estado a sua frente e sim o alucinado apaixonado, um homem tal qual adolescente diante da mulher que deseja e ao mesmo tempo teme. Não sentiu a menor piedade, ao contrário, seu nojo pela sua figura grande e grotesca só crescia; sentiu-se forte, renovada e a tal ponto confiante, que nem se preocupou em concluir o serviço no bar. Foi direto para seu quarto, precisava pensar, chegara o momento de preparar sua vingança e precisaria ser rápido.

Quando volveu ao quarto, sentou-se a beira da cama, firmou os cotovelos sobre os joelhos e com as mãos, segurava a cabeça que parecia explodir com tantos pensamentos surgindo desenfreados. Ficou aproximadamente uma meia hora nessa posição até que, por conseguinte, suspirou fundo, ergueu-se resoluta. A oportunidade de fugir e se vingar era aquela, não possuía muitas coisas para levar e mesmo assim precisaria deixar a maioria. Pegou a bolsa da faculdade, retirou todos os livros, cadernos e apostilas e colocou-os na mesa de canto. Uma pequena muda de roupas, um casaco, documentos, parcas economias que guardava num cofrinho de lata, as fitas cassetes que gravara junto com o walkman e alguns poucos retratos que tinha dos seus familiares. Após juntar o essencial em sua mochila, para passar o tempo, deixou o quarto organizado, como que para se despedir do seu pequeno cárcere. Foi para o banho. Colocou o chuveiro no modo frio, pois a água gelada lhe despertaria de qualquer letargia que a dominasse. Entrou rapidamente e tremendo, mas aos poucos, o corpo acostumou-se com a temperatura e ficou vários minutos apenas sentindo as águas escorrerem por seu longo cabelo.

Ao sair do banho, estendeu a toalha sobre a cadeira e ainda lembrou-se de guardar na bolsa alguns objetos de higiene pessoal. Olhou seu reflexo nu, no vidro do banheiro e pensou mais uma vez se teria coragem suficiente para realizar tudo o que fosse preciso. Não recuaria, não podia, pois talvez fosse essa a única chance que tivesse. Vestiu-se, jogou a mochila sobre os ombros e saiu, deixando a porta apenas encostada.

Caminhava calmamente, pela frente da residência, olhando tudo pela última vez: os carros na garagem, o sobrado imponente, o jardim sempre bem cuidado à frente, o movimento dos carros e das pessoas entrando e saindo do grande salão de festas. Seu plano poderia dar totalmente errado, mas já não se importava mais, nada mais tinha a perder. Entrou no salão e foi até os camarins. Lá as dançarinas ensaiavam alguns passos de suas danças eróticas enquanto se vestiam com roupas mínimas e brilhosas, passavam uma quantidade de maquiagem sobre as faces que mudavam-lhes totalmente os traços originais, iam para lá e para cá em saltos vertiginosos com a destreza de gazelas correndo no campo. Entre elas, Lígia, sentia-se absolutamente deslocada. Não possuía o sorriso no rosto que ostentavam ao falar a todo instante, o brilho nos olhos de quem tinha muitas esperanças, a vivacidade que sentia emanar das demais. As garotas também estranharam a presença da moça alta, bonita e silenciosa no recinto; não sabiam quem era, mas também não tiveram muita curiosidade em saber. Olharam-na a princípio com um certo espanto, porém, depois voltaram aos seus primeiros hábitos.

O cabeleireiro entrou no camarim seguido pelo organizador e horrorizou-se da aparência de Lígia, com os cabelos úmidos, as roupas habituais e a pele completamente translúcida. O organizador trazia uma caixa grande, em que estava um vestido e sapatos para a apresentação da moça, a qual entregou-lhe. Colocaram-na sentada em frente a um espelho e começou então o trabalho frenético de transformar a beleza natural da garçonete no esplendor exuberante da cantora.

Lígia estava alheia a toda a reviravolta e balbúrdia das pessoas a sua volta. Seus olhos no espelho estavam petrificados. Em seus pensamentos, repassava mil vezes o plano para fugir do local amaldiçoado e a oportunidade de um único momento de glória para em seguida um desfecho ainda mais grandioso, independentemente das consequências.

O barulho das vozes, com a agitação das dançarinas, e o som alto da música ecoavam. O organizador estava mais eufórico que nunca, falava aos berros e saltitando de um canto para o outro. Nenhum sinal de Evaldo nem sua esposa. Lígia sabia que a mulher não estaria presente, pois era um evento apenas para homens, mas ele estaria sentado em sua mesa de honra, praticamente em frente ao palco, com senhores ilustres da política, da cultura e os grandes no mundo do crime também, ao seu lado, idolatrando-o, e como sempre, haveria de estar com alguns seguranças a tiracolo e com a arma presa ao coldre junto ao corpo. Mas ela tinha certeza que, a um chamado seu, ele acolheria solícito, pois era a oportunidade perfeita, para disfarçadamente e longe da esposa, encontrar-se com a moça… ele não haveria de perder a chance, portanto, se o plano desse certo, seria apenas os dois, frente a frente e pela última vez, mesmo que fosse preciso morrer para que isso acontecesse.

Quando a produção de Lígia se deu por finalizada, ela olhou-se ao espelho uma última vez e gostou do que viu: maquiaram-na realçando a beleza do esverdeado do seu olhar e a sensualidade nata rubra dos lábios; seus cabelos foram ondulados e fizeram leves mechas douradas que realçaram o movimento e o brilho dos fios. O longo vestido vermelho, modelado ao corpo pelo detalhe do corpete em pedrarias também escarlates, salientava ainda mais a alvura da pele, a altura que fazia se sobressair, uma sensualidade que parecia brotar de cada detalhe que lembraram-na da personagem de Jessica Rabbitt: linda, sensual e perigosa. Era isso! Exatamente isso que queria! A partir daquele momento não seria mais a jovenzinha calada, que se escondia e fugia dos assédios – era a mulher, que encararia o mundo de frente e colocaria no devido lugar aquele que arruinara a sua vida e a de sua família.

A equipe de produção, concluído os trabalhos, saiu para um breve descanso; as dançarinas se encaminharam para abrir as apresentações e Lígia ficou sozinha no camarim. Sabia que o momento seria breve, portanto, correu até sua mochila, abriu-a, pegou um bloco de papel e uma caneta. Sentou-se em frente a penteadeira, deu um longo suspiro, pois sabia que depois de feito, não haveria mais volta e redigiu o bilhete. Dobrou-o. Guardou suas coisas e tentou não amassar o papel que escondia entre as mãos que suavam. Saiu rapidamente pelo corredor e encontrou dois dos seguranças que sempre estavam a velar por sua integridade e os chamou.

- Olá! Será que um de vocês poderia entregar esse bilhete ao doutor Evaldo para mim? Não posso sair e é muito importante!

Os homens, pasmados com a transformação e sem nem esconder a admiração se adiantaram, e um estendeu a mão.

- Por favor, se possível entregue quando eu estiver me apresentando! Grata!

Lígia colocou o papel dobrado sobre a mão do segurança e voltou rapidamente para o aposento. Mal conseguia respirar quando bateu a porta. As pernas tremiam de tal forma que jogou seu corpo sobre a cadeira e ficou a segurar os joelhos. A sensação de terror era imensa, mas tinha de ser forte, precisava ser forte, por ela e pelas pessoas que amava. A garganta ardia, ressequida e, como um paliativo, um garçom entrou e deixou uma garrafa de champanhe. Assim que o homem se retirou, a moça correu a abrir o vidro, sem nem ver o bilhete que o acompanhava, e virou com tudo, sentindo o líquido queimar-lhe por dentro. Agora era uma questão de tempo. O relógio na parede corria devagar e as sensações se misturavam: ódio, rancor, medo, angústia, ferocidade, pânico. Então, as dançarinas romperam ruidosamente pela porta do camarim; acabara a primeira parte do espetáculo.

A equipe voltou para levá-la rumo ao palco. O organizador, de mãos geladas, perguntava a todo instante, segurando seu pulso, se ela ia ter coragem mesmo, se não o decepcionaria. Com uma força interior sobre-humana, Lígia sorriu e disse que ficasse tranquilo, pois faria tudo o que esperavam dela. Passou pelos bastidores, por várias pessoas, até ser empurrada gentilmente para o centro do palco quando anunciaram seu nome ao microfone. As cortinas se abriram para o público e por um segundo, ela não divisou nada além das luzes em sua direção que quase a cegavam. A máquina de fumaça artificial com seu odor enjoativo e a mistura com os cigarros e charutos acesos geravam uma névoa densa que tornava tudo como uma espécie de mundo onírico. Quase não conseguia enxergar as pessoas, mas podia perceber que havia homens em pés e sentados e o alvoroço dos gritos e assobios.

As primeiras notas começaram a soar e gradativamente o ambiente foi se aclarando diante dos seus olhos. Quando começou a cantar, a música soava bela e distante dentro de si. Era quase tão etérea quanto ela mesma em meio aquele universo. Não notava os homens extasiados com sua beleza e sua voz, queria apenas deixar as canções fluírem e tentar esquecer por algum tempo os horrores que ainda enfrentaria naquela noite, todavia, Lígia o divisou, exatamente onde imaginara que ele estaria, na mesa principal, em frente ao palco, olhando e bebendo cada gesto dela.

Evaldo estava deslumbrado como nunca antes, em toda a sua vida. A espera por ver Lígia o tinha extenuado profundamente. Não vê-la, não ter notícia sobre ela o afligiam. Passara o dia inquieto, delegara as funções de todos os compromissos do dia para seus subordinados, não conseguia pensar em outra coisa: no seu objeto diante de todos os homens e a possibilidade de todos a quererem. O ciúme do que achava que era sua propriedade o corroía com amargor. A esposa, percebendo a razão do mal humor, começou a aborrecê-lo, andando atrás do marido com ameaças e dizendo-lhe impropérios; a situação chegou a tal ponto, que não mais se controlando, o homem deu-lhe uma forte bofetada à face que fez com que caísse estatelada ao chão, arrebentando o colar de pérolas que trazia ao pescoço. Soluçando baixinho, a mulher resignou-se, começou a recolher as bolinhas que corriam pelo piso e por fim, trancou-se com os filhos. Desta forma, Evaldo se viu livre da esposa a quem já não suportava há muito tempo. Tomou um banho demorado, colocou seu traje de gala e como sempre trazia, a arma junto ao corpo. Quando chegou ao salão de festas, enclausurou-se no escritório que mantinha numa saleta fechada, próximo à entrada, e esperou ser chamado para receber os cumprimentos dos convidados. A sua espera talvez não tenha sido tão longa quanto a de Lígia, pois a todo momento, vinham consultá-lo, mas ainda assim foi-lhe angustiante, pois queria se desvencilhar de todos para vê-la. Por fim, quando as dançarinas já estavam se apresentando, entrou no ambiente, dirigindo-se até a sua mesa de praxe, recebendo elogios, fazendo brincadeiras e cumprimentando os indivíduos ali presentes. Sentou-se, ao lado de figuras importantes que haviam adquirido o direito de sentar-se ao seu lado, acendeu o charuto, tomou seu uísque e fingia entreter-se com as mulheres dançando e as conversas do recinto. Porém, quando Lígia finalmente entrou, não viu nem ouviu mais ninguém ali presente. Estava linda, deslumbrante, desejável ao extremo! Como a queria! Sentiu a ereção por dentro das calças e ficou a cogitar hipóteses de realizar seu anseio.

Enquanto Lígia cantava, o segurança se aproximou do patrão e entregou-lhe o papel, sinalizando com o indicador para dizer que fora mandado pela moça. Ela acompanhou o movimento tão distante quanto podia, mas com a certeza que o momento chegara. Evaldo, aparentemente incrédulo, olhou-a surpreso e abriu o papel: o bilhete, com a caligrafia delicada, pedia um encontro em particular, no escritório, para agradecer-lhe pessoalmente e a sós pela oportunidade, logo após o término de sua apresentação! O homem aprumou-se na cadeira e viu ali a realização do seu desejo. Ele a conquistara. Sabia que ela seria grata e lhe retribuiria. Abriu um grande sorriso, tal qual a fera a mostrar os dentes diante da presa; salivou e tomou um grande gole de uísque levantando o copo para que a jovem percebesse seu contentamento. Anuiu com a cabeça e Lígia, buscando dissimular o asco, sorriu-lhe fingindo amabilidade.

Assim como a jovem previu, o patrão amassou o bilhete, colocando no cinzeiro e queimando com a ponta do charuto; afinal, não poderia haver provas de um encontro aparentemente adúltero. Sabia que ele seria discreto e daria qualquer desculpa para ausentar-se e, os homens ali presentes, embriagados, drogados ou a espera dos favores sexuais das dançarinas, nem reparariam. Foi o que aconteceu. Faltando poucos minutos para o fim da apresentação, Evaldo mandou chamar o organizador, conversou, olhou o relógio, levantou-se e saiu dando uma última relanceada de olhos para a moça.

Esses instantes, para Lígia, pareceram transcorrer como cenas de um filme noir e em câmara lenta, era como se sua consciência gradativamente a deixasse a mercê das atitudes premeditadas e mecanizadas. Os sons das palmas ao término de seu primeiro e único show pareciam ecoar distantes em seus ouvidos. Os cumprimentos das pessoas nos bastidores, os elogios que ouvira, absolutamente nada, faziam sentido e a moça passou por todas com um sorriso vazio e sem palavras. Foi até o camarim e nem se importou com o buquê de rosas em sua penteadeira. Pegou a mochila com seus pertences e foi ao encontro do carrasco.

Não pensava em mais nada, não sentia mais nada. O caminho até o escritório de Evaldo estava iluminado por fracas e poucas luzes amarelas, pois não havia mais ninguém por lá. Até os seguranças não estavam ali e sim na festa. A moça deu uma leve batida a porta e ouviu a voz do homem dizendo para entrar. Ao contrário da moça, fria e robótica, ele estava totalmente tomado pela ansiedade, suando abundantemente, sentindo-se como um adolescente apaixonado e que, depois de uma longa espera, receberia o que deseja do objeto de sua afeição. Havia tirado o paletó e a gravata, que estavam sobre o assento da poltrona. O coldre e o revólver estavam ao seu lado, na mesa.

Lígia entrou. Com uma expressão de falsa felicidade, agradeceu tudo o que Evaldo fizera por ela até então e que como não tinha meios de retribuir-lhe, faria isso oferecendo-lhe seu próprio corpo. Lentamente despiu-se do longo vestido escarlate, das peças íntimas e descalçou os sapatos, olhando-o fixamente. Extasiado, Evaldo sentia a plena realização dos seus desejos próximo de si, arrancou com brutalidade a própria camisa e baixou as calças revelando seu membro inchado e descomunal. Vagarosa, a moça caminhou até o homem, suavemente deixando sua mão correr pela mesa. Quando chegou diante do seu torturador, passou-lhe os dedos entre os pelos do peito e, ele, irrefletidamente, puxou-a com tudo para si. O movimento de Evaldo fez com que os sentimentos de fúria e rancor brotassem com violência no coração da jovem e acelerassem aqueles momentos que até então transcorriam lentos, acelerando-os. Com a mão sobre a mesa, Lígia puxou rapidamente o revólver e desajeitada apertou o gatinho em direção ao tórax de Evaldo.

- Sua cadela! Gritou o homem, atordoado, tentando segurá-la com uma das mãos e com a outra, tentando estancar o ferimento, porém, era tarde demais, outro disparo o atingiu, desta vez no peito, paralisando-o.

A força com que segurara o punho de Lígia cedeu e ela conseguiu se desvencilhar. O sangue respingara em seu corpo e um tremor violento começou a apossar-se dela. Rapidamente, vestiu apenas a calcinha e o vestido; abriu a mochila, tirando uma jaqueta jeans e jogando o revólver em seu interior; tateou sobre a mesa e achou a chave de um dos carros, saindo em disparada. Na porta, relanceou um último olhar diante do sujeito que lhe arruinara toda a existência e a das pessoas que amava, sentindo um misto de alívio pela vingança e o medo do que viria após tudo aquilo. Por fim, correu. Correu como nunca havia corrido antes em toda a sua vida. Atravessou os corredores com a fraca iluminação, chegou à saída de incêndio, olhando de um lado para o outro tentando avistar o carro de Evaldo a que pertencia aquela chave, encontrou o Escort vermelho estacionado mais adiante e entrou o mais rápido que pode, ligando a chave e acionando o motor.

Ninguém ouviu o tiro nem o grito de Evaldo, a música alta da festa abafara todos os ruídos. Os convidados estavam bêbados demais ou drogados demais ou ocupados demais apalpando as dançarinas para prestar atenção em qualquer outra coisa. Na estrada de terra que ia da propriedade à rodovia, um ou outro casal apalpava-se dentro dos carros ou juntos às árvores, mas nenhum deles parou para olhar o carro que se afastava com velocidade.

A madrugada findava-se e, lentamente, os tons de rosa do aurorescer estampavam-se no céu. Lígia sabia que não sairia impune do que fizera, sabia que mais cedo ou mais tarde dariam falta do anfitrião e lhe encontrariam o corpo esvaído pelos dois tiros, sabia que encontrariam seus sapatos e sutiã deixados no recinto e que ligariam uma coisa à outra, sabia que logo a polícia estaria em seu encalço ao darem por falta também do carro. O tremor continuava vibrando por seu corpo, fazendo-lhe suar e ter calafrios ao mesmo tempo. Sensação de paz e medo do desconhecido, um rodamoinho de confusão.

No entanto, iria dirigir até consumir a última gota de gasolina do carro, iria dirigir até onde fosse possível, mesmo que a estrada terminasse em um abismo rochoso ou em um penhasco próximo ao mar, mesmo que um caminhão viesse de encontro e lhe transformasse em destroços de massa humana e lataria, mesmo que a polícia tentasse pará-la à bala; absolutamente sem destino. A liberdade de fazer o que quisesse com sua vida estava pela primeira vez a sua disposição e dali por diante nada mais a deteria nem sequer a morte. Com os dedos sujos e trementes, apertou o play do toca-fitas, que reverberou um som metálico pelas caixas de som, pisou fundo o acelerador com o pé descalço e, lentamente, guiada apenas pelo embalo da canção, foi se tranquilizando. Havia alcançado seu objetivo, nada mais importava.

Ana Claudia Brida.
13/08/2018












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