Via-se no interior de uma taberna uma jovem, seu rosto mostrava uma certa placidez, o que era singularmente estranho, pois estava ela a servir uma mesa repleta de homens fortes e alvos, como pressuponho que tenham sido os bárbaros germânicos; o que era de fato assombroso, e que destoava da frágil aparência da moça, eram os seus olhos. Havia neles uma malignidade, algo de sombrio e misterioso. Em outros quadros, apresentavam-se cenas sangrentas de batalhas e assassínios, e em todas elas, a mesma jovem estava representada num plano estratégico, visível e com os mesmos olhos. Mais adiante, via-se a figura de uma moça, que pelos traços, deveria ser a mesma dos outros quadros; percebia-se nitidamente que a vida não mais habitava aquele corpo, que estava enrolado num manto branco, sobre uma fogueira, que é um hábito de culturas primitivas. Nos quadros que se seguem, não mais surge a moça. O quadro a seguir, representa um grupo de pessoas, todas de costas, vestidas de negro com as mãos estendidas para o alto. Nos próximos três quadros, estão representados animais, que, geralmente são denominados por pragas: uma barata, um rato e um escaravelho. No último quadro, simplesmente aparecia o vulto de uma mulher totalmente branco, ou seja, uma forma não muito definida, com os braços levantados ao céu.
Neste ponto, findava a suposta narrativa. Chamei por meus familiares e mostrei o objeto; meu pai tomou o papel de minhas mãos e o analisou minuciosamente. Bem onde findava o desenho, avistou alguns números escritos numa letra miúda, quase imperceptível, mas não foi possível saber do que se tratava. Deixamos o suposto mapa de lado, e fomos nos organizar.
Na sétima noite, passada na tal casa, um fato ocorreu. Estava eu deitada, já repousando, quando comecei a sentir uma certa inquietação. Despertei, sentindo como se algo corresse pelas minhas pernas, no mesmo instante pulei da cama e acendi a lâmpada... qual não foi minha surpresa ao ver uma grande e negra barata sobre os lençóis... precipitei-me para extinguir sua mísera existência, mas todos os meus esforços eram em vão, pois ela voava de uma parede a outra, como a zombar da minha figura; depois de um quarto de hora, acertei com precisão, um golpe sobre ela... claramente a vi cair ao chão, já inerte, e mais me espantei quando a vi tornar-se pó e desaparecer diante das minhas vistas. Esfreguei os olhos já cansados, procurei-a ainda por baixo das camas e dos objetos, mas não a encontrei; de fato, ela desapareceu diante dos meus olhos.
Tentei dormir, mas debalde conseguia esquecer o ocorrido. Lembrei-me, então, daquele papel com aquelas figuras enigmáticas. Procurei por uma lupa, e debrucei-me sobre a escrivaninha para descobrir que números eram aqueles tão miúdos. Senti uma espécie de calafrio percorrer-me a espinha, quando contemplei que se tratava de uma data e de uma hora, mas não era uma simples data e uma simples hora, e sim, a data e a hora do meu nascimento. Por mais que eu tentasse descobrir do que se tratava aquilo, menos encontrava respostas... não comentei o fato com mais ninguém, guardei em silêncio, na expectativa que a meditação no assunto me trouxesse as respostas que eu buscava.
Mais outra semana se passou, e mais uma noite chegou em que meu sono foi perturbado por ruídos insistentes e irritantes. Ao colocar os pés para fora da cama, senti algo quente e peludo correr sobre mim... meu coração disparou, novamente corri para acender a lâmpada e fiquei horrorizada com a presença de um rato grande e cinzento correr como um louco, sem sentido, de um lado para o outro...
Mas, com a iluminação a tomar todo o ambiente, a criatura asquerosa estacou e fixou seus olhinhos repugnantes e raivosos em mim, eu tremia, nada conseguia dizer, nem um grito escapava-me dos lábios. Ele abriu sua boca mostrando os dentes afiados e amarelos, numa atitude ameaçadora e partiu, com fúria em minha direção, para atacar. Fiquei estática, o único gesto que recordo de ter realizado, foi cobrir o rosto com as mãos... senti os dentes fixados em meu pé, e uma vertigem me tomar a ponto de desmaiar.
Quando acordei, estava em minha cama. Não lembro de ter ido até ela, de ter me deitado, e muito menos de que alguém tivesse entrado no meu quarto, pois tenho como hábito trancar a porta ao ir dormir. Imediatamente descobri minhas pernas e procurei a marca que provavelmente estaria no meu pé, mas não havia nada... absolutamente nada, nem um arranhão, nem uma gota de sangue nos lençóis. O papel estava sobre a escrivaninha, dobrado, da mesma forma como eu o havia deixado. Abruptamente o desdobrei, e na mesma hora, percebi que alguma coisa muito pequena caiu no chão, abaixei-me e imediatamente senti toda a minha repulsa retornar, ali, em minha frente, estava um dente minúsculo e afiado. Tentei argumentar os fatos com os meus familiares, foi em vão, a única coisa que me disseram é que simplesmente haviam pegado um rato com a ratoeira. Fui ao lixo e com asco, observei o cadáver, mas não era o ser grotesco que me atormentara na última noite.
Na noite seguinte, não consegui repousar, lembrava os acontecimentos misteriosos envolvendo os dois animais repulsivos, revirei-me de um lado a outro na cama e finalmente decidi levantar-me e entender o que era aquele mapa, ou aquela história.
Quando abri o papel, eu não vi o rosto da moça, mas vi o meu próprio ali estampado. E as cenas se sucediam como num filme, moviam-se; eu não consegui conceber se estava sonhando, se aquilo era fruto da minha mente já perturbada ou algo do gênero, sei que firmemente segurei o papel em minhas mãos, enquanto via toda a história se apresentar para mim.
Eu me via no lugar da moça, via os atos cruéis praticados por mim, via coisas abomináveis, que completavam aquelas cenas e que eram todas manipuladas pela minha pessoa. Via a minha própria morte e o ódio das pessoas contra o que eu havia feito, e mais do que isso, percebia que aqueles animais eram uma maldição lançados para mim, por tudo o que de ruim eu havia feito. Sentia, no transcorrer dos fatos, as lágrimas correrem pelos meus olhos, e foi então que compreendi o que era, o que significava aquele papel.
Era um mapa de fato, um mapa da minha outra vida, da reencarnação passada. A data, a hora, os acontecimentos em geral revelavam isso. Deduzi que vim da região da Bavária, e que aproveitando-me da minha aparência esbelta havia cometido toda a sorte de vilezas e maquinações pérfidas, e que em decorrência disso, uma maldição recaía sobre mim; essa maldição teria fim na vida presente, pois a última figura lembrava alguém alcançando a redenção. Talvez, o fato de ter encontrado este mapa na nova casa onde iria habitar, seria uma trama do destino, que a todos persegue, para mostrar minha verdadeira identidade. Foi então, que percebi, que ainda faltava um animal, o escaravelho, e aqui gelou-me o coração, tive medo da dor, tive medo da morte, tive medo de sentir medo. Ainda havia de enfrentar aquela última maldição.
Esperei, esperei angustiada e silenciosa pelo sétimo dia, até que finalmente o sono me venceu, e depois de tantas agitações consegui repousar. Mas, que repouso breve... ouvi grunhidos, barulhos angustiosos. Na mesma hora, despertei e pensei na maldição... não consegui ter forças para me levantar da cama, estava apavorada, e inexplicavelmente a luz se acendeu.
Não consegui nem exprimir direito o pavor que senti, ao ver o quarto todo coberto de escaravelhos agitados, negros e brilhosos. Tentei levantar-me, lançar algo em direção a eles que os fizessem desaparecer, mas, não tinha como me mover... pensava em mil coisas, mil soluções, mas nenhuma era possível ali. Foi então que senti algo erguer-se, fluir dentro de mim, e dei um grito, o grito que saiu do mais íntimo do meu ser, e também o grito mais horrível, tenebroso e áspero que já ouvi em minha vida.
Na mesma hora, acordei com a luz do dia, e minha mãe a entrar no quarto, pois naquela noite, eu, por descuido, esquecera a porta entreaberta. Tudo não passou de um sonho...
Ana Claudia Brida
01/10/2005
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