segunda-feira, 13 de agosto de 2018

SEM DESTINO




A poeira subia pela estrada de terra, com a velocidade do pequeno carro vermelho. Os pés, descalços e feridos pela corrida desenfreada até conseguir obter um meio de fuga, calcavam com tudo o acelerador. As mãos brancas no volante tremiam e delas uma gosma misturada de suor e sangue.

O amanhecer lentamente estendia-se no horizonte e em breve, chegaria à rodovia, onde provavelmente, mais cedo ou mais tarde, alguém a deteria. Mas já não importaria mais para Lígia. Queria apenas se distanciar das pessoas que tanto intoxicaram sua vida, que prejudicaram sua família e que, no fim das contas, num mundo de tantas injustiças, sairiam impunes se ela nada tivesse feito.

Sua mente era um turbilhão de lembranças e ela revisitava todas as memórias que a fizeram chegar naquele instante de agonia que desencadeou sua vingança. Sua primeira lembrança era a de que o pai estava morto, vítima de uma depressão que o levou ao suicídio. Depressão causada por uma dívida contraída para libertar um dos filhos do vício nas drogas. Não adiantou, pois o rapaz, crente do valor dos falsos amigos, não deu ouvidos à família e mergulhou rumo à morte certa nas mãos dos traficantes. Ambos mortos, seu pai e seu irmão… causas diferentes, motivos iguais.

Para permanecer viva, ela e a mãe tiveram de prestar serviços, tais quais escravas, para o bandido maldito, causador da morte de seus entes, e a prepotente família, enriquecida por agiotagem, tráfico e corrupção. A mãe, exaurida física e mentalmente, trabalhou alguns anos, mas também havia sucumbido a um câncer em um leito de hospital, cabendo apenas a si mesma a prestação de serviços para pagar a dívida eterna.

A segunda lembrança, a dívida que engolira toda a sua família e agora sugava-lhe a existência. Evaldo, esse era o nome do assassino de sua família, o maldito traficante que seduziu seu irmão, o miserável agiota que destruiu seu pai, na verdade, um importante político a quem estava aparentemente amarrada enquanto vivesse. Nos círculos sociais, era um indivíduo sempre presente, fingindo caridades por um lado, enquanto pelo outro arrancava o dinheiro e a dignidade das pessoas. Sujeito imenso e intimidador, pálido, na faixa dos cinquenta anos, porém ainda não totalmente grisalho, de grandes e saltados olhos azuis recobertos de olheiras fundas, sorriso sarcástico, barriga protuberante e enormes mãos que facilmente esmagariam o que tocasse. Falava alto e sempre dando ordens, gesticulava muito e, por baixo de suas roupas sociais, andava sempre com uma arma escondida às costas. As pessoas o temiam e obedeciam quase que às cegas, riam de suas piadas sem graça, acatavam suas ordens por mais absurdas que fossem. Vivia rodeado de pessoas, de puxa-sacos às pessoas que extorquia. Tinha prefeitos, governadores, outros políticos e membros da justiça na palma das mãos. Com alguns era de uma simpatia cínica, com outros, arrogante e tirânico. Lígia sabia que, primeiro ele, com seus capangas, torturara seu irmão até a morte e depois o quanto o pai se humilhara a pedir o perdão pela dívida; não satisfeito, obrigou-a a prestar serviços junto com a mãe, até esta também não aguentar. Não suportava sequer olhar sua face, pois o ímpeto de fazê-lo pagar pelos seus familiares era o que ainda a segurava debaixo do mesmo teto.

Estava, pois, sozinha. Crescera dentro da enorme propriedade, aturando os desaforos e futilidades da esposa do patrão, mulher baixa e atarracada, recoberta de joias, de voz irritante e manias que enlouqueceriam a qualquer um; aturando os filhos do homem, duas crianças intoleráveis e mimadas; havia ainda dois adultos que quase nunca estavam em casa e pareciam não suportar a própria família. O lugar era imenso, em meio a serra, uma legítima mansão campestre.

A casa central era um imponente sobrado acinzentado, de arquitetura moderna, com vários quartos, salas de visitas e escritórios. A esposa do patrão, preenchia todos os espaços com pinturas e esculturas que seus hábitos artísticos a faziam criar. Aos fundos, havia uma grande área para churrasco e uma piscina, com uma cascata artificial. Próximo à casa, na lateral, um salão de festas, com palco, camarins e bar, que eram locados com bastante frequência para os eventos dos cidadãos ilustres da região; ali, apresentavam-se artistas diversos e até importantes reuniões que não podiam acontecer as claras, na cidade, usavam o espaço. Na outra lateral, um vasto estacionamento para a coleção de carros ali mantida por Evaldo, de Corvete, Cadilac e Fords antigos aos modernos Escort, Kadett, Ômega, contando ao todo uns vinte veículos apenas de enfeite. Atrás do estacionamento, ficava a ala dos empregados, como uma pequena sequência de quitinetes que mais funcionavam como penitenciária, visto que, grande parte dos funcionários ali estava presa por dívidas semelhantes à sua; poucos eram, de fato, registrados legalmente. Separada da propriedade central, havia a parte da criação dos animais, que funcionava como haras e, mais aquém, escondido entre um bosque, quase a alguns quilômetros de distância, um galpão que funcionava para o cartel de armas e drogas. Seguranças circulavam armados, dia e noite, em volta de todo esse território de Evaldo, adquirido às custas de mãos alheias.
Nesse local, ela perdeu sua família, perdeu sua infância e, por fim, o que lhe restava de humanidade. Quando foi para lá morar, contava treze anos. Menina alta, magricela, de olhos esverdeados e assustados, retraída, com o hábito de retorcer frenquentemente as mãos brancas de longos dedos. Pagaram seus estudos e financiaram sua entrada em um curso de Psicologia, pois percebiam que era inteligente e poderia se tirar proveito disso, gostava de ler e, quando raramente, dispunha de uma folga, fugia para a biblioteca da mansão, recheada em sua maioria de livros da área do Direito, pois Evaldo e sua esposa possuíam a mesma formação. A medida que foi crescendo e seu corpo acompanhando o desenvolvimento, Evaldo viu desabrochar dentro da casa a mais bela jovem a que tinha visto: esbelta, de corpo feito, olhar agateado e os longos e sedosos cabelos castanhos que ondeavam-lhe pelos quadris quando andava. Dessa forma, ao tornar-se mulher, por todos a considerarem muito bela, Lígia passou a trabalhar no salão de festas como garçonete, preparando e servindo bebidas e como um atrativo para os homens poderosos da região.

No entanto, não chegara nunca a se prostituir, talvez pelo único fator: Evaldo a queria para si! Desejava-a ardentemente e por querer ter a posse do objeto que anelava, não permitia que lhe fizessem mal, que nenhum homem ousasse tocá-la. Quando ia para escola ou logo que entrou para a universidade, seguranças escoltavam-na de longe, armados. Era preciosa demais para o patrão desperdiçá-la. Não podia fazer trabalho em casa de colegas, mas era estimulada a trazer os mesmos colegas para a mansão como que para servir de pretexto para demonstração da falsa caridade da família e para que o patrão não a perdesse de vista.

Ao perceber o frenesi que o tomava, Evaldo consumiu-se pela insônia. Pensava na moça a todo momento, almejando sentir-lhe cada parte do corpo, de forma brutal; desejava mordê-la, beijá-la, apertá-la, penetrá-la até que desfalecesse em seus braços, sentir a pequena boca, de lábios vermelhos e levemente carnudos em seu próprio corpo a fustigá-lo por inteiro. Traíra a mulher inúmeras vezes, mas era diferente o sentimento novo que o apossara, um desejo que lhe corroía as entranhas, afligia-o por querer que fosse recíproco. De princípio não tivera coragem de se aproximar, mesmo ciente do seu poder, por ter um filho da mesma idade debaixo do mesmo teto; no entanto, quanto mais o tempo passava, maior o desejo ficava. Noites houve em que chegou à porta do quarto da moça e por pouco não o invadiu, sem sequer entender o que o impedira de avançar nessas primeiras ocasiões. Mandou os dois filhos mais velhos para fora estudar por receio de a tomarem de si; ameaçara seus empregados se algo lhe acontecesse e cogitava mil planos para atacá-la, seduzi-la ou dominá-la a força, além de planos macabros para desfazer-se da sua esposa e tomar para si a jovem beldade.

Ainda não chegara a ponto de fazer algo pela proximidade da esposa, sempre atenta e enciumada, que percebendo os atrativos de Lígia, enquanto os dela via decair apesar de todas as plásticas, vigiava muito de perto. Mesmo assim, o asqueroso sujeito, gradativamente, sempre dava um jeito de roçar-lhe as mãos em toda e qualquer situação que tivesse oportunidade. Se ela estivesse limpando o balcão do bar, Evaldo, sentava-se em sua frente, puxava suas mãos, dando apertos que a machucavam e dizia coisas jocosas, entre a piada aparentemente inocente ou obscena e, ao mesmo instante, com o receio de, por um triz, deixá-la escapar; se estivesse passando por ela, numa das festas, e a garota estivesse servindo algum convidado, apertava-lhe as nádegas ou aproveitava o movimento da pista de dança, em que esta precisava transitar para entregar as bebidas, a fim de se aproximar do seu corpo e fazê-la perceber como o deixava excitado; essas ocasiões iam lhe tornando eufórico e mais animado a cada nova investida. A jovem apenas se esquivava, de olhos baixos, não ousando lhe dizer nada; isso o fez pouco a pouco crer que realmente ela lhe pertencia.

Com o passar do tempo, mais de uma vez, armou pequenas emboscadas para ficar a sós com a garota, em ocasiões que pedia para ser atendido em particular, mas o máximo que conseguia era sapecar-lhe um beijo melequento no rosto, uma apalpadela nos seios ou um deslizar de mão entre suas pernas; ela fugia, como bicho acuado, sempre que possível ou, para a infelicidade do patrão, eram sempre surpreendidos pela esposa e seus azedumes. Para dormir, Lígia trancava seu quarto e colocava várias escoras na porta por medo de arrombamento no meio da madrugada.

Vivia nesta situação e sendo lembrada a todo instante que se ousasse fugir de lá, estaria morta, com certeza, e pela patroa, que a ameaçava constantemente, caso se aproximasse de seu precioso marido. Ela enfrentou o jogo, dissimulou toda a sua vida, fingiu estar feliz e agradecida sentindo-se morta por dentro, trabalhou arduamente, suportou em silêncio cada situação de assédio. Mas agora, faltando um ano para sua formatura, já não tinha mais ninguém que a prendesse ao mundo, não existia mais ninguém que precisasse dela a não ser ela mesma. Os outros empregados a tratavam com rancor, ressentiam-se, pois achavam que gozava de mais privilégios que os demais: tinha um quarto com televisão, videocassete e aparelho de som só para ela, tinha livre acesso à casa, tinha os estudos todos pagos e até ensinaram-lhe a dirigir. Mas não sabiam da paixão fulminante que Evaldo lhe mantinha nem do ódio que Lígia nutria por toda aquela família.

A garota assistiu a tudo isso acontecer, primeiro com medo pulsante, depois dominou-a o asco, a repulsa e um ódio fremente. Por fim, um desejo de vingança lhe ascendeu ao espírito e ciente do poder que seus encantos causavam ao miserável patrão, gradualmente foi desfiando a teia da sua ira. O estudo da psicologia humana fez com que despertasse seus próprios instintos para finalmente alcançar seu objetivo. De menina acuada e arisca, tornou-se uma jovem vaidosa, de língua rápida, que sabia exatamente o que dizer e quando dizer, aprendeu a fingir para agradar a todos que a cercavam, aprendeu que seu silêncio e discrição teriam um peso significativo quando a hora de se vingar daquela família chegasse. Talvez a solidão que viveu por todo esse tempo, com o desprezo dos demais empregados, as manias da patroa, a impertinência das crianças e a insanidade do homem, preparou-a para um destino diferenciado.

O único companheiro que tinha era um dos garçons que trabalhava com ela, nas noites de festa, no bar. Outro rapaz que ali estava preso por uma dívida de drogas e que, tentava, como ela, sobreviver num mundo que o engolia todos os dias. Via nele seu irmão, mas reconhecia que o amigo tivera um pouco mais de força ao passar pela abstinência e agora estar livre do vício, mesmo que preso ao causador. Conversavam pouco, mas esse pouco já lhe era significativo. O rapaz percebia as situações de constrangimentos por ela enfrentadas e dizia-lhe palavras para animá-la a dar fim naquilo, nem que fosse quando se formasse. Lígia, por sua vez, jamais se aproximava de seu colega sobre as vistas de Evaldo, desde que tomara ciência dos desejos do patrão por si; tinha medo que mais um inocente pagasse com a vida e poupava o único laço de afeto verdadeiro que possuía.

Nas noites em claro, fomentava intrincados planos de vingança, ouvindo as fitas cassetes que gravara músicas de Alice in Chains e Nirvana. As canções ora a mergulhavam em acessos de ira, ora em profunda melancolia. Olhava o ventilador do teto girando imaginando formas de fugir dali ou de pôr fim às suas angústias. Ligava a televisão apenas para ocupar o espaço com barulho das vozes de Kevin Arnold enfrentando os problemas da adolescência ou Fox Mulder e Dana Scully resolvendo algum enigma alienígena, enquanto remoía seus dilemas reais. As garotas de sua idade, estavam terminando o curso superior, indo em festas ou ao cinema, conhecendo seus namorados/futuros maridos, sonhando com viagens, shows ou conhecer algum artista famoso. Não ela… estava terminando também sua universidade, escolhida não ao acaso, mas para tentar se entender e entender a mente humana; trabalhava nas festas que suas amigas desejavam ir e teve o desprazer de conhecer várias celebridades nesses ambientes, a maioria chafurdada no vício das drogas; assistia a filmes em casa, de preferência aos que instigavam-lhe o desejo de vingança, como Cape Fear, Misery, The Silence of the Lambs ou Basic Instinct; viagens e alguém para amar simplesmente eram além da sua imaginação, não havia possibilidade alguma diante da estreita vigilância que vivia. Eram tantos os momentos que ela se via coibida, sem ação, sem rumo, sem destino, que pensava em desistir tal qual seu pai; mas ao mesmo tempo, a força do ódio tomava seu corpo e fazia vibrar.

Enfim, um dia, a oportunidade pela qual sempre esperou, surgiu-lhe diante dos olhos. O salão de festas estava reservado para um evento particular, no qual, garotas seminuas dançariam para um público masculino específico, ou seja, respeitáveis senhores da mais alta classe da região, casados ou divorciados endinheirados, políticos e autoridades, a nata da hipocrisia estariam presentes. Uma cantora famosa receberia um alto cachê para se apresentar diante de tais senhores, no entanto, às vésperas do evento, encontrou-se adoentada e teve de cancelar sua participação. No entanto, toda a parte de equipamento, bebidas, aperitivos e as dançarinas já estavam confirmados e o público havia adquirido as entradas; não havia possibilidade de adiamento, mesmo porque alguns indivíduos do alto escalão se deslocariam de outros lugares para aquele momento. O organizador do evento estava desesperado e Evaldo cobrava-lhe a imediata solução sob certas ameaças à sua integridade. Por fim, depois de muitas discussões e ligações, conseguiu-se outra celebridade, mas esta, devido a algum problema de deslocamento, não conseguiria chegar no horário, seria preciso encontrar alguém para ir entretendo o público até a chegada da atração principal.

A jovem, silenciosa, lavava os copos e as coqueteleiras, enquanto que seu amigo, às suas costas, abastecia os refrigeradores com as bebidas. O palco estava montado, e um microfone fora posto ao centro para ser testado. Os spots de luz oscilavam, ora iluminando o palco, ora as mesas e cadeiras em que se acomodaria a plateia. De repente, a concentração em que estava foi rompida por um sujeito, com trejeitos femininos, usando um terno brilhoso e apertado, enormes óculos escuros e cabelo amarrado em um rabo de cavalo:

- Oh, minha filha, você poderia nos dar uma ajudinha?

Lígia fechou a torneira e ergueu os olhos, aparentemente incrédula de alguém tirá-la dos seus pensamentos e afazeres.

- O senhor falou comigo?

- Ora, estou vendo outra mocinha aqui por acaso? Claro que foi com você!

Antes de responder, a moça sentiu sobre si queimarem os olhos do patrão, que a observava, ao longe, sentado numa das últimas mesas, fumando um charuto. Toda vez que qualquer homem chegava diante dela, olhava em redor, receosa de ser surpreendida, pois há muito tempo notara que Evaldo a tinha como algo unicamente seu, a quem os demais espécimes masculinos deveriam manter uma distância respeitável. Se por um acaso, ela demorasse um pouco mais a atender algum cliente, ele chegava a pretexto de cumprimentar o convidado e deixar bem claro a quem pertencia o seu brinquedo; se não estivesse presente, sempre havia um segurança que surgia próximo de Lígia e lhe sugeria circular mais para ver se outras pessoas também precisavam ser atendidas. Educadamente, respondeu-lhe:

- Em que posso ajudá-lo, senhor?

O sujeito, que era o organizador da festa, pediu-lhe, então, que testasse o microfone, pois queria ouvir uma voz feminina nas caixas de som, para não ter qualquer problema de acústica, pois a tal artista era muito exigente. Lígia, aparentemente sobressaltada, perguntou-lhe como poderia testar o aparelho visto que não era cantora nem apresentadora e, muito menos, tinha se imaginado falando ao microfone. Grosseiro, ele mandou-lhe falar ou cantar qualquer coisa ou até recitar um versinho se quisesse; ninguém prestaria atenção no conteúdo, afinal, era só um teste para o equipamento.

Lígia secou as mãos no avental e depois o tirou, deixando sobre o balcão. Com seu visual básico, de jeans rasgado, camiseta e tênis, que usava antes de começar o trabalho com o uniforme de atendente, caminhou até o palco. A cabeça levemente inclinada para baixo, sempre pensativa, os braços pendentes ao lado do corpo. Evaldo, sem sequer disfarçar, acompanhava, de longe, cada um dos seus passos. Ela subiu os poucos degraus que davam para o palco e postou-se diante do microfone. O organizador sinalizou-lhe para dar uma batida de leve no objeto com os dedos e fez um gesto para que falasse. Estática, a moça não sabia ao certo o que faria ali, mas gostava de música, gostava de cantar baixinho no seu quarto ou em pensamento enquanto fazia o serviço, e então pensou em cantar algo. No momento em que concluiu esse pensamento, o DJ, postado ao lado do palco, iniciou a introdução de uma canção que ela conhecia, era “What’s up”, da banda 4 Non Blondes, que tocava bastante à época. Lígia começou a cantar, de olhos fechados, com uma naturalidade e espontaneidade que todos ali pararam para escutar. Os técnicos do som e iluminação foram para próximo do palco ver quem era a cantora; seu amigo, no bar, com uma garrafa em mãos, sentia as lágrimas aos olhos com sua canção; Evaldo ergueu-se da cadeira, deixando o charuto ao cinzeiro, atônito, absolutamente deslumbrado por encontrar mais um encanto na jovem, a voz; e, por fim, a esposa do patrão, que chegava neste instante, no lugar e ficou petrificada diante do que viu. O organizador e o DJ se olharam com a constatação de que haviam encontrado alguém para abrir o show para a artista retardatária. Sem delongas, o primeiro foi ao encalço do patrão que, sem se voltar para responder e sem tirar os olhos da moça, anuiu.

Quando Lígia terminou sua canção e abriu os olhos, um pequeno público a aplaudiu animadamente. Sentiu-se corar, pois nem ela sabia do dom escondido. Antes de descer do palco, lá estava o esbaforido organizador com a proposta; a moça olhou para o patrão e tudo o que ele lhe fez foi mostrar o polegar levantado e um sorriso de deslumbramento na face. A esposa, fulminou-a com seu olhar invejoso, cheio de rancor e saiu do ambiente. Foi-lhe prometido os trajes e a maquiagem e para que ela estivesse, dentro de quatro horas, no camarim com as dançarinas; o DJ pediu-lhe para cantar mais umas três músicas além dessa e a garota se comprometeu, passando-lhe os nomes de algumas canções que conhecia.

A moça voltava para trás da bancada do bar, ainda assombrada com o que havia feito, sem prestar muita atenção no caminho, quando foi interceptada por Evaldo a sua frente. Talvez a nova realidade, imbuiu-a de uma nova determinação de ânimo, que ela sequer se assustou ou ficou amedrontada. Apenas encarou-o, ambos olhando-se fixamente. Para ele, aquele olhar fez estremecer a ponto de segurar suas piadas maliciosas ou qualquer atitude insidiosa, seu coração disparou. Levantou a mão enorme e puxou a presilha dos cabelos da jovem, passando os dedos lentamente pelos longos fios castanhos e depois, com suavidade, pela face delicada:

- Use solto e não se esqueça de quem colocou você ali!

Disse isso e saiu, com a presilha entre os dedos, completamente aturdido. Lígia percebeu seu poder, percebeu que o desestabilizara. Havia ameaça na fala, mas além disso, havia medo, medo de perdê-la. Não era mais o homem poderoso e perigoso que tinha estado a sua frente e sim o alucinado apaixonado, um homem tal qual adolescente diante da mulher que deseja e ao mesmo tempo teme. Não sentiu a menor piedade, ao contrário, seu nojo pela sua figura grande e grotesca só crescia; sentiu-se forte, renovada e a tal ponto confiante, que nem se preocupou em concluir o serviço no bar. Foi direto para seu quarto, precisava pensar, chegara o momento de preparar sua vingança e precisaria ser rápido.

Quando volveu ao quarto, sentou-se a beira da cama, firmou os cotovelos sobre os joelhos e com as mãos, segurava a cabeça que parecia explodir com tantos pensamentos surgindo desenfreados. Ficou aproximadamente uma meia hora nessa posição até que, por conseguinte, suspirou fundo, ergueu-se resoluta. A oportunidade de fugir e se vingar era aquela, não possuía muitas coisas para levar e mesmo assim precisaria deixar a maioria. Pegou a bolsa da faculdade, retirou todos os livros, cadernos e apostilas e colocou-os na mesa de canto. Uma pequena muda de roupas, um casaco, documentos, parcas economias que guardava num cofrinho de lata, as fitas cassetes que gravara junto com o walkman e alguns poucos retratos que tinha dos seus familiares. Após juntar o essencial em sua mochila, para passar o tempo, deixou o quarto organizado, como que para se despedir do seu pequeno cárcere. Foi para o banho. Colocou o chuveiro no modo frio, pois a água gelada lhe despertaria de qualquer letargia que a dominasse. Entrou rapidamente e tremendo, mas aos poucos, o corpo acostumou-se com a temperatura e ficou vários minutos apenas sentindo as águas escorrerem por seu longo cabelo.

Ao sair do banho, estendeu a toalha sobre a cadeira e ainda lembrou-se de guardar na bolsa alguns objetos de higiene pessoal. Olhou seu reflexo nu, no vidro do banheiro e pensou mais uma vez se teria coragem suficiente para realizar tudo o que fosse preciso. Não recuaria, não podia, pois talvez fosse essa a única chance que tivesse. Vestiu-se, jogou a mochila sobre os ombros e saiu, deixando a porta apenas encostada.

Caminhava calmamente, pela frente da residência, olhando tudo pela última vez: os carros na garagem, o sobrado imponente, o jardim sempre bem cuidado à frente, o movimento dos carros e das pessoas entrando e saindo do grande salão de festas. Seu plano poderia dar totalmente errado, mas já não se importava mais, nada mais tinha a perder. Entrou no salão e foi até os camarins. Lá as dançarinas ensaiavam alguns passos de suas danças eróticas enquanto se vestiam com roupas mínimas e brilhosas, passavam uma quantidade de maquiagem sobre as faces que mudavam-lhes totalmente os traços originais, iam para lá e para cá em saltos vertiginosos com a destreza de gazelas correndo no campo. Entre elas, Lígia, sentia-se absolutamente deslocada. Não possuía o sorriso no rosto que ostentavam ao falar a todo instante, o brilho nos olhos de quem tinha muitas esperanças, a vivacidade que sentia emanar das demais. As garotas também estranharam a presença da moça alta, bonita e silenciosa no recinto; não sabiam quem era, mas também não tiveram muita curiosidade em saber. Olharam-na a princípio com um certo espanto, porém, depois voltaram aos seus primeiros hábitos.

O cabeleireiro entrou no camarim seguido pelo organizador e horrorizou-se da aparência de Lígia, com os cabelos úmidos, as roupas habituais e a pele completamente translúcida. O organizador trazia uma caixa grande, em que estava um vestido e sapatos para a apresentação da moça, a qual entregou-lhe. Colocaram-na sentada em frente a um espelho e começou então o trabalho frenético de transformar a beleza natural da garçonete no esplendor exuberante da cantora.

Lígia estava alheia a toda a reviravolta e balbúrdia das pessoas a sua volta. Seus olhos no espelho estavam petrificados. Em seus pensamentos, repassava mil vezes o plano para fugir do local amaldiçoado e a oportunidade de um único momento de glória para em seguida um desfecho ainda mais grandioso, independentemente das consequências.

O barulho das vozes, com a agitação das dançarinas, e o som alto da música ecoavam. O organizador estava mais eufórico que nunca, falava aos berros e saltitando de um canto para o outro. Nenhum sinal de Evaldo nem sua esposa. Lígia sabia que a mulher não estaria presente, pois era um evento apenas para homens, mas ele estaria sentado em sua mesa de honra, praticamente em frente ao palco, com senhores ilustres da política, da cultura e os grandes no mundo do crime também, ao seu lado, idolatrando-o, e como sempre, haveria de estar com alguns seguranças a tiracolo e com a arma presa ao coldre junto ao corpo. Mas ela tinha certeza que, a um chamado seu, ele acolheria solícito, pois era a oportunidade perfeita, para disfarçadamente e longe da esposa, encontrar-se com a moça… ele não haveria de perder a chance, portanto, se o plano desse certo, seria apenas os dois, frente a frente e pela última vez, mesmo que fosse preciso morrer para que isso acontecesse.

Quando a produção de Lígia se deu por finalizada, ela olhou-se ao espelho uma última vez e gostou do que viu: maquiaram-na realçando a beleza do esverdeado do seu olhar e a sensualidade nata rubra dos lábios; seus cabelos foram ondulados e fizeram leves mechas douradas que realçaram o movimento e o brilho dos fios. O longo vestido vermelho, modelado ao corpo pelo detalhe do corpete em pedrarias também escarlates, salientava ainda mais a alvura da pele, a altura que fazia se sobressair, uma sensualidade que parecia brotar de cada detalhe que lembraram-na da personagem de Jessica Rabbitt: linda, sensual e perigosa. Era isso! Exatamente isso que queria! A partir daquele momento não seria mais a jovenzinha calada, que se escondia e fugia dos assédios – era a mulher, que encararia o mundo de frente e colocaria no devido lugar aquele que arruinara a sua vida e a de sua família.

A equipe de produção, concluído os trabalhos, saiu para um breve descanso; as dançarinas se encaminharam para abrir as apresentações e Lígia ficou sozinha no camarim. Sabia que o momento seria breve, portanto, correu até sua mochila, abriu-a, pegou um bloco de papel e uma caneta. Sentou-se em frente a penteadeira, deu um longo suspiro, pois sabia que depois de feito, não haveria mais volta e redigiu o bilhete. Dobrou-o. Guardou suas coisas e tentou não amassar o papel que escondia entre as mãos que suavam. Saiu rapidamente pelo corredor e encontrou dois dos seguranças que sempre estavam a velar por sua integridade e os chamou.

- Olá! Será que um de vocês poderia entregar esse bilhete ao doutor Evaldo para mim? Não posso sair e é muito importante!

Os homens, pasmados com a transformação e sem nem esconder a admiração se adiantaram, e um estendeu a mão.

- Por favor, se possível entregue quando eu estiver me apresentando! Grata!

Lígia colocou o papel dobrado sobre a mão do segurança e voltou rapidamente para o aposento. Mal conseguia respirar quando bateu a porta. As pernas tremiam de tal forma que jogou seu corpo sobre a cadeira e ficou a segurar os joelhos. A sensação de terror era imensa, mas tinha de ser forte, precisava ser forte, por ela e pelas pessoas que amava. A garganta ardia, ressequida e, como um paliativo, um garçom entrou e deixou uma garrafa de champanhe. Assim que o homem se retirou, a moça correu a abrir o vidro, sem nem ver o bilhete que o acompanhava, e virou com tudo, sentindo o líquido queimar-lhe por dentro. Agora era uma questão de tempo. O relógio na parede corria devagar e as sensações se misturavam: ódio, rancor, medo, angústia, ferocidade, pânico. Então, as dançarinas romperam ruidosamente pela porta do camarim; acabara a primeira parte do espetáculo.

A equipe voltou para levá-la rumo ao palco. O organizador, de mãos geladas, perguntava a todo instante, segurando seu pulso, se ela ia ter coragem mesmo, se não o decepcionaria. Com uma força interior sobre-humana, Lígia sorriu e disse que ficasse tranquilo, pois faria tudo o que esperavam dela. Passou pelos bastidores, por várias pessoas, até ser empurrada gentilmente para o centro do palco quando anunciaram seu nome ao microfone. As cortinas se abriram para o público e por um segundo, ela não divisou nada além das luzes em sua direção que quase a cegavam. A máquina de fumaça artificial com seu odor enjoativo e a mistura com os cigarros e charutos acesos geravam uma névoa densa que tornava tudo como uma espécie de mundo onírico. Quase não conseguia enxergar as pessoas, mas podia perceber que havia homens em pés e sentados e o alvoroço dos gritos e assobios.

As primeiras notas começaram a soar e gradativamente o ambiente foi se aclarando diante dos seus olhos. Quando começou a cantar, a música soava bela e distante dentro de si. Era quase tão etérea quanto ela mesma em meio aquele universo. Não notava os homens extasiados com sua beleza e sua voz, queria apenas deixar as canções fluírem e tentar esquecer por algum tempo os horrores que ainda enfrentaria naquela noite, todavia, Lígia o divisou, exatamente onde imaginara que ele estaria, na mesa principal, em frente ao palco, olhando e bebendo cada gesto dela.

Evaldo estava deslumbrado como nunca antes, em toda a sua vida. A espera por ver Lígia o tinha extenuado profundamente. Não vê-la, não ter notícia sobre ela o afligiam. Passara o dia inquieto, delegara as funções de todos os compromissos do dia para seus subordinados, não conseguia pensar em outra coisa: no seu objeto diante de todos os homens e a possibilidade de todos a quererem. O ciúme do que achava que era sua propriedade o corroía com amargor. A esposa, percebendo a razão do mal humor, começou a aborrecê-lo, andando atrás do marido com ameaças e dizendo-lhe impropérios; a situação chegou a tal ponto, que não mais se controlando, o homem deu-lhe uma forte bofetada à face que fez com que caísse estatelada ao chão, arrebentando o colar de pérolas que trazia ao pescoço. Soluçando baixinho, a mulher resignou-se, começou a recolher as bolinhas que corriam pelo piso e por fim, trancou-se com os filhos. Desta forma, Evaldo se viu livre da esposa a quem já não suportava há muito tempo. Tomou um banho demorado, colocou seu traje de gala e como sempre trazia, a arma junto ao corpo. Quando chegou ao salão de festas, enclausurou-se no escritório que mantinha numa saleta fechada, próximo à entrada, e esperou ser chamado para receber os cumprimentos dos convidados. A sua espera talvez não tenha sido tão longa quanto a de Lígia, pois a todo momento, vinham consultá-lo, mas ainda assim foi-lhe angustiante, pois queria se desvencilhar de todos para vê-la. Por fim, quando as dançarinas já estavam se apresentando, entrou no ambiente, dirigindo-se até a sua mesa de praxe, recebendo elogios, fazendo brincadeiras e cumprimentando os indivíduos ali presentes. Sentou-se, ao lado de figuras importantes que haviam adquirido o direito de sentar-se ao seu lado, acendeu o charuto, tomou seu uísque e fingia entreter-se com as mulheres dançando e as conversas do recinto. Porém, quando Lígia finalmente entrou, não viu nem ouviu mais ninguém ali presente. Estava linda, deslumbrante, desejável ao extremo! Como a queria! Sentiu a ereção por dentro das calças e ficou a cogitar hipóteses de realizar seu anseio.

Enquanto Lígia cantava, o segurança se aproximou do patrão e entregou-lhe o papel, sinalizando com o indicador para dizer que fora mandado pela moça. Ela acompanhou o movimento tão distante quanto podia, mas com a certeza que o momento chegara. Evaldo, aparentemente incrédulo, olhou-a surpreso e abriu o papel: o bilhete, com a caligrafia delicada, pedia um encontro em particular, no escritório, para agradecer-lhe pessoalmente e a sós pela oportunidade, logo após o término de sua apresentação! O homem aprumou-se na cadeira e viu ali a realização do seu desejo. Ele a conquistara. Sabia que ela seria grata e lhe retribuiria. Abriu um grande sorriso, tal qual a fera a mostrar os dentes diante da presa; salivou e tomou um grande gole de uísque levantando o copo para que a jovem percebesse seu contentamento. Anuiu com a cabeça e Lígia, buscando dissimular o asco, sorriu-lhe fingindo amabilidade.

Assim como a jovem previu, o patrão amassou o bilhete, colocando no cinzeiro e queimando com a ponta do charuto; afinal, não poderia haver provas de um encontro aparentemente adúltero. Sabia que ele seria discreto e daria qualquer desculpa para ausentar-se e, os homens ali presentes, embriagados, drogados ou a espera dos favores sexuais das dançarinas, nem reparariam. Foi o que aconteceu. Faltando poucos minutos para o fim da apresentação, Evaldo mandou chamar o organizador, conversou, olhou o relógio, levantou-se e saiu dando uma última relanceada de olhos para a moça.

Esses instantes, para Lígia, pareceram transcorrer como cenas de um filme noir e em câmara lenta, era como se sua consciência gradativamente a deixasse a mercê das atitudes premeditadas e mecanizadas. Os sons das palmas ao término de seu primeiro e único show pareciam ecoar distantes em seus ouvidos. Os cumprimentos das pessoas nos bastidores, os elogios que ouvira, absolutamente nada, faziam sentido e a moça passou por todas com um sorriso vazio e sem palavras. Foi até o camarim e nem se importou com o buquê de rosas em sua penteadeira. Pegou a mochila com seus pertences e foi ao encontro do carrasco.

Não pensava em mais nada, não sentia mais nada. O caminho até o escritório de Evaldo estava iluminado por fracas e poucas luzes amarelas, pois não havia mais ninguém por lá. Até os seguranças não estavam ali e sim na festa. A moça deu uma leve batida a porta e ouviu a voz do homem dizendo para entrar. Ao contrário da moça, fria e robótica, ele estava totalmente tomado pela ansiedade, suando abundantemente, sentindo-se como um adolescente apaixonado e que, depois de uma longa espera, receberia o que deseja do objeto de sua afeição. Havia tirado o paletó e a gravata, que estavam sobre o assento da poltrona. O coldre e o revólver estavam ao seu lado, na mesa.

Lígia entrou. Com uma expressão de falsa felicidade, agradeceu tudo o que Evaldo fizera por ela até então e que como não tinha meios de retribuir-lhe, faria isso oferecendo-lhe seu próprio corpo. Lentamente despiu-se do longo vestido escarlate, das peças íntimas e descalçou os sapatos, olhando-o fixamente. Extasiado, Evaldo sentia a plena realização dos seus desejos próximo de si, arrancou com brutalidade a própria camisa e baixou as calças revelando seu membro inchado e descomunal. Vagarosa, a moça caminhou até o homem, suavemente deixando sua mão correr pela mesa. Quando chegou diante do seu torturador, passou-lhe os dedos entre os pelos do peito e, ele, irrefletidamente, puxou-a com tudo para si. O movimento de Evaldo fez com que os sentimentos de fúria e rancor brotassem com violência no coração da jovem e acelerassem aqueles momentos que até então transcorriam lentos, acelerando-os. Com a mão sobre a mesa, Lígia puxou rapidamente o revólver e desajeitada apertou o gatinho em direção ao tórax de Evaldo.

- Sua cadela! Gritou o homem, atordoado, tentando segurá-la com uma das mãos e com a outra, tentando estancar o ferimento, porém, era tarde demais, outro disparo o atingiu, desta vez no peito, paralisando-o.

A força com que segurara o punho de Lígia cedeu e ela conseguiu se desvencilhar. O sangue respingara em seu corpo e um tremor violento começou a apossar-se dela. Rapidamente, vestiu apenas a calcinha e o vestido; abriu a mochila, tirando uma jaqueta jeans e jogando o revólver em seu interior; tateou sobre a mesa e achou a chave de um dos carros, saindo em disparada. Na porta, relanceou um último olhar diante do sujeito que lhe arruinara toda a existência e a das pessoas que amava, sentindo um misto de alívio pela vingança e o medo do que viria após tudo aquilo. Por fim, correu. Correu como nunca havia corrido antes em toda a sua vida. Atravessou os corredores com a fraca iluminação, chegou à saída de incêndio, olhando de um lado para o outro tentando avistar o carro de Evaldo a que pertencia aquela chave, encontrou o Escort vermelho estacionado mais adiante e entrou o mais rápido que pode, ligando a chave e acionando o motor.

Ninguém ouviu o tiro nem o grito de Evaldo, a música alta da festa abafara todos os ruídos. Os convidados estavam bêbados demais ou drogados demais ou ocupados demais apalpando as dançarinas para prestar atenção em qualquer outra coisa. Na estrada de terra que ia da propriedade à rodovia, um ou outro casal apalpava-se dentro dos carros ou juntos às árvores, mas nenhum deles parou para olhar o carro que se afastava com velocidade.

A madrugada findava-se e, lentamente, os tons de rosa do aurorescer estampavam-se no céu. Lígia sabia que não sairia impune do que fizera, sabia que mais cedo ou mais tarde dariam falta do anfitrião e lhe encontrariam o corpo esvaído pelos dois tiros, sabia que encontrariam seus sapatos e sutiã deixados no recinto e que ligariam uma coisa à outra, sabia que logo a polícia estaria em seu encalço ao darem por falta também do carro. O tremor continuava vibrando por seu corpo, fazendo-lhe suar e ter calafrios ao mesmo tempo. Sensação de paz e medo do desconhecido, um rodamoinho de confusão.

No entanto, iria dirigir até consumir a última gota de gasolina do carro, iria dirigir até onde fosse possível, mesmo que a estrada terminasse em um abismo rochoso ou em um penhasco próximo ao mar, mesmo que um caminhão viesse de encontro e lhe transformasse em destroços de massa humana e lataria, mesmo que a polícia tentasse pará-la à bala; absolutamente sem destino. A liberdade de fazer o que quisesse com sua vida estava pela primeira vez a sua disposição e dali por diante nada mais a deteria nem sequer a morte. Com os dedos sujos e trementes, apertou o play do toca-fitas, que reverberou um som metálico pelas caixas de som, pisou fundo o acelerador com o pé descalço e, lentamente, guiada apenas pelo embalo da canção, foi se tranquilizando. Havia alcançado seu objetivo, nada mais importava.

Ana Claudia Brida.
13/08/2018












segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Sobre a legalização do porte de armas

Um tempinho da sua atenção é possível? Você mesmo que defende a legalização do porte de armas! Não sei se você vai tirar algum proveito do que pretendo dizer, porém eu não poderia deixar de expressar minha opinião sobre esse fato, que vem me perturbando já há algum tempo e compreenda, ao menos, essa necessidade de desabafar.

Sinceramente, não me entra pela cabeça como as pessoas podem querer legalizar o porte de armas diante da sociedade corrupta, trapaceira, hipócrita, preconceituosa e violenta que é a sociedade brasileira. As justificativas que tenho visto é para se utilizar na proteção contra bandidos, assaltos, invasão de domicílio, sequestros e alguns, mais enfurecidos, em caso de vingança se um ente querido tenha sofrido algum ataque. A exigência é para que o porte seja concedido aos “cidadãos de bem”. Mas o que é um cidadão de bem? Alguém que nunca tenha tido passagem pela polícia? Pessoas com certo grau de instrução, poder aquisitivo ou cargos elevados? Devotos religiosos? Isso é garantia para que alguém seja classificado como cidadão de bem? Infelizmente, conheço pessoas que pertencem a essas categorias e que não praticam o “bem”; pelo contrário, pelas costas prejudicam, falam mal, fazem de tudo para interferir e se aproveitar dos outros. Por uma questão ética nem vou citar os exemplos específicos que conheço. Conheço também pessoas que não se encaixam nessas categorias, mas que tentam redimir seus erros e são profundamente humanas, no entanto, sem requisitos para a classificação de cidadão de bem.

Direto acompanho notícias de pais que possuem armas em casa, escondidas, que, no entanto, filhos pequenos encontram e acontecem tragédias; vizinhos que atiram uns nos outros por motivos banais; alunos que já entraram armados em escolas provocando chacinas; inúmeras pessoas “de bem” ou até mesmo criminosos, mortos, por que alguém possuía uma arma e num momento de pânico, violência, terror, privação dos sentidos foi lá e descarregou a sua fúria nos outros.

Se, nesse momento, em que o armamento é restrito e já acontecem todos esses crimes, como será com a liberação? Todo mundo possuir uma arma em casa e, quando se achar no direito de usar, vai usar, não importa contra quem. Uma discussão qualquer em que os ânimos se elevem, um há de ameaçar o outro.

É um absurdo que com tanta violência no país, os massacres causados pelas guerras no mundo inteiro, que geralmente começam porque um usa o seu poder bélico contra o outro, ainda existir quem queira se armar. Alguém pode me dizer que os “cidadãos de bem” passarão por testes psicológicos e eu pergunto de volta, quantos psicopatas conseguiram burlar o sistema? Quantos casos passam por baixo dos panos porque é alguém importante ou com dinheiro para comprar até a integridade dos demais?

As pessoas se odeiam porque uma não aceita a ideologia da outra, a filosofia da outra, as opiniões políticas, a religião, a sexualidade, a cor da outra; o que dirá dessas mesmas pessoas de posse de uma arma?

Tenho medo de esse dia chegar e sair para trabalhar, deixar minha família em casa e tomar um tiro de um aluno que não aceite ser repreendido por algo inapropriado ou até mesmo um pai mais exaltado, uma discussão no trânsito.  Esse já é um medo existente, mas imagina com todos tendo acesso tão fácil a uma arma?

Eu não quero ter uma arma em casa, quero ter minha consciência limpa que nunca precisei agredir, ferir ou matar alguém. Houve quem já tentou me prejudicar na vida, mas nem por isso eu me “vinguei”. O que ganharia com isso? Se existe uma justiça, uma constituição, minha maior vontade é que ela seja respeitada e aqueles que não respeitam que sejam punidos por uma força específica constituída para tal.

Não quero uma arma em casa, com o risco da minha família se ferir, um louco invadir minha casa e encontrá-la. Quero que meu lar seja um lugar de paz, de respeito. Se, infelizmente, existem bandidos, que não respeitam isso, eles devem sofrer as punições previstas pela Lei. Não serei eu que bancarei um super-herói para salvar a sociedade, ou melhor, um justiceiro, pois até mesmo os heróis, na maioria das vezes, capturam os criminosos e os entregam às autoridades, sem precisar atirar ou matar.
Não me considero uma cidadã de bem, mas sim tento ser um bom ser humano, não prejudicar ninguém, não me intrometer na vida dos outros e quem que me trata com antipatia e preconceito, apenas me afasto e ignoro. Acredito que, se a maioria das pessoas cuidasse da própria vida, muita coisa boa começaria a acontecer, as mudanças necessárias para se construir uma convivência melhor e pacífica, por meio do respeito e não pelo medo de tomar um tiro ou porque uma é superior a outra por ter um revólver.

Por que, ao invés de lutar por armamento, não lutar por uma educação melhor (comprovadamente, os países que mais investem em educação têm taxas mínimas de criminalidade); um sistema único de saúde que seja digno para todos; um regime penitenciário que incentive o preso a mudar de vida ou os casos mais hediondos que se estudem métodos de tratamento, de intervenção que sirva de exemplo para que não se pratiquem crimes; justiça social; uma distribuição mais igualitária dos bens sociais; uma reforma política que elimine essa bancada corrupta que só vota projetos relativos aos interesses pessoais e não ao coletivo? Não vejo isso como utopia, mas sim, como algo possível, se houver persistência.

Mas, se você que ainda permanece a favor do armamento, apesar de todas as desgraças que nos rodeiam por conta disso, não concordar comigo, o que eu posso fazer?  Apenas posso torcer para que um dia você veja que violência só gera mais violência. E se me permite uma última colocação: em vez de armar, por que não amar?

Ana Claudia Brida

27/10/2015, 00h e 49min.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Crônica: Amar está fora de moda?


Queria saber em qual momento, de tanta evolução e modernidade, os sentimentos se perderam? Amar alguém, atualmente, parece se resumir em postagens de redes sociais (pois não se mantém mais relacionamentos íntimos, mas sim públicos); “eu te amo” repetido a exaustão para qualquer pessoa, contudo, são apenas palavras vazias de significado e que não se demonstram por atitudes; envio de fotos de cunho sexual como prova de interesse, como se as pessoas fossem meros frutos a venda em um supermercado, vistos e sendo apalpados antes de se decidir a levar para casa; hoje, diante de um poema sobre o amor ou uma letra de música que necessite de interpretação mais profunda, os jovens riem, consideram ultrapassados, melosos, alheios à realidade. Meninas preferem ser denominadas por termos de baixo calão como nas músicas de funk ou, como nas letras do sertanejo, dito “universitário”, que expressam a vontade de um sujeito em “pegá-las” e fazer coisas designadas por onomatopéias ou palavras sem sentido algum, porém que expressam apenas a intenção sexual.

Se essa é a forma de amar dessa época, confesso que estou fora de moda e prefiro continuar assim. Ainda me emociono ao ler um poema, pois sei que para expressá-lo o poeta arranca de si o que sente e transborda suas emoções sobre o papel; ainda lágrimas escorrem por minha face diante de uma música bem executada, de sua melodia e letra, que trazem lembranças ou fazem sonhar; ainda acredito que cartas de amor escritas de próprio punho, mesmo que com alguns errinhos ortográficos tenham mais valor que textos de Internet que podem ser facilmente apagados; ainda acho bonito passeios de mãos dadas, uma flor roubada, um chocolate surpresa, um filme debaixo das cobertas e tantas outras ações que denotem companheirismo; gestos de ternura que valem mais que todos os verbetes de um dicionário.

Também acredito que respeito é a base de tudo e que fidelidade é algo muito importante sim! Relações abertas, flertes por aplicativos de celulares, ménage a trois... Lamento, mas isso não é para mim. Prefiro ser de uma pessoa apenas e dedicar meu afeto a um único alguém, pois, parafraseando Charles Chaplin, meu coração não é estrada para muitos transitarem, mas sim um lugar onde só fica quem realmente faça por merecer e não há necessidade de se explicar o que isso quer dizer, pois o entendimento é claro.

É possível que, como amante da Literatura e das Artes, eu tenha lido demais ou visto muitos filmes que ajudaram a moldar minha personalidade; que tenha valores que ninguém mais dê créditos, no entanto, continuarei assim, a acreditar que existam pessoas verdadeiras e sentimentos verdadeiros e, se isso for ilusão, ainda é melhor que aceitar essa realidade degradante.

Amar por inteiro, com intensidade, com sinceridade, com entrega e troca pode não ser valorizado por essa geração que se transforma em máquinas de banalidades, como mais uma vez Chaplin previu em um dos seus textos. Mas, fico feliz em ser “quadrada”, “retrógrada”, pois mesmo na contramão desses avanços (se deixar de amar de fato e se importar com o outro seja um avanço...), eu permanecerei com a minha ideologia e meus princípios arcaicos. Antes a beleza de um sentimento que o vazio existencial, antes amar demais que não amar...

Ana Claudia Brida, 04/08/2015.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Crônica: Amar não é uma escolha


Amar alguém não é uma escolha, porque se fosse, seria muito fácil. Amar simplesmente acontece, por mais que se tente sufocar isso. Ou você acredita que alguém simplesmente escolheria amar outra pessoa do mesmo sexo sabendo que seria vítima de preconceitos na sociedade? Alguém escolheria amar uma pessoa de etnia diferente da sua ou idade superior ou inferior para se tornar motivo de chacota, de piadinhas depreciativas, de mau-gosto? Quem escolheria amar alguém de uma crença diferente para enfrentar gratuitamente críticas imensas?

Não é uma questão de escolha, porque o amor não é fácil. Implica em decisões que mudarão sua vida para sempre, implica renúncias, implica aceitação de si mesmo e de suas fraquezas, além de aceitar o outro tal como é, para juntos tentar trilhar um caminho de incertezas, mas que é gratificante para quem o percorre.

Todo esse questionamento vem, a priori, por conta de uma importante marca, que em campanha publicitária para o Dia dos Namorados, resolveu mostrar as diferentes formas de amar, causando verdadeiro furor e demonstrações de ódio das pessoas ditas “normais”, “tradicionais”. E, por que, as pessoas tanto se incomodam, criticam e julgam quem ama o diferente? Não seria o mundo um local de paz se, ao invés de condenarmos uns aos outros, nos amássemos e aceitássemos na nossa multiplicidade cultural?

Será que temos de fingir ser o que não somos para fazer parte de uma sociedade “certinha”, que define nossas crenças, qual etnia é superior a outra, qual o limite de idade para amar e com quem nos deitamos?  Precisamos mentir para nós mesmos, ignorar o que somos para não sermos vítimas de preconceitos, julgamentos, por uma grande parcela da população que diz seguir a filosofia do “amor ao próximo”?

Amor ao próximo, numa sociedade que define padrões, seria o amor apenas entre homem e mulher, de idades semelhantes, etnias e crenças semelhantes? Se sou um homem, mas amo outro homem devo ser estigmatizado por isso; se sou uma mulher e amo outra mulher devo ser condenada e depreciada; se sou branco não posso amar um negro, um índio, um asiático (numa sociedade miscigenada como a brasileira, ainda há quem pense assim); se sou mais velho e amo alguém mais novo sou desmoralizado, com brincadeiras que vão desde a acusação de pedofilia a que não tenho mais idade para amar; se sou mais novo não posso amar alguém mais velho, porque existe limite e isso é considerado loucura, ilusão ou a relação é por interesse financeiro; se possuo uma crença diferente da pessoa que amo, um dos dois será forçado a ceder, para o bem comum e felicidade geral da nação.

Nessa sociedade de aparências é preciso fingir o tempo todo que somos felizes, bem resolvidos, sem dúvidas algumas. Perdemos quem amamos, mas não podemos mostrar o que sentimos, sob a acusação de sermos fracos, que você é obrigado a esquecer a todo custo. Se já tivemos relacionamentos anteriores e carregamos marcas disso também somos chamados de promíscuos, acusados de não conseguir nos manter ao lado de ninguém porque o defeito é provavelmente nosso, sendo criticados por tentar reconstruir nossas vidas.

Toda forma de amor, que não seja a tradicional, é criticada. Mas por que nos preocupamos tanto com quem o outro ama? Para disfarçar o vazio que sentimos, talvez, ou ainda acusar o outro daquilo que tememos em nós mesmos; no íntimo, muitos não se aceitam e o meio de escape encontrado é o vilipêndio, é a desmoralização do outro, é criticar no outro aquilo que está represado em nós. Há tanto desespero em querer parecer normal nessa sociedade moralizante, que a maioria das pessoas se reprime, sofrem em silêncio, porque não assumem as diversas formas de amor que existem. Preferem se calar para ser aceitas ou ofender o outro para se sentir superior e, quanto mais fazem isso, mais se mostram vazias.

De fato, amar o diferente não é escolha, porque muito mais fácil seria fazer parte dessa sociedade e fingir que está tudo bem. Dar a cara a tapa não é para qualquer um, servir de estigma, de deboche, ter de lutar para se fazer ouvir, enfrentar a multidão pelo o que se acredita não é fácil, todavia, é o mais sincero.

Se amar ao próximo é a meta, isso significa amar e aceitar o outro, significa amar o diferente, ainda bem que existem pessoas que fecham os olhos e cobrem os ouvidos para essas classificações de normalidade e tentam viver suas vidas da maneira como acreditam. Ainda bem que existem pessoas que ousam amar o que não é aceito, que ousam dizer e expressar o que sentem, porque se for para amar o próximo, pois que todos sejam amados, independente de orientação sexual, credo, etnia, idade e o que mais for. Amor é para todos, não privilégio de alguns.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Solidariedade


Uma pessoa caiu no chão
Na lama ensanguentada
Estendida ali em vão
Toda penalizada

Recusaram-lhe dar a mão
E com dor ela gemeu
Lambeu-lhe um cão
Solidariedade de ateu

Alguém jogou um pão
Não era fome que sentia
Era a falta do irmão
Aquele um que valia

Por isso virou ladrão
E da polícia correndo
Feriu-se na grade do portão
Que pulou gemendo

E caiu na rua pelo chão
Da miséria sentindo a dor
Como amigo só o cão
Solidário em amor

terça-feira, 9 de julho de 2013

Saudade e Nostalgia

A saudade estava procurando
Alguém em quem confiar,
No espelho sujo encarando
A alma gêmea encontrar...

E foi o que aconteceu,
Com susto olhou a nostalgia
E foi aí que compreendeu:
Era a irmã da vida vazia.

domingo, 7 de julho de 2013

Não-Eu

Quem vive esta vida não sou eu
Esse caminhar itinerante
Os sonhos áureos não são meus
Pois tudo é sufocante

O sorriso e a lágrima rareando
Completo estado de inanição
É o que é meu murchando
Apodrecendo pelo chão

Os espinhos e perfumes são meus
O cheiro é infectante
Quem escreve pode não ser eu
Existe um alguém adiante.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Crônica: Aos animais que passaram pelas nossas vidas...


Certo dia, encontrei os restos fúnebres de um gatinho enterrado em meu quintal. Fiquei um bom tempo a contemplar aqueles ossos tão frágeis e já tão deteriorados pela ação do tempo. Desde então, o pequeno animal não saiu mais dos meus pensamentos. Fiquei a imaginar que eu nunca poderei saber como era aquele ser pequenino, frágil e indefeso que ali jazia. Não era possível saber como era a sua pelagem, se era um pelo curto e macio ou longo e sedoso, ou ainda as cores que o compunham e ainda mais a cor dos seus olhos, que nos felinos, são tão lindos e marcantes. Não era possível saber quantos anos de vida ele pôde desfrutar, quanto tempo gastou em brincadeiras, caçadas e namoros no telhado. Nem a causa da morte eu poderia determinar, se ele chegou a sofrer ou não, se foi vítima de algum ato de crueldade humana.

Um corpo que estava ali, tão perto de mim, habitando o mesmo espaço físico, e do qual eu nunca poderei saber absolutamente nada. Histórias que eu nunca farei ideia que aquela criaturinha possa ter participado.

Alguém poderia me dizer que gatos existem em quantidade imensa, não discordo, mas aquele gato eu não conheci e todas as suas aventuras me são ignoradas. Algo insignificante encontrar uma carcaça no quintal, mas que me fez refletir sobre a vida. Bem assim é a vida, repleta de surpresas e fatos do cotidiano que parecem tão banais, mas que num futuro podem se tornar representativos de um momento único e nos transmitir ensinamentos dos mais significativos.

Quantos pequenos animais passaram pela nossa vida, alguns nos pertenceram como animais domésticos, companheiros de boa parte da vida e outros apenas observamos, e encontramos no dia-a-dia, em qualquer lugar, a qualquer hora?

Existe um texto muito bonito, de autoria da excelente Cecília Meireles, que se chama “Um cão, apenas”, em que a escritora nos conta a experiência de uma moça diante de um cão doente que aparece em sua frente, ela nada faz apenas contemplar aquela criatura indefesa e é na contemplação que ela filosofa a respeito de quantos seres passaram pela nossa vida e nada fizemos. Esse texto, eu o tenho num livro de 7ª série e desde que o li nunca o esqueci.

Sempre acreditei que os animais são como uma extensão de nós próprios, seres humanos. Tanto que, quando alguém me diz que um animalzinho não sente nada, me deixa entristecida, por que o que dizer daquela alegria contagiante que um cachorro possui ao ver o seu dono, representada pelo abanar da cauda, ou o gato carinhoso, que se enrosca nas pernas do seu dono, ou ainda o lindo trinado de um pássaro e a conversa de um papagaio para nos encantar? Mesmo a mansuetude de um jabuti e o silêncio de um peixinho podem nos ensinar lições para uma vida.

Fico profundamente tocada ao ver pessoas se empenhando por essas criaturas tão frágeis e por muitos consideradas como “inferiores”, como no trabalho voluntário realizado por um grupo de visionários em prol de resgatar animais, protegê-los e ampará-los dos maus tratos, ou o simples ato de encontrar uma criatura abandonada e lhe dar uma oportunidade para que possa existir com dignidade.

Falamos tanto de valores e direitos humanos, mas e os direitos dos animais? Por que julgá-los como inferiores? Apenas porque nos julgamos como racionais e dominamos tudo o que nos cerca? Então se temos tamanho poder, enquanto criaturas “superiores”, é nosso dever proteger aos mais fracos, e que nos dão tanto.

Quantas vezes em momentos de tristeza, um animalzinho não voltou os olhos carinhosos para o dono, como que para dizer em silêncio: “Eu estou aqui, você não está sozinho!”? Quantas vezes em momentos de alegria nos entregamos às brincadeiras com os nossos animais, em quantos momentos eles nos alegraram com suas atitudes simples e amistosas? Várias e sempre estarão aí para isso, para nos transmitir vida.

Tantos animais passaram pelas nossas vidas, eu mesma tive vários e me lembro carinhosamente deles, cada um deixou uma marca dentro da minha alma, e muitos outros passarão, cabe apenas a nós mesmos aprender essa lição de amor e companheirismo que eles nos dão.

Fiquei triste pelo gatinho, porque eu nunca saberei como foi desfrutar da sua companhia e sinto saudades de todos aqueles seres que passaram pela minha vida, e espero que assim como eu aprendi a ter essa consciência do valor desses animais, outras pessoas também percebam o mesmo e que quando virem um animalzinho olhando para si, com carinho, que possam retribuir, seja num afago, seja num alimento, num pequeno ato de atenção, porque ternura gera ternura, e isso é o que precisamos aprender com os seres chamados de “inferiores”.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Crônica: Amigos que passam e que ficam

Domingo é um dia que sempre me deixa nostálgica, para bem ou para mal, ou ainda, para as duas coisas. Neste domingo específico, meus pensamentos se voltaram para as amizades que ficam pelo caminho.

Penso nos coleguinhas do tempo de escola, dos sonhos, das brincadeiras, de uma infância e adolescência pacíficas, como deveriam ser essas duas fases para todos. Lembro das brincadeiras ao fim da tarde, das andanças de bicicleta pelo bairro, dos jogos infantis, das histórias malucas e encantadas que viviam as bonecas, das competições e torneios em que não havia a ânsia por ser o ganhador ou o melhor, mas sim a alegria de participar. Recordo-me dos livros que eu lia entre amigas com avidez, fascinada e encantada com o descobrimento de novos mundos, novas realidades. Lembro-me  das primeiras festas, das confissões trocadas entre as amigas, filmes, músicas,  paixonites, das fotos de artistas e papéis de carta que se colecionavam, dos diários e das agendas em que cada amiga deixava um versinho simples, colorido, às vezes com erros de ortografia, mas que representavam o carinho, a afeição, a troca. As amizades da época da infância são repletas de pureza, de pequenos sonhos, de brigas num dia e amores no outro. Já as amizades da adolescência são intensas, baseadas na troca, nos planos, na loucura que consiste em ser um adolescente. Muitos, praticamente todos, desses amigos da minha infância e adolescência se perderam ao longo da minha vida, apenas um ou outro ainda ouço falar, existe também a distância que afasta ainda mais e também as próprias mudanças na personalidade de cada um.

Penso nas amizades da época da faculdade, intensas na mesma proporção, idealizadoras, com seus planos e metas. Pessoas que na busca pela profissão, pela carreira a ser seguida encontram-se e juntas tentam conciliar ideais e sonhos. Tive realmente grandes amigos nesse período da minha vida, grandes descobertas, grandes frustrações também, porque também as decepções fazem parte da vida e colaboram para o crescimento. Muitos desses amigos continuam na minha vida, seja no trabalho, seja no cotidiano, seja distante mas presente nas lembranças; outros se foram, mudaram de estado, país, trocaram de carreira, casaram, separaram, tiveram filhos e até um deles já deixou esta vida, mas os bons momentos não podem ser esquecidos.

Também penso nas amizades na fase dita como adulta, amigos remanescentes da faculdade, amigos que de colegas de trabalho se transformaram em algo mais, amigos que conheci por meio de outros amigos, amigos que apenas de olhar um no olho do outro se sabe que pode confiar. Também esses com o tempo foram e estão sendo levados e eu sei que novos virão, mas sei principalmente que cada um tem seu lugar, tem seu espaço no mais íntimo do ser.

Penso ainda nos amigos que o tempo transformou em inimigos, embora eu não goste dessa palavra e muitas vezes prefiro dizer que se distanciaram. Por que isso chega a acontecer? Talvez por falha do amigo, talvez por falha própria, dos dois ou de ninguém, ou porque talvez a vida realmente apronta dessas com todos. Mesmo com esses nem tudo foi em vão, bons momentos ficaram e acredito que, por mais que uma retomada no relacionamento seja inviável, não há que se odiar, não vale a pena.  Melhor que cada um siga sua vida, encontre suas forças e novas amizades, novas felicidades.

E penso, por fim, em quem serão os próximos amigos que conhecerei e que também um dia ficarão pelo caminho, porque assim é a vida. De onde eles virão? Como eles serão? Quem sabe cada pessoa que surge na vida não seja justamente pra deixar uma marca, uma lição, um aprendizado, umas vezes boas coisas, noutras não tão boas, mas que, no fundo, colaboram para se conhecer ainda mais sobre si mesmo e sobre o mundo?

O importante é que, independente do dia da semana em que se está ou da fase da vida em que se encontra,  é muito bom ter amigos.

terça-feira, 25 de junho de 2013

A primeira crônica


        Toda pessoa que escreve, por mais que fique um bom tempo longe da sua arte, sabe que, invariavelmente há de retornar para a magia provocada pela palavra escrita. É exatamente isso que ocorre comigo, numa madrugada insone de quarta-feira. Sinto-me até culpada por relegar, por procrastinar esse ato que, no fundo, é muito significativo na minha vida.

É significativo para mim, pois, desde que me entendo como uma pessoa, eu sonhava em ser escritora. Diversas brincadeiras na infância sempre me direcionavam para o ato da escrita e da leitura. Montava em vários caderninhos longas e ilustradas histórias que acabaram por se perder com o tempo. Na adolescência redigi meu primeiro romance, algo quase épico, mas que para mim era um grande feito; bem como uma série de poesias e pensamentos típicos dessa faixa etária.

No momento da escolha profissional não tive dúvidas ao optar por uma graduação em Letras e continuei a seguir nesse rumo, sempre me aperfeiçoando. Acreditava que fazendo uma faculdade de Letras eu conseguiria escrever ainda melhor. De certa forma, é real, mas ao mesmo tempo, você se transforma no maior crítico de seus escritos. O que você ganha em conhecimento acaba por perder em espontaneidade.

O que quero dizer é que durante mais um tanto de tempo acabei por me dedicar mais a produção de textos acadêmicos, cientificistas e acabei por deixar de lado a produção da minha literatura: coloquei meus poemas, narrativas e reflexões no fundo de uma caixinha e tranquei com cadeado, guardando num cantinho escuro da minha vida.

Hoje, com a ajuda da insônia, resolvi mexer nessa caixinha. Claro que isso é uma metáfora. Metáfora dos sonhos, dos escritos que ficaram guardados enquanto eu seguia com outros planos pela vida afora. Portanto, hoje me permiti abrir a caixinha e produzir esta crônica.

Prometo a mim mesma que escreverei religiosamente a cada quinze dias e sempre que estiver inspirada, mas será que cumprirei essa promessa? Enquanto desfruto das merecidas férias, talvez até consiga cumprir esse trato comigo mesma, mas e quando as atribuições do cotidiano, a correria do trabalho e todos os outros segmentos da minha vida gritarem pedindo atenção, será que vou conseguir? Bom, pelo menos, já estou tentando com essa primeira crônica, profundamente metalinguística.

Já que se trata claramente de um texto metalinguístico, cá estou a pensar nos meios que eu usava para escrever essa minha literatura: caderninhos, pacientemente organizados com uma letra bonita, belas imagens e todos com títulos sugestivos e vistosos. Na adolescência, eis que me debruço sobre a máquina de escrever, e tudo o que estava em cursiva me delicio em transpor para esse novo meio. Até fiz o curso de datilografia! Como eu me sentia uma grande escritora ao som do tec-tec da maquininha! Já adulta sou apresentada ao computador, que meio realmente prático para um escritor: permitindo escrever numa velocidade ainda mais rápida, errar sem problemas e sem culpas e ter tudo armazenado numa memória de tamanho mínimo.

O que dizer então da Internet? Antes, uma boa parcela de escritores vivia num completo anonimato, quase que ostracismo. Se estudarmos a história da literatura brasileira veremos que foi um processo lento, do surgimento do primeiro escritor brasileiro até os mais diversos autores que habitam o mundo virtual. Os escritores contavam com pequenas publicações, os folhetins, colunas em jornal, gradualmente chegando ao livro impresso.

Infelizmente ainda hoje vivemos num mundo que viver de literatura é quase um devaneio. Livros são caros e muitas das vezes, quando um escritor precisa do apoio de alguém, geralmente não há com quem contar. Pelo menos nisso a Internet facilita a vida dos escritores, você publica seu trabalho ali, e, dependendo da qualidade ou da falta dela, você colhe seus frutos.

Fico feliz que, de certa forma, tenho colhido bons frutos, alguns até me surpreendem! Para cada escritor, um texto seu é como um filho, que um dia cresce e vai viver a sua vida, mas do qual você sempre espera ouvir algo com que possa se orgulhar. De fato, me orgulho desses meus filhos. Nem todos são bons, alguns são tão imaturos, inexperientes; outros são tão críticos, cruéis mas, saíram de mim, são parte de mim e não posso negar, assim como essa crônica que ao falar do ato da escrita que me resgata infindáveis lembranças literárias e que sei que depois de pronta terá vida própria. Bom, que ela então ganhe asas e que eu consiga cumprir a minha promessa, quem sabe resolução de ano novo, e que ela seja a primeira de muitas outras, deixando assim minha caixinha permanentemente destrancada.

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Quadra



Através da fúria do licor venal,
A chaga purulando no peito,
Abandono estraçalhado no leito
O corpo fervente do gozo letal.

Ser Humano














A barata não é mais nojenta que eu
O verme não é mais podre que eu
A lesma não é mais estúpida que eu
A formiga não é mais insignificante que eu

Eu sou ser humano,
Eu roubo, eu mato, eu piso,
Eu machuco, eu humilho, eu sujo.
Faço isso porque sou racional.

sábado, 15 de junho de 2013

Sinto um prazer

















Sinto um prazer
Percorrer-me o corpo todo
Sinto um prazer
E estremecendo morro

Sinto um prazer
Lentamente subindo a espinha
Sinto um prazer
Que é uma coisa só minha

Sinto um prazer
Que não sei como chegou
Sinto um prazer
Que tudo o mais levou

Escrever...

Escrever,
Escrever por precisar
Escrever para gritar ao mundo o que me consome
Escrever para transmitir minha angústia às multidões
Escrever para expressar minha dor e aliviá-la
Escrever, na tentativa de fazer secar o pranto
Escrever, escrever, escrever...
Para não cobrir com as mãos minhas faces rubras
Para tentar encontrar um motivo de vida
Para fugir da torturante solidão que me envolve
E para escapar à morte
Por isso, eu preciso escrever...

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Conto: Instintos noturnos

Nunca me esquecerei quando minha amiga Ângela chegou à pequena cidade universitária onde sempre vivi, para cursar Sociologia. Conhecemo-nos no momento da matrícula, quando ela me solicitou informações sobre documentos e localização dos pavilhões do edifício, que era o maior do local. Eu já havia cursado dois anos de Direito e esperava contentar minha família, todos de origem judaica. Nada mais óbvio que um judeu quieto e uma novata tímida para se tornar grandes amigos; para completar um trio, só mesmo com o Andrew, colega de curso, vindo da Alemanha, que falava nosso idioma com muito sotaque e de forma sofrível, mas que era um grande coração.
As moças da faculdade tinham certo ciúme de Ângela, pois de fato, ela era muito bonita: branca, cabelos de um loiro acinzentado e olhos amendoados, porte atlético. Mas não me convém ficar falando sobre seus atributos físicos, já que grandes amigos nós somos.
No entanto, toda essa aura de felicidade e companheirismo que nos unia, um dia seria destruída por conta de acontecimentos trágicos e impressionantes; e com base no relato de minha amiga e das circunstâncias que eu mesmo presenciei, é que principio a contar o que segue...
Na faculdade, havia um rapaz chamado Lúcio, que também fazia o estilo mais recatado, soturno mesmo. Um sujeito alto, moreno, cabelos bem lisos penteados num corte moderno, olhos castanhos daqueles que intimidam. As mulheres o achavam irresistível, mas nunca era visto com qualquer uma delas.
Durante algum tempo, Ângela levou sua vida sem sequer reparar a presença de Lúcio, ainda mais que estudavam em turnos diferentes. Mas, talvez por uma fatalidade, ou talvez porque realmente as coisas devam acontecer por uma força maior que nosso mero entendimento, eles se encontraram na biblioteca da faculdade.
Existiam ali vários corredores repletos de prateleiras de livros, enumerados por ordem dos cursos, alguns novos, outros antigos, empoeirados. As estantes mais escondidas de todas eram as que abrigavam os livros da área de Psicologia, Sociologia e Filosofia. Lúcio era estudante de Filosofia.
Casualmente, os dois seguiam em direções contrárias e distraidamente pegaram uma obra de Feuerbach, ao mesmo tempo. Uma química, um fogo maior, fez com que seus olhos se encontrassem neste instante. Todo o material que carregavam nas mãos foi ao chão e ficaram com os dedos entrelaçados segurando o livro. Enrubescida, Ângela recolheu sua mão e fitou o desconhecido a sua frente. No princípio, ele pareceu lívido, mas agora lhe sorria. Lúcio retirou os óculos que usava apenas para ler e, encantado com a beleza da moça, teceu comentários sobre um trabalho que necessitava fazer utilizando aquele livro, “A Essência do Cristianismo”. Ela também necessitava do mesmo exemplar para outro trabalho. Gentilmente, Lúcio propôs que dividissem a obra, estudando juntos todas as tardes ali na biblioteca, assim poderiam debater sua temática e seria mais enriquecedor para os dois.
Ângela ficou fascinada e aceitou o convite. Tão logo se encontrou com Andrew e comigo, contou-nos sobre Lúcio. Eu tinha realmente uma sensação de mal-estar com relação à presença dele, mas nada que se comparasse com a repulsa que Andrew sentia. Para ele, Lúcio era um sujeito estranho, com ar egocêntrico e várias outras denominações pejorativas. Não me era estranho o fato de saber que Andrew se afeiçoara a ela de forma bem mais profunda que uma amizade, e também que não era correspondido; pois nossa amiga era sincera. Ficou um pouco chateada com as demonstrações de ira de nosso amigo, mas guardou para si o que realmente estava pensando.
Em casa, Ângela refletiu várias vezes sobre o encontro na biblioteca. Por mais que criasse expectativas, sabia que o convite poderia ser mera formalidade de um rapaz estudioso; era possível ele estar mais concentrado nos estudos do que numa jovem como ela e que realmente estivesse precisando muito do livro, mesmo tendo sido educado e deixado o exemplar com ela.
No entanto, os olhos de Lúcio não saíam de sua mente. Era um olhar arrebatador, que a fez estremecer por inteiro. Lembro de Ângela me contando esses fatos ao telefone com certa ingenuidade e malícia, e lembro principalmente de uma impressão que me relatou.
Ao sair da biblioteca, Ângela percebeu que Lúcio continuou por lá e por um rápido lance de olhos, imaginou que ele cheirava a própria mão como se sorvesse o melhor dos perfumes. Seria seu cheiro que teria ficado nas mãos dele? Ela não saberia dizer. No momento que ela me contou isso, dei risada, brinquei, alertei para não se iludir, mas nem sequer sonhava o que significava aquele gesto.
Várias vezes, Lúcio e Ângela se encontraram na biblioteca para estudar e para o desespero e ciúmes de Andrew, que muitas vezes se acercava do casal e jurava que o outro olhava de forma inapropriada para nossa amiga. Isso o deixava num ciúme que beirava a completa insensatez, muitas vezes ele alegava que Lúcio poderia ter a ver com crimes financeiros e mortes estranhas que aconteciam em nossa pequena cidade.
De fato, era uma época conturbada. Algumas pessoas estavam perdendo suas propriedades enganadas por golpes que nem elas mesmas sabiam dizer como haviam acontecido; geralmente se endividavam profundamente e sem razão, e quando menos se esperava passavam tudo às mãos dos corretores de imóveis da região. Um desses corretores era o pai de Lúcio, por sinal; mas nunca tínhamos escutado qualquer queixa contra sua família. Mas, o que estava chocando realmente a população eram notícias de mortes horrendas envolvendo fazendas inteiras de gado, animais de grande porte e pessoas, em noites de lua cheia. Os animais eram encontrados completamente destroçados, junto aos matagais extensos e alguns na proximidade da floresta que se estendia por detrás da universidade. As pessoas encontradas mortas no mesmo estado e nos mesmos locais, em sua maioria eram os habitantes de vida noturna da cidade, como mendigos, bêbados, vigias e em sua maioria, prostitutas. De início, imaginou-se que poderia ser algum assassino psicopata, mas evidências de pegadas e pêlos, fez com que a polícia desconfiasse da existência de lobos nas imediações. Um alerta foi emitido para que as pessoas não ficassem andando por tais locais tarde da noite. Buscas foram realizadas na tentativa de localizar os animais, mas nenhum fora encontrado. Os jornais traziam a todo instante notícias e artigos sobre as mortes.
Andrew muitas vezes teve a capacidade de pegar esses jornais, mostrá-los à Ângela e dizer que Lúcio poderia estar envolvido em algo. Ela ria, pois em seu coração, sabia o que ele sentia e o respeitava, mas sempre refutava estas observações.
Não havia como negar que Lúcio a fascinava. Ela comentava, principalmente comigo, sobre o teor das suas conversas. De fato, ele era inteligente e tinham gostos semelhantes. Numa ocasião, Ângela comentou sobre o convite que ele lhe fizera para saírem certa noite. Eu não apoiava esta relação que ia se estreitando cada vez mais, mas também não condenava; simplesmente respeitava minha amiga; e para complicar, de brincadeira, tentando trazer Andrew para a realidade, contei sobre o futuro encontro noturno do casal.
Como Andrew ficou pasmo! Durante alguns segundos mastigou a informação e depois, preocupado, chamou-me a atenção para os fatos trágicos que vinham ocorrendo. Todos seus argumentos eram coerentes, pois como um rapaz convida uma moça a sair tarde da noite, véspera de lua cheia, com o risco de se deparar com lobos ou ainda bandidos? Comecei a ficar pensativo depois disto e ele me convenceu a seguirmos o casal, para segurança de nossa amiga.
No dia do encontro, seguimos todos os passos de Ângela. Andrew tinha mesmo razão em se preocupar, pois após tomarem um sorvete, Lúcio segurou-lhe a mão e a conduziu até uma praça, mal-localizada e cercada de árvores, aonde inclusive, dois corpos chegaram a ser encontrados. Sei que, possivelmente, os dois se dirigiam ali para ter mais privacidade, mas era algo fora de propósito na atual circunstância. Considerei Lúcio inconseqüente.
Quando eu estava imerso nestes pensamentos, Andrew puxou-me pelo braço, mostrando o casal a se abraçar. Sua atitude foi tão brusca, que ele acabou por escorregar e fazer barulho, revelando nosso esconderijo atrás de uma árvore.
Ângela estava visivelmente contrariada, mas Lúcio parecia ainda mais transtornado. Caminhou em nossa direção, disse impropérios aos quais Andrew rebateu. Chamei-lhe a atenção para sua imprudência em trazer nossa amiga a tal local. Ele escarneceu de nossa preocupação e, com um sorriso estranho nos lábios, disse para que Ângela então nos acompanhasse e que só o procurasse quando não estivéssemos por perto para lhe atrapalhar. Tirou seu casaco de couro, cobriu os braços dela que tremiam de frio, e em nossa frente beijou-lhe arrebatadoramente, dando as costas logo em seguida.
Eu não fiquei muito estarrecido com a cena, meus pensamentos se concentraram no perigo que poderíamos estar correndo parados ali, no escuro e cercado por vegetação fechada. Andrew se pudesse, naquele momento, teria se batido com Lúcio, mas a cena do beijo o deixara petrificado e Ângela, totalmente confusa. Puxei ambos em direção às luzes e à rua para que fossemos embora o mais rápido possível.
Sei que Ângela ficou chateada conosco por a termos seguido, e com razão; porém, do mesmo modo, compreendia nossa preocupação. Ela me confessou que já estava apaixonada por Lúcio, que ele lhe despertava sensações indescritíveis, que a forma como a tocava apertado, deixava-a fascinada. Nunca duvidei dos sentimentos dela para com ele, mas não conseguia sentir mais a mesma segurança com relação a Lúcio. A forma como nos olhara, com ódio imenso, e depois aquele sorriso sarcástico, não saíam da minha mente. Tive medo de estar ficando neurótico como Andrew, pois pensamentos que ele poderia estar querendo se aproveitar dela por ser nova na cidade invadiram meu espírito.
Retomamos nossas atividades como de hábito, depois deste incidente, mas não os vimos mais juntos. Ângela não tocava no nome de Lúcio e permanecia boa parte do tempo conosco, imersa em seus próprios devaneios. Um dia, encontrei-a de cenho franzido, eu estava sozinho e ela aproveitou para me confidenciar que não tinha se afastado totalmente de Lúcio, mas que uma notícia a perturbara. Escutara seus pais reclamando junto com outras pessoas de alguém com o sobrenome Wolfgang, e tinha quase certeza que esse era o sobrenome de Lúcio. Estava determinada a procurá-lo e tirar a história a limpo.
No dia seguinte, quando a encontrei, perguntei se havia realizado o que me dissera. Ângela não encontrara Lúcio em parte alguma, nem na faculdade, nem em sua casa para onde ligara várias vezes. Não entendia o sumiço. Andrew se aproximou, bastante agitado, nos questionando se sabíamos das últimas aventuras dos lobos. Realmente não sabíamos, ninguém melhor do que ele mesmo para saber, pois seu pai era policial. Segundo seu relato, a polícia estava fazendo a patrulha da cidade, à noite, quando, próximo ao bosque, encontrou uma alcatéia, com lobos enormes. Havia cinco deles no total. À distância, os policiais atiraram e chegaram a alvejar um deles, mas o animal estava tão agitado, que mesmo com dificuldade conseguiu fugir.
Ângela ficou sobressaltada com a notícia, pediu-nos desculpas e agradeceu por estarmos lá naquela noite. Prometeu que não mais se aventuraria em tais locais.
Alguns dias depois, houve um feriado que coincidiu com o final de semana. O tempo estava frio e chuvoso e o único que vi, nestes dias, foi Andrew que sempre me visitava. Não recebi notícias de Ângela, até que num sábado à noite, madrugada, acordo com o telefone tocando. Eu não conseguia entender quem estava falando, o sono era intenso, bem como o frio. Mas quando notei que a voz era de Ângela e que ela chorava amargamente, despertei no ato. Pedi que se acalmasse, que me contasse o que tinha acontecido e ela assim o fez.
Lúcio adoeceu por estes tempos e ligou uma vez apenas para ela, para explicar o motivo de sua ausência. Preocupada, Ângela se dispôs a visitá-lo. Lúcio morava numa casa, próximo às montanhas que rodeavam a cidade. Era uma casa grande e antiga.
Chegando ao local, Ângela tocou várias vezes a campainha até ser atendida por uma mulher muito bonita, com traços que lembravam o rapaz, era a mãe de Lúcio. A mulher tratou-a com extrema amabilidade e a conduziu ao quarto do filho.
Lúcio estava deitado num quarto escuro e fechado, iluminado por um abajur de luz vaga e oscilante. Parecia bastante debilitado, mas isso foi até ver que era Ângela que estava em seu quarto. Imediatamente sentou-se na cama, devorando-a com os olhos. Convidou-a para se sentar ao seu lado, e sem muito conversa, seduziu-a com carícias e beijos. Embora se deleitando com a situação que estava vivenciando, Ângela o achou estranho. Sua aparência abatida se transmudara num semblante vívido de desejo; os olhos pareciam avermelhados, talvez por estar irritadiços; os dentes aparentemente mais salientes, o corpo um pouco mais magro e a barba por fazer; as unhas estavam grandes e algumas vezes ele chegou a arranhá-la enquanto a tocava mais forte.
Lúcio a convenceu que ninguém entraria em seu quarto e a despiu. Ângela não era uma garotinha inexperiente e se entregou ao prazer que sentia, que na hora era imenso. Ela parecia pensar e pausar bem suas falas ao me contar estes fatos.
Nunca em sua vida, ela experimentara tamanha paixão como a que Lúcio lhe demonstrava naquele momento, enquanto a possuía. Ele mal a deixava tocá-lo, pois prendia seus braços e devorava seu corpo com beijos intensos, bem como esfregava o nariz pelo pescoço, seios e ventre dela, extasiado com o cheiro da sua carne. Era como se ela fosse o mais delicioso dos alimentos para uma alma faminta.
Em determinado momento, Ângela se soltou e acariciou seu peito másculo e recoberto de pêlos. Os dois arfavam juntos, o calor e o suor dos corpos se misturando. No auge do prazer, Ângela gemeu e balbuciou que o amava demais.
Isso foi o suficiente para que Lúcio estacasse, imóvel, dentro dela. Ângela sentiu que ele estremeceu por inteiro, como se todo o seu mal-estar tivesse retornado. Ele levantou-se subitamente, nu, abriu a porta e pediu que fosse embora imediatamente, alegando que ela não tinha o direito de lhe dizer aquilo. Ângela não conseguia entender a causa daquele repúdio, correu até ele e tentou abraçá-lo, mas Lúcio com uma força sobre-humana a empurrou e gritou enlouquecido que fosse embora, que o deixasse em paz. Aos prantos, Ângela recolheu suas coisas e partiu. Desconsolada, desesperada, temerosa, resolveu me ligar em busca de ajuda.
Confesso que a sinceridade dela, a princípio, ao me descrever com exatidão suas intimidades tinha me deixado constrangido, no entanto, não podia me recusar a prestar-lhe solidariedade. Também fiquei sem entender a reação dele, pois não havia explicação para que ele a expulsasse de sua casa quando ela, totalmente entregue, lhe confessara seu amor.
Sem saber ao certo o que dizer, aconselhei-a a tentar repousar e já que ele a destratara, deixasse que Lúcio a viesse procurar por vontade própria para se explicar. Ângela acatou o que eu disse e desligou.
Não consegui dormir depois da sua ligação, por mais que tentasse. Tudo o que ela me contara, revi em mente e fiquei mal comigo mesmo por me permitir pensar mais profundamente naquele assunto. Não que eu tivesse algum interesse amoroso por Ângela ou tivesse me excitado com a narração, nada disso. Simplesmente não entendia que uma frase como “eu te amo” pudesse deixar tão transtornado um homem.
Depois dessa ocasião, não encontramos mais Lúcio, e ficamos sabendo que ele tinha requisitado sua transferência. Andrew tentou animá-la muitas vezes com suas brincadeiras e sua atenção, mas não eram suficientes para que Ângela voltasse a sorrir espontaneamente.
Geralmente, Ângela desabafava seus temores comigo, por saber que Andrew nutria um sentimento mais forte por ela, e então tentava poupá-lo. Ela me confessou que apesar da sua tristeza, duas coisas a estavam preocupando: os negócios de sua família estavam muito mal e talvez seus pais tivessem que se desfazer de vários pertences e até mesmo mudar para uma casa mais modesta; outra coisa que a incomodava era que de uns tempos para cá, sempre se sentia acuada, vigiada, como se alguém a estivesse seguindo. Aleguei que Andrew não poderia ser, que ele havia se comprometido a não mais fazer isso. Eu sabia que no fundo, ela desejava realmente que Lúcio a estivesse seguindo, mas tentava, com bravura, não se iludir.
Os fatos foram caminhando desta forma até a família de Ângela ir à falência. Tiveram de vender suas propriedades e veículos, mas o que foi realmente alarmante foi que o pai de Lúcio, era responsável por aquela situação. Como corretor de imóveis e prestando serviços de agiotagem às escondidas, conseguiu roubar não apenas uma família, como umas seis da cidade. Logo em seguida, não se teve mais noticias dos Wolfgang; quando se procurava, nunca estava no escritório e nem sequer na própria casa.
Esse foi um baque muito forte para minha amiga, que se sentiu totalmente enganada. Ela acreditava que cada atitude de Lúcio se relacionava com o fato, principalmente o que havia acontecido no último encontro com ele.
Ela teve de se mudar com os pais e as irmãs para um sobrado modesto, vizinho de uma chácara abandonada. No dia em que mudou, Ângela me relatou que chegou a ver Lúcio escondido por trás das árvores e que tentou correr ao seu encontro para conversar sobre o acontecido, porém ele havia fugido logo em seguida numa velocidade impressionante.
Na universidade, os assuntos se dividiam entre as constantes mortes e ataques de feras e o golpe dos Wolfgang na cidade. A polícia não conseguiu incriminá-los por falta de provas, já que as pessoas enganadas tinham confiado plenamente e assinado documentos em favor do que acontecera. Soube-se depois, por um colega de curso de Lúcio, que os Wolfgang partiriam numa sexta-feira, de barco.
Ângela correu até o porto que ficava na cidade vizinha e conseguiu avistar a família partindo; eles aparentemente estavam felizes e com semblante tranqüilo. Apenas Lúcio, encostado a amurada, aparentava certa tristeza até o momento em que a avistou. Ângela me contou que o olhar dele continha uma mistura de ódio e susto para com ela.
Passaram-se algumas semanas, e apenas animais pequenos, como cães e gatos haviam sido encontrados mortos em situações semelhantes aos outros sucedidos. Nenhuma pessoa havia sido atacada por qualquer criatura, mas restava o medo da população que ainda evitava perambular durante a noite.
Ângela passou a ter crises de insônia. Ficava pensando na situação difícil que sua família enfrentava e no que os Wolfgang haviam feito. Numa dessas noites muito claras, de lua cheia, ela ouviu claramente o uivo de um lobo em volta da sua casa. Seu coração disparou, ao lembrar das notícias envolvendo os ataques. Correu a trancar a janela, e qual não foi seu espanto quando, junto à parede que dava para seu quarto, viu uma criatura horrenda e peluda olhando fixamente para ela, com enormes olhos vermelhos.
Aquele era o maior lobo ao qual ela já tinha visto; nenhum representado em livros ou canais de televisão se assemelhava ao porte daquela criatura assustadora. Para apavorar ainda mais, o animal andava arqueado sob duas pernas, quase como um homem corcunda. Suas patas dianteiras pareciam enormes mãos humanas com garras e pêlos. O focinho era enorme, com dentes protuberantes e afiados. Ângela soube que aquilo não poderia ser nenhuma espécie de lobo conhecida, ao menos se acreditasse que estava praticamente frente a um lobisomem.
Trancou a janela correndo, e pôde ouvir seu pai, que também vira a fera, abrir a porta da casa e dar tiros no escuro. Como estava na parte superior, Ângela viu a criatura novamente lhe encarar e sair correndo enfurecida e assustada para dentro do matagal.
Sua mãe, apavorada, tratou de puxar o marido novamente para dentro de casa e trancar a porta. Suas irmãs correram para ver do que se tratava e a casa se agitou com todo aquele barulho. Ângela não saiu da sua alcova, e ficou pensando no modo como o lobisomem a encarara, não era um olhar estranho.
Os pais de Ângela foram à delegacia prestar queixa, mas ninguém lhes dava crédito por uma visão tão impressionante. No entanto, outros moradores também afirmavam que poderia mesmo ser um lobisomem, e as lendas passaram a crescer, sempre com alguém que já dizia ter visto um ser semelhante.
Ângela não tinha dúvidas sobre o que vira, e compartilhou conosco seus temores. Não duvidamos da palavra dela, era nossa amiga, não havia porque acreditar que ela estivesse enganada quanto a isto. Andrew ficou pensativo e propôs que fossemos até a delegacia ver os laudos e processos envolvendo as mortes misteriosas, pois era plenamente aceitável que os fatos estivessem relacionados.
Por ter um pai policial, a visita de Andrew em nossa companhia à delegacia não causou espanto a ninguém e muito facilmente tivemos acesso aos recortes, documentos e imagens. As fotos, melhor analisadas, realmente nos fizeram constatar que um lobo comum não daria conta de tamanha atrocidade, por mais fome que sentisse. As mordidas eram enormes, bem como as marcas das garras. Outro dado interessante é que as mortes geralmente envolviam seres e pessoas de hábitos noturnos. Em sua maioria, as testemunhas retratavam que as mesmas pessoas sempre tinham sido vistas acompanhadas por alguém até a noite do crime, e em geral, eram pessoas solitárias. Passamos efetivamente a crer que fosse um lobisomem. Qualquer um conhece lendas envolvendo tais criaturas e sobre quem elas são. Passamos a confabular quem poderia ser, e nada era mais óbvio do que a família de Lúcio.
A família de Lúcio, embora sendo bem abastada e influente nos assuntos imobiliários, não era muito vista em público e geralmente eram contidos, reservados, não se sabia muito da vida dos seus integrantes, até o escândalo do golpe na cidade. O que mais nos aterrorizou é que o próprio sobrenome da família remetia a algo do gênero: Wolfgang.
Os fatos coincidiam de forma impressionante, com exceção que ainda mortes de pequenos animais assombravam a cidade; porém os óbitos funestos, em longa escala, não estavam mais acontecendo.
Ângela ficou consternada com nossas cogitações. Não conseguia acreditar, ou pelo menos, tentava negar para si mesma tudo aquilo. Pediu que mantivéssemos segredo sobre isso, pois não era pertinente dar crédito a tais ocorrências e poderíamos estar julgando como assassinas e monstros, pessoas que nada mais eram do que vigaristas.
Talvez por medo, talvez por ter se impressionado com nossas divagações, Ângela cismou que a fera vivia a espreitar sua janela em noites de lua cheia. Sei que no fundo do seu coração, ela tremia em pensar que tal criatura pudesse ser Lúcio.
Para tentar esquecer todos estes acontecimentos, nos unimos mais e acabou que Ângela e Andrew começaram a namorar. Ficava contente por meu colega, mas também sabia que Ângela tentava encontrar no amor dele o esquecimento e a fuga das lembranças do que passara com Lúcio.
Como quaisquer casais de namorados, começaram a fazer suas incursões noturnas. Pessoas não estavam sendo mortas mais por ali e muitos chegavam a supor que o lobo, ou a fera que tinha feito aquele estrago, talvez tivesse morrido.
Na última vez em que vi Andrew, ele estava empolgado, pois naquela noite completariam três meses juntos e ele planejava fazer algo especial na companhia da namorada.
Que dia trágico nos esperava então! Na manhã do dia seguinte, o corpo de meu amigo foi encontrado completamente aos pedaços no rumo da floresta e das montanhas. Corri a casa de Ângela, completamente lívido, e a abracei. Ela chorava imensamente e colocava a culpa em si própria. Pedi que me contasse o que havia acontecido e ela me relatou que saíram e, tarde da noite, quando retornaram a pé, ele se despediu e partiu sozinho. A dor que sentíamos era imensa e ambos buscávamos respostas onde não havia. Todos falavam do ataque como culpa dos lobos, mas Ângela e eu temíamos que algo ainda mais sórdido estivesse por detrás daquilo e nossas suspeitas não foram em vão.
A trilha de sangue deixada levava até as imediações da casa abandonada dos Wolfgang. Os policiais revistaram a casa, dia e noite mantiveram vigília na tentativa de capturar o animal, que acreditavam pudesse ter se refugiado na casa vazia. Mesmo naquela época, a polícia não tinha certeza de quantos animais poderiam ser. Acreditava-se que no início havia uma quantidade maior, uns seis ou oito lobos, mas depois chegaram a cogitar que apenas um ou dois ainda restavam, talvez tivessem morrido de fome ou atacado entre eles mesmos. Era extremamente difícil encontrar qualquer vestígio de corpos de animais na floresta. Andrew foi localizado porque partes do seu braço e sua carteira estavam no início do matagal.
Os céticos encaravam o fato já como incompetência da policia, que não conseguia capturar tais animais. Os supersticiosos acreditavam piamente na existência de um lobisomem e olhavam todas as pessoas como prováveis suspeitos, eu bem sei como foi. Não me importava que dissessem asneiras sobre mim, mas sim que Ângela também passou a ser vista com outros olhos por todos os colegas de faculdade. Achavam estranho o fato de o primeiro namorado dela ter desaparecido e o segundo tivesse sido morto. O clima geral entre a população era hostil por demais.
Agora só tínhamos um ao outro como amigos e confidentes. Então, Ângela me convidou a dormir em sua casa, numa ocasião em que seus pais não estavam e que coincidia com o período de lua cheia. Ela tinha certeza que a criatura apareceria e que eu poderia vê-la.
Não foi fácil aceitar esse convite. Numa cidade pequena, um homem e uma mulher sozinhos numa casa, já viram motivos de falatórios, mas era preciso. Muito me ofendia que pudessem pensar qualquer coisa sobre Ângela e eu, tal era o respeito que sempre lhe dediquei e fui para sua casa, cheio de reservas e constrangido.
De fato, mal chegou o relógio a soar meia-noite quando ouvimos passos em redor da casa. Corri e peguei a arma do pai de Ângela. Fomos para a janela e a criatura estava lá.
Primeiro, centrou seu olhar todo em Ângela, porém ao me avistar ao seu lado, ficou completamente enfurecida e arremetia urrando contra as paredes na tentativa de nos alcançar. Depois, o lobisomem foi até a porta e tentou arrombá-la, por sorte havíamos lacrado bem e encostado objetos pesados nela, mas nossos corações pareciam sair pela boca de tanto pavor.
O lobisomem era exatamente como Ângela me descrevera e imaginei que a fúria maior dele consistia na minha presença ali, ao lado dela. Tive certeza, naquele instante, que deveria ser Lúcio, mas não compartilhei isso com ela; e quanto mais Ângela se apertava ao meu braço, mais a fera urrava.
Em nenhum momento soltei Ângela e a arma que mantinha fortemente presa ao peito. O lobisomem rodeou o sobrado várias vezes, na tentativa de entrar e como não encontrava meios, esperneava alucinado. Cortava-me o coração as lágrimas que via correr pelo rosto de minha amiga, queria poder lhe dizer que aquilo tudo era um sonho, que nada daquilo estivesse acontecendo, mas era impossível. Ficamos horas a fio parados, na janela, observando a fera e por ela sendo observados, até o momento em que a aurora começou a se estampar no céu. Vendo isso, a criatura fugiu em desabalada carreira e nos deixou, enfim, sozinhos.
Deixei cair a arma ao chão e Ângela me abraçou tremendo. Retribui o abraço e não me arrependo de naquele momento tê-la desejado. Sentíamos o alívio de o monstro ter ido embora, e eu sentia que o coração de Ângela, apertado contra meu peito batia sofregamente principalmente em saber que tal criatura poderia ser o rapaz que ela tanto amara. O calor do abraço dela também me reconfortava de toda a tensão e pavor. Senti que eu mesmo enfraquecia com o contato com o seu corpo e que meu instinto de homem sabia reconhecer toda atmosfera envolvente que nos cercava. Mas contive meus desejos, pois nada nesse momento me era mais caro que nossa amizade e não a colocaria a perder e muito menos magoá-la.
Retirei-me para outro quarto a fim de repousar, e cai exausto na cama de uma das irmãs de Ângela. Quando acordei havia um lanche ao meu lado, tanta tensão me dera uma fome tremenda e comi como um selvagem. Chamei por minha amiga e ela não me respondia. Percorri os cômodos e nada, então tive a certeza do que ela havia feito: Ângela fora até a casa de Lúcio. Completamente apavorado ante tal situação, corri ao quarto para buscar a arma, coloquei-a na mochila e sai em seu percalço.
O caminho era íngreme e muito me cansou, pois além da distância havia repousado pouco e feito apenas uma refeição. Ficava pensando que horas Ângela teria saído de casa para encontrá-lo e se estaria a salvo. Quando finalmente cheguei à porta da casa dos Wolfgang, encontrei-a semi-aberta. Era uma daquelas portas pesadas e barulhentas, e rangeu assustadoramente quando a empurrei. Senti um torpor por todo corpo, pois certamente minha presença teria sido anunciada por tal barulho. De repente, escutei os gritos de Ângela vindo do segundo patamar da casa e corri para as escadas. Sequer tive oportunidade de subi-las, pois me deparei frente a frente com o lobisomem me olhando, de forma sanguinária. Corri em direções opostas, lancei em sua direção tudo o que encontrava pelo caminho, mas a fera era impressionantemente rápida e nada parecia atingi-la. Arranquei um pedaço de tábua que se despregava de um móvel velho e joguei em sua direção, o monstro simplesmente a fez em pedaços como uma mera folha de papel. Arremessei minha mochila contra ele, mas antes, sempre correndo, tinha tirado a pistola do seu interior; por sorte ela estava carregada desde a noite anterior e só consegui subir as escadas e chegar até Ângela, graças às suas balas. Os tiros não o espantavam nem o enfraqueciam, mas conseguiam retardar um pouco sua corrida. Alcancei Ângela e na mesma hora ela apertou minhas mãos sobre uma corrente prateada que pendia em seu seio. A criatura não tentou nos atacar enquanto estávamos abraçados segurando a corrente, apenas nos rodeava rosnando ameaçadoramente, como se uma parede nos separasse. Ângela chorava e chamava por Lúcio olhando para o lobisomem, mas ele não dava qualquer mostra de nos reconhecer. Enfim tomei consciência que tinha Ângela seminua nos braços e olhei para a corrente prateada e com um pingente também prateado, com formato de coração. Nunca antes havia visto minha amiga com aquela jóia e imaginei que tivesse sido um presente ou algo do gênero. Perguntei o que era, e ela me disse aos prantos que Lúcio lhe dera aquilo enquanto estava como homem e lúcido, para sua proteção. Compreendi o que se falava nas histórias de lobisomens sobre a prata, um material que os afastava e que poderia mesmo causar-lhes a própria morte; entendi que ele lhe deu a jóia, pois não a reconheceria mais depois de sofrer a mutação e com ela ao pescoço, ele não poderia atacá-la.
O problema que enfrentávamos era quanto tempo conseguiríamos agüentar em pé, abraçados, no território dele. Na noite anterior, não havíamos dormido e ficamos todo o tempo na janela. Nossas pernas tremiam de dor e medo, pois qualquer movimento eu poderia soltar a corrente e ser atacado. Lúcio não parecia cansado por um momento sequer, enquanto nos cercava. Ângela com a cabeça encostada ao meu peito não parava de chorar e suar frio, sequer conseguia encará-lo, vendo que ele não atendeu aos seus rogos. Por fim, vencida pelo cansaço, Ângela quase me escorregou dos braços e foi por uma fração de segundos que a corrente não me escapou das mãos. O lobisomem chegou a se adiantar, rosnando assustadoramente, mas recuou, quando recuperei nosso equilíbrio.
Sei que estava tremendamente apavorado, com medo, com raiva, mas Ângela sequer tinha forças, seu peso estava praticamente todo em meus braços, sentia imensamente piedade por ela, ali tão desamparada, tão frágil, em trajes íntimos, e tentando me proteger também. Notei que a corrente já começava a machucar seu pescoço, mais alguns instantes ela desfaleceria ali e eu também não teria forças para segurá-la ao colo. Chamei-lhe, beijei-lhe a testa. Abriu os olhos marejados com muita dificuldade e me fitou profundamente. De súbito, percebi que o seu corpo ficava mais rígido ao meu abraço e ela ia recobrando a consciência. Pediu para que eu a soltasse com calma, sem largar a corrente. Assenti. Ela segurou o pingente de coração com os dedos trêmulos, sussurrou-me numa voz quase inaudível que nossa salvação estava ali dentro e que teria de fazer uma escolha.
Ângela olhou então para a fera, e nesse momento pude ver que não era mais Lúcio quem ela via a sua frente e sim um ser abjeto e demoníaco. Abriu o pingente e dentro dele havia uma bala de revólver toda de prata; depois enfiou uma das mãos pela minha calça e sacou a pistola, encaixando a bala. Entendi no mesmo instante o que ela ia fazer e o que significava aquela bala, era a única capaz de matar o lobisomem e também ao próprio Lúcio. Era uma decisão para Ângela, senti que ela estava no limite de suas forças, ofereci-me para atirar, mas ela insistiu que faria isso.
Só tínhamos essa bala, pois todas as outras se esgotaram e estavam cravadas na pele do lobisomem, e com o estampido do tiro seríamos separados, era preciso acertar. A nossa única chance de sobrevivência estava ali.
Ângela vacilou duas vezes, a arma tremia em suas mãos, mas senti que os olhos amendoados dela estavam fixos nos olhos vermelhos da criatura. Sem saber de onde ela tirou tamanha força, Ângela disparou.
Como previ, fomos jogados longe pela força do tiro, pois nossos corpos estavam totalmente enfraquecidos. Naquele momento, minha vida toda passou diante dos olhos e temi que o tiro tivesse sido em vão.
Não foi. Ângela fez um disparo certeiro no coração do lobisomem, que agora se contorcia de forma horrenda e emitia guinchos apavorantes. Ângela sentou-se, um filete de sangue lhe escorria pela face, pois ao cair se ferira.
Lentamente, o lobisomem foi tomando um aspecto humanizado e diante dos meus olhos, vi um Lúcio magro, fraco e despido surgir. Nunca a aparência de Lúcio fora tão bela, pois, apesar do estado em que estava, havia um semblante de paz profunda em seu rosto. Ângela se aproximou do corpo moribundo, abraçou-o e beijou-o; com o restante de forças que ainda tinha, Lúcio pegou as mãos dela, beijou com ternura e agradeceu pelo que havia feito. Compreendi que a alma de Lúcio se libertara da maldição e que ele realmente amava Ângela de todo o coração. Faleceu em seus braços, entre lágrimas e beijos. Seu corpo sequer permaneceu ali, virou pó no mesmo instante e apenas a bala de prata estava agora caída no lugar onde ele estivera.
Corri a abraçar Ângela e entreguei o restante de suas roupas. Sei que o coração dela estava arrasado pela morte de Lúcio, mas que também era algo necessário e que ele próprio almejara. Creio que só nesse momento, Ângela percebeu os trajes em que estava e correu a se vestir. Enquanto ela assim o fez, recolhi a arma e o colar do chão, e recoloquei a bala no lugar onde ela estava anteriormente.
Fomos embora devagar, pois estávamos exaustos, andávamos cambaleando pela extensa vegetação. Ângela queria me falar, mas pedi que poupasse suas forças para outro momento senão, não conseguiria retornar e eu também não teria forças para transportá-la.
Deixei-a em sua casa e voltei para minha. Minha família se assustou com meu semblante sujo e machucado, mas guardei silêncio. Não queria conversar com ninguém naquela hora. Queria apenas me deitar e esquecer por algum tempo todo o horror que havia vivenciado.
Alguns dias depois, Ângela me telefonou e pediu que fosse visitá-la. Chegando lá entramos em seu quarto, ela trancou a porta e nos sentamos frente a frente na cama. Estava disposta a me contar tudo o que acontecera enquanto eu não estivera por perto, e deixei que falasse para acalmar seu espírito.
Ângela me contou então, que tão logo viu que eu tinha adormecido, preparou-me um lanche o qual deixou ao lado da cama e partiu rumo à casa de Lúcio. Suas emoções estavam confusas e ela não sentiu tanto medo em procurá-lo, já que era dia. Chegou à casa abandonada, andou pelos corredores e não avistou ninguém, chamou por Lúcio e então ouviu um suspiro. Seu coração bateu mais forte e ela gritou novamente que queria falar com ele, então numa voz sumida, ele avisou-a que estava em seu quarto. Ela subiu às escadas e encontrou-o acuado e enfraquecido, sentado sobre um tapete, próximo a parede.
Desordenadamente, Ângela começou a acusá-lo de todas as vilanias que estavam acontecendo. Sequer o deixava falar. Lúcio teve então de se levantar e forçá-la a se sentar a sua frente. Os olhos dele estavam marejados por lágrimas e começou a falar que a amava, mais do que tudo, mais que a sua própria e desgraçada vida; ela tentava rebater o que ele dizia com mais acusações, mas Lúcio encostou-lhe a mão aos lábios e pediu que o ouvisse e que depois o julgasse.
Contou-lhe que, de fato, era um lobisomem, bem como todos os membros de sua família miserável e que só viviam de atrocidades e assassínios. Havia se transformado num ser daqueles quando sobreviveu a um ataque de lobisomens, e que esse era o meio mais comum de transformação. Vivia isolado porque sabia que a relação dele com as pessoas era artificial e que quando se aproximava era com a finalidade de as atrair e seduzir para a morte. Ele próprio havia matado pessoas e se aproximado de várias mulheres com essa intenção, mas nenhuma era como ela. Desde o primeiro momento em que a viu, foi tomado por um desejo estranho e diferente de tudo o que experimentara. Sentia ímpetos de devorá-la, pois o cheiro da sua carne era o melhor que ele já sentira e ficara impregnado na sua pele, mas também sentiu algo diferente que o fazia pensar nela como a pessoa mais agradável que conhecera e desejava mais e mais a sua companhia.
Ao conhecê-la, não conseguiu mais se alimentar de qualquer pessoa. Seu lado selvagem queria a carne dela, como se fosse uma droga extremamente potente em seu interior. Tentou se alimentar de animais, mas isto o enfraquecia mais e mais. Depois que a conheceu não suportava pensar no estilo de vida que sua família levava e teve várias discussões com eles. Alegou-lhe que não participou do golpe contra a sua família e que quando estava no barco, partindo e a avistou não teve mais forças para deixá-la. Principalmente depois de terem se entregado um ao outro e ela lhe dizer que o amava. Aquilo foi para ele como se mil facas o tivessem perfurado, pois quando a possuiu daquela vez, ele estava quase se transformando e estava prestes a assassiná-la. Entendeu tudo o que sentia, que seu lado humano a amava, mas que conviver com seu lado monstruoso seria impossível. Tentou se afastar, tentou ir embora, mas quando a viu no porto e ela lhe deu as costas, jogou-se na água e nadou de volta. Daquele minuto em diante, rompeu com sua família e sequer soube para onde foram. Não conseguia mais ficar longe da sua janela, enquanto homem que amava e enquanto a fera que deseja loucamente a presa. Seu lado monstro foi quem matou Andrew, e ele sentiu horror só de lembrar isso, pois sequer chegou a devorá-lo; apenas o tratou como um adversário lutando pelo mesmo alimento. O remorso que sentia era imenso, pois sabia que Andrew seria um ótimo parceiro para ela. Seu problema era que, quando transformado, não reconhecia mais as pessoas e poderia atacar qualquer um que se aproximasse.
Enquanto ele assim falava, Ângela olhou pela janela e constatou que estava entardecendo. Sentia raiva de Lúcio pelo que fizera, sentia nojo de si mesma ao saber que se deitará com ele enquanto lobisomem, e ainda angústia por tudo aquilo, mas com a sinceridade, a bondade que aparentava e o arrependimento visível de Lúcio, seu coração se apiedava dele aos poucos.
Chorando, Lúcio lhe confessou que não sabia mais o que fazer com o seu amor e se afastou para protegê-la, porém, não agüentaria mais viver tanto tempo naquela situação e lentamente ia deixando de se alimentar.
Ângela acabou por ficar perplexa diante de todas as revelações, sentiu-se confusa e ao mesmo tempo todo o amor que sempre sentira por Lúcio parecia se fazer presente. Ele chorava com as mãos escondendo o rosto, as lágrimas escorriam por seus dedos. Finalmente, buscando força dentro de si mesma, ela puxou as mãos de Lúcio para olhar em seus olhos. Com ar súplice, ele lhe pediu para não o tocar, pois ao simples roçar da pele dela, para ele era como que seu amor se tornasse uma dor física. Já não se importando com nada, Ângela se entregou a Lúcio mais uma vez. Dessa vez, no entanto, foi diferente: não havia loucura e desespero em sua posse e sim, amor e carinho incalculáveis.
Sobre o tapete empoeirado se amaram, saboreando cada parte do corpo um do outro. Ele não a penetrava da maneira selvagem como a primeira vez e sim, preocupado com o prazer que pudesse dar a ela.
Depois do amor, ficaram enlevados, nus e abraçados, até que Lúcio se levantou e detrás de um quadro antigo, abriu um cofre e tirou um embrulho. Disse-lhe que era um presente e que o usasse quando ele se transformasse naquela criatura asquerosa, para sua própria proteção, pois não poderia machucá-la enquanto estivesse de posse daquele objeto. Ângela abriu o embrulho e se deparou com o colar e o pingente prateados. Olhando em seus olhos, Lúcio a fez prometer que traria sempre consigo a jóia e que, dentro do pingente, existia algo que colocaria um ponto final em toda a sua desgraça, mas que ela só abriria numa situação extrema.
Lúcio caminhou até a janela, a noite já surgia; ficou completamente apavorado, pois sentiu que começava a sofrer a mutação maligna e gritou para que Ângela colocasse o colar imediatamente.
Ela nem havia se vestido completamente quando o fitou e viu que ele ia ganhando as formas do lobo monstruoso, colocou a corrente para se proteger e foi nesse momento que cheguei ao local.
Imaginava que realmente não havia sido nada fácil para Ângela tomar as decisões que tomou e queria saber por que ela mesma quis lhe tirar a vida.
Ângela me contou que no seu íntimo sabia que era o que Lúcio desejava. Ele não queria cometer mais qualquer mal contra quem quer que fosse, por amor a ela. Para se libertar, apenas seria possível com a morte. Ela sentiu pânico ao saber que cabia a si essa missão, entendeu o que Lúcio quis dizer com situação extrema e o que significava o formato do pingente em conjunto com a bala. No fim, sentiu-se aliviada com o que aconteceu ao corpo, pois ninguém iria acusá-lo das mortes. Sabia que ele matara para se alimentar, por puro instinto animal, e para ficar bem consigo mesma, foi ao cemitério para deixar sobre o túmulo de cada uma das pessoas, por ele atacadas, uma flor branca.
Enquanto conversávamos, ela remexia no pingente e a bala se soltou, caindo sobre os lençóis. Pedi licença e a peguei, realmente era uma bala fascinante e bem forjada; no entanto, notei que tinha uma divisória e ao mexer havia um mecanismo de rosca, que a desmontava. Mostrei a Ângela, que desmontou a bala e teve uma surpresa com o que havia dentro: uma fotografia de Lúcio e uma dedicatória romântica endereçada a ela. As lágrimas escorreram suavemente por seu rosto e ela sorriu com a lembrança que ele lhe deixara.
De fato, concordei que Lúcio era realmente uma pessoa digna do amor de Ângela e que havia sido uma lástima não termos oportunidade de conviver. Minha amiga também era uma mulher impressionante e digna de ser amada, tanto por Lúcio, por Andrew e até por mim.
Isso mesmo, eu também depois de todos esses percalços por quais passamos, vi meu sentimento de amizade se transformar em admiração e amor para com Ângela, mas não era um amor carnal e sim, um amor fraterno, tanto que me casei com uma sua irmã, tão linda e especial quanto Ângela.
Quanto a ela, nunca se casou, mas dedicou a vida a cuidar do filho de Lúcio que trouxe em seu ventre e que, para nossa felicidade, embora parecido com o pai, não trazia no sangue a marca do mal.


Ana Claudia Brida.