quinta-feira, 13 de junho de 2013

Conto: A solidão

Ele olhou para o relógio no exato momento em que batia uma hora da madrugada, mesmo estando convulsionado por uma dor agonizante em sua alma, uma respiração sufocada e os seus pensamentos fossem extremamente vagos, confusos; pôs-se de pé e foi caminhando rumo à janela.
Um ou outro veículo atravessava a rua deserta em alta velocidade.
Havia colocado no velho aparelho de som, uma música excessivamente melancólica para depois se sentar no parapeito do prédio. Então, começou a refletir:
“Tenho errado muitos nestes últimos anos e tudo o que eu gostaria era poder dissipar a sensação de culpa. Talvez hoje irei a algum lugar onde eu possa me redimir, quem sabe até mesmo sonhar...”.
Nunca havia tido oportunidade de repensar o passado e este lhe surgia em mente como trechos de um filme fantástico, repleto de peripécias e situações desencontradas. Estudara numa escola tradicionalíssima e privada, sempre se sentando nas primeiras carteiras da sala de aula; aluno aplicado alcançara uma das melhores colocações no vestibular, graduara-se em Direito; fizera inúmeras viagens para o exterior e fez um bom consórcio matrimonial. Nunca fora apegado aos seus familiares e tivera poucos amigos. Seu estilo intelectual e taciturno lhe garantiu emprego numa grande firma de advocacia. Tudo era absolutamente perfeito, e todos o admiravam, embora não entendessem o semblante sempre desconfigurado que insistia em marcar o seu rosto, como uma cicatriz.
Sua vida lhe parecia certa demais, as causas por ele defendidas pareciam excessivamente distantes da sua realidade. Em todas as coisas, havia uma indescritível sensação de vazio que tomava conta de todo o seu ser.
A mudança catastrófica veio em um turbilhão de acontecimentos, e ele não conseguia mentalizar sobre os mesmos, ocorria lapsos intensos onde via rostos femininos que choravam e sorriam; uma criança instalada num féretro; cadáveres de pessoas suicidadas por sua causa; inocentes encarcerados e assassinos libertos; os processos desaparecendo da sua escrivaninha; as garrafas de álcool e por fim uma sensação de culpa e solidão que o atormentavam através de um ato, de uma palavra. Ele não tinha certeza se tudo aquilo havia ocorrido de fato, ou se fazia parte da sua mentalidade doentia, que no desespero em que se encontrava, divagava em acontecimentos duvidosos e reais simultaneamente.
Mas ele não permitiria nunca mais que aquilo ocorresse:
“Seja o passado passado, quando tiver posto uma grande pedra em cima de todas essas questões, estarei em paz!”.
No rádio soava numa língua estrangeira: “... Mesmo que tu tenhas seguido por uma outra estrada, não batas as portas e nem pules os obstáculos que surgirem, enfrente-os...”.
           Passou-se um minuto, ele se jogou do sexto andar.





Ana Claudia Brida

Conto: Anjo caído



“... ‘Esta mulher foi apanhada em flagrante adultério e Moisés mandou-nos na Lei para que apedrejássemos tais mulheres. Que dizes tu a isso?’... Ele ergueu-se e disse-lhes: ‘Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire a pedra contra ela’... vendo Ele ali apenas a mulher perguntou-lhe: ‘Mulher, onde estão os que te acusavam? Ninguém te condenou?’ Respondeu ela: ‘Ninguém, Senhor’. Disse-lhe então: ‘Nem eu te condeno, vai-te...”
João VIII. 4-5, 7, 10-1.


Madrugada. Algumas pálidas luzes refletidas pelos postes tentavam mostrar uma réstia de luz através de uma névoa fantasmagórica. Essa mesma névoa intensa que recobria as ruas e trazia consigo um frio petrificante... Ao longe se escutava um rumor que talvez lembrasse uma música... Passos... Firmes... Botas.
Os passos concederam vida à estreita rua de paralelepípedos, de edifícios cinzentos e arruinados... Eram os passos de um anjo solitário, e o anjo revelou-se maior que tudo no meio daquela morbidez. Seus cabelos esvoaçavam assim como o sobretudo negro, a pele translúcida com uma maquiagem carregada sobre a face. Uma blusa decotada e uma saia de couro reluzente assim como as botas; este era um anjo, com seu passo firme, sua forma afetada de andar, sua triste aparência vulgar e sua bela expressão cansada. Seu peito estava compungido da agonia da vida... Haveria lágrimas para alguém assim? O que era a vida além de dar-se todos os dias para as mais variadas e ínfimas espécies de homens?
Havia um vazio intenso e nostálgico na alma daquele anjo-mulher perambulando pelas noites há tanto tempo. Ela acendeu um cigarro e iluminou seu caminho com o brilho do vício; névoa e fumaça misturaram-se. Ao passar em frente a uma casa, ouviu um choro, havia uma criança ali e uma luz acesa. Ela olhou para a casa com seus olhos escuros e depois voltou-os para o céu; no meio das nuvens negras, algumas poucas estrelas insistiam em reluzir... Suas pálpebras se fecharam por um instante e logo em seguida, abriram-se para seguir adiante, os pés doíam dentro da bota...
Um bêbado cruzou seu caminho e gritou “puta!”, mas ela continuou seu caminho inexorável. Ouvia isso muitas vezes, como elogio, como xingamento, de várias formas. Já não ofendia mais, era a sua condição... Queria que chamassem de “amor”? Um casal se esfregava junto a um poste sem luz, ela olhou e sorriu melancolicamente... Existiam drogados nas calçadas, e um puxou-a para si implorando dinheiro; ela enfiou a mão no bolso do casaco e arremessou-lhe uma nota. Uma rua deserta... Uma festa acabando, as pessoas observavam-na e riam, ela ignorou, já era tarde. Havia uma igreja em vigília, ela fitou seu interior indiferente. Existe Deus pra alguém assim? Seria melhor viver ou morrer? Há algo esperando no final?
Quando ela finalmente chegou em sua pensão a aurora começava a se estampar deslumbrante no céu. Em um quarto havia luz e cheiro de café. Mais adiante uma criança tossindo; havia um casal brigando. O chão estava sujo, havia fezes de animais no pátio e alguns preservativos usados, garrafas de álcool, cheiro de drogas... Podridão.
Ela abriu a porta e entrou rapidamente acendendo a luz. Bagunça, cama por fazer, toalhas e roupas espalhadas, calçados amontoados atrás da porta, uma garrafa de cerveja aberta sobre a mesa suja com farelos de pão velho. Papel higiênico na porta do banheiro, o vaso cheirando urina; e perto da janela livros, sendo que a Bíblia era o último livro da pilha. Um rádio com uma vitrola antiqüíssima e alguns discos de vinil, faziam parte da decoração.
Calmamente, ela se despiu, deixando as roupas pelo chão. Suas formas eram rígidas, sem máculas... Nua, jogou-se sobre a cama e dormiu o sono dos anjos. Sua pele não via o sol, era alva, absolutamente perfeita, só conhecia a noite... Quando a tarde chegou, ela acordou e como todos os dias cumpriu seu estranho e triste ritual, leu três velhos recortes de jornais: “Homem é assassinado ao voltar para casa no aniversário de sua filha de oito anos”. - “Padrasto abusa sexualmente da enteada de doze anos. A mãe revoltada, comete homicídio contra o estuprador e tira sua própria vida, deixando a menor abandonada”. - “Cafetão é encontrado morto por overdose num quarto que dividia com uma menor de dezesseis anos”.
Todos haviam-na deixado. Seu pai que tanto ela amava e admirava como modelo de dignidade e caráter; sua mãe, um tanto instável, mas sempre boa e o homem que com treze anos, ela achou ser o amor da sua vida, mas que acabou levando-a para um mundo nefasto... Nunca havia tido amigos, renegavam-na desde a morte de seu pai. Existiu uma criança em sua vida aos dezoito anos, mas ela jamais poderia ser um exemplo e nem conseguiria sustentá-la, um fruto gerado numa noite de prostituição com alguém que ela sequer lembrava o rosto... Abandonou-a em frente a uma casa num bairro de classe média. O que fazer para compensar tudo?
Gostava de música, sentava-se em seu banquinho de madeira e ficava apreciando a melodia das canções... Tinha preferência por letras que falavam de solidão, vazio da alma, morte, revolta ou que simplesmente eram tocadas, sem palavra alguma. Não acreditava mais no amor... Homens casados que se diziam apaixonados por suas esposas a procuravam... As mulheres e os homens se traíam mutuamente. O que importava para a maioria das pessoas além do dinheiro, era o sexo. Este era o seu trabalho! Entregar-se, gemer, gritar, realizar as fantasias mais absurdas, conceder o prazer todas as noites, várias vezes e tudo com o seu devido preço.
Existem as prostitutas de luxo, mas a maioria está por aí, fazendo as calçadas arduamente a cada noite, até mesmo por quantias ínfimas para ganhar o seu pão! Homens, mulheres, homossexuais, muitos na mesma situação de miséria, muitos anjos decadentes nas noites eternas... Um anjo decadente o que ela era, um lindo anjo no meio de uma subvida... Ela olhava pela janela observando o entardecer, a luz alaranjada no horizonte e sabia que daqui a algumas horas estaria novamente nas ruas, oferecendo-se para qualquer pessoa que pagasse o seu preço. Haveria esperanças de um dia aquilo acabar? O que era esperança?
Tinha de comprar comida, nem sempre um cliente pagava-lhe um jantar... Vestia-se displicente e saía, as crianças sorriam-lhe, os rapazes olhavam-na fascinados. Era um anjo lindo de qualquer forma, quando tentava passar por uma pessoa normal ao realizar tarefas do cotidiano; quando se vestia de forma exuberante para enfrentar seu ofício; e, principalmente, quando se despia, livre, na sua casa ou para alguém. É possível ser normal quando se é diferente?
Ela tentava, muitas vezes preferia ser uma mera sombra que passasse despercebida por alguém, mas a noite era sua, seu domínio, e ela precisava brilhar por algumas horas. Não havia emoção, não havia sentimento – havia o dinheiro, havia o alimento e as contas pagas no outro dia. Se beijava, se era invadida das mais diferentes formas, se era tocada pelos mais diversos tipos de gente; tudo isso lhe era indiferente, não havia classificação, o que existia era um prazer fingido, mecânico e pago.
Se fosse sádica, como muitas do ramo, riria dos seus parceiros medíocres e fracos, da sua submissão perante o sexo... Se fosse masoquista, sofreria por si e por cada um com que fez sua cama... Se fosse ufanista, ainda teria esperanças de sair daquela vida... Mas ela não tinha mais ilusões... Era indiferente... Talvez fosse um ser divinizado no etéreo da vida de amargura... Suas forças eram sobre-humanas, sua mente brilhante. Se era marginalizada numa situação que não conseguia superar, a culpa era da vida que lhe infligira a categoria de imoralidade social, a miséria, a servidão e lhe destruíra os sentimentos mais cândidos.
Quantas pessoas que perdem os pais e que não seguem por este caminho? Quantas pessoas são violentadas e nem por isso se prostituem? Quantas pessoas desacreditadas no amor conseguem se refazer? Mas, e agora, quantas pessoas, que por não terem uma estrutura sólida têm suas almas destruídas por estes mesmos traumas, e acabam por se prostituir, drogar-se, matar-se pelas esquinas? Haverá respostas algum dia?
Ela tomara o seu banho, depilara as axilas e saiu toda molhada do banheiro envolta numa velha toalha mofada... Sentou-se na cama vestindo a lingerie, as meias, tranqüilamente... Maquiou-se com meticulosidade, os olhos ficando mais escuros, as bochechas marcadas, os lábios vermelhos, mas quando olhou-se no espelho quebrado viu apenas um fantasma absolutamente ridículo. Tomou um pouco de café e se vestiu, calçou os sapatos e mais uma vez saiu. Estava limpa, imaculada e seria corrompida sabe-se lá quantas vezes... Saliva, suor, fluídos vários, bebida; assim ficava após algumas horas... Suja pela podridão dos humanos animais.
Às vezes, sentia dor e cansaço, mas não podia parar... O cliente precisava ficar satisfeito e ela precisava do dinheiro da venda do seu corpo e da sua alma aos demônios! Barulho, boates, brigas... Tiros, tara, tesão... Falsidade, fissura, fraqueza... Solidão, sexo, servidão... Dinheiro, Deus? Ela observava as outras moças, as “normais”, sorriam, brincavam, choravam... Menos ela. O que era aos vinte e um anos? O que havia conseguido? Família, filhos, faculdade, fama? Nada!
Ela um dia pensou em sair dessa vida, mas os fantasmas do passado estiveram sempre perto, e as pessoas? Elas sabem que existe a diferença e procuram esmagá-la. Não, ela não foi covarde! Foi apenas ela, um ser que o mundo abortou nas ruas! Se ela tivesse uma família? Encontrasse um homem honesto, disposto realmente a um compromisso sério e tivesse seus lindos filhos? Isso não é um conto de fadas moderno. Se ela alcançasse a fortuna, estabilidade suficiente para deixar esse mundo de dor em que se instalou? Se conseguisse um emprego decente? Uma pessoa com passagem pela polícia com envolvimento em prostituição dificilmente alcançaria algo sem que o seu passado sórdido viesse à tona! Uma faculdade? Já pensou encontrar um colega de classe ou pior, um professor pelas ruas?
Talvez ela estivesse esperando o anjo da morte para aliviá-la do sofrimento, talvez ele fosse o único ser que ela conseguiria amar, principalmente quando ele viesse observá-la com seus grandes olhos verdejantes, e tão branco como ela; talvez tivessem os mesmos preceitos, talvez na inanição ele lhe concedesse alguns minutos de paz... Talvez o anjo da morte fosse totalmente diferente de como se comentava sobre ele, talvez ele pudesse ser belo e bem simpático... Ele poderia aparecer através de alguma doença, de algum acidente ou uma bala perdida... Ela se entregaria e cairia em seus braços macios descansada.
A noite prometia, foi um dia movimentado na cidade. O primeiro cliente foi um homem jovem, moreno, alto, bem vestido, aparentando ter saído a pouco do seu serviço, provavelmente do seu escritório. Ele era mais um homem casado... Terminado o ato ela pediu que a deixasse numa avenida tal... Tudo certo... Quantas não perdem a vida desta forma? Passaram-se outros encontros. Ela agora estava voltando para sua casa como todas as outras vezes, mas percebeu em meio a névoa alguém caminhando em sua direção. Um assaltante ou um cliente? O homem colocou-se a sua frente e sorriu, estava com um chapéu, óculos escuros e um grosso sobretudo. Polícia?
“Você é linda!” – disse ele.
Injuriada, ela agradeceu e sentiu uma estranha sensação. “Se quiser tem que pagar” era a sua fala sempre pronta. Mas o estranho não quis, ele tocou em seu rosto gelado e sorriu novamente.
“Em breve a procurarei novamente...” – e se afastou em meio a névoa.
Pela primeira vez, ela chegou em sua casa e não conseguiu dormir, aquele desconhecido havia causado uma alteração em seu invólucro glacial e ela não sabia como e nem por quê. Não existem psicopatas que adoram exterminar as garotas de programa?
Ele não estava bêbado e nem drogado, ela tinha plena certeza... Estava sentada ao lado da janela entreaberta, observando o sol cada vez erguer-se mais... Os olhos não queriam se fechar e nem a mente parar de trabalhar, imaginando a pessoa que estava por baixo daquelas roupas... Revendo o encontro de ambos em meio à neblina... Algo indefinível, místico!
Quando finalmente adormeceu, seu sono sempre profundo, sempre sem sonhos foi invadido por visões do homem tocando-a firme e suavemente, suas mãos chegando-lhe até os ombros e o pescoço gélido e o apertando cada vez mais intensamente, e ela não tinha medo, queria sentir a pressão até o final, seu prazer era quase orgásmico... Finalmente via folhas de papel repletas de palavras disformes e melodiosas escritas com uma exímia caligrafia. E esse sonho, inúmeras outras vezes, invadiu seu sono. Nas noites seguintes ao sair pelas ruas inconscientemente o procurava; cada vez que cruzava com um homem misterioso como ele, sentia um calafrio percorrendo sua espinha. Seus serviços estavam sendo prestados distraidamente, os clientes não reclamavam, mas imaginavam que fosse frígida.
Cansada, numa noite, caminhou até um bar vagabundo, sentando-se num banco próximo ao balcão, pediu uma água e ficou olhando para o copo. Por que aquele estranho mexera tanto com sua pessoa? Distraída, não percebeu que alguém sentava ao seu lado, e quando o indivíduo tocou sua mão, ela saiu do transe em que se encontrava e pôde constatar que era ele!
“Olá!” – disse-lhe sorrindo, apresentando a alvura dos seus dentes.
Estupefata, ela respondeu vagamente:
“O que deseja?”
Ele sorriu-lhe mais uma vez e ficou em silêncio por alguns instantes. Aquele silêncio no interior de um bar onde o ruído das conversas ébrias, o tilintar dos copos e uma música estrondante que não cessava, faziam com que o coração do doce anjo das noites palpitasse descontrolado. O homem percebendo que ela estava aterrorizada, exclamou:
“Não tenha medo, só desejo sua companhia... Você pode me concedê-la?”
Aquelas palavras soavam estranhas, desconexas da boca de um homem, mas ela tentou se agarrar em três suposições: ou ele era casado, ou tímido, ou também poderia ser as duas coisas.
“Quer sair daqui?” – perguntou ela com um sorriso que tentava ser insinuante.
“Posso levá-la a um certo local?”
Ela assentiu.
“Não estou de carro, portanto se você não se incomodar de caminharmos...”
“De forma alguma!”
Saíram de lá juntos, com destino ignorado. Caminharam ambos um percurso que parecia inexorável. O anjo noturno abaixou sua cabeça para os pés sem coragem para fitar ao desconhecido que seguia ao seu lado. Para onde estariam indo? Apenas os dois transitando pelos becos sombrios. Ela se sentia estranha em seu próprio corpo e o único ruído que ambos ouviam eram os dos próprios passos. Seu nervosismo era tanto, que ela sequer se apercebeu quando ele parou diante uma casa e continuou andando.
“É aqui!” – disse ele.
O angélico ser voltou-se com o rosto em brasa e o coração batendo sofregamente no peito dilacerado.
“Vamos entrar!” – comentou o homem educadamente.
Ela levantou seus olhos onde reluzia a escuridão da noite e contemplou a fachada da casa, simples, secular, cinzenta como as outras, mas havia um pequeno portão enferrujado e árvores em volta. Ao abrir o portão, o mesmo rangeu lugubremente. Como um cavalheiro, ele permitiu que ela passasse a sua frente antes de entrar. O anjo não tinha palavras, apenas contemplava tudo com os olhos petrificados de uma escultura. Subiram alguns degraus e logo estavam no interior da casa. Esta era extremamente aconchegante e organizada. A sala onde se encontravam possuía a quentura dos objetos de mogno, o sofá cor de vinho, a estante com uma televisão desproporcional, livros e discos devidamente organizados. Ele pediu para que ela se sentasse enquanto foi preparar um café. Sozinha, com a luz suave de um único abajur, ela largou-se no sofá, mas suas pernas inexplicavelmente não paravam de tremer, esfregou as mãos, porém estas estavam encharcadas por um suor frio. Seria um presságio?
Imediatamente levantou-se e passou a caminhar pelos cômodos, todas as portas estavam trancadas, menos uma. O anjo entrou acendendo a luz. Bem no meio do aposento estendia-se um divã escarlate com uma poltrona negra ao lado, livros numa estante preenchendo toda uma parede, e uma mesinha de canto em cada lado. Havia no chão um carpete felpudo e ela sentiu uma infinda sensação de paz naquele recinto. Psicólogo ou polícia? O homem surgiu-lhe pelas costas com duas xícaras fumegantes, ela se assustou.
“Eu sabia que você viria para esta sala!” – disse ele.
Lentamente ela fixou seus olhos no rosto do homem e só neste instante pôde notar-lhe as feições, os lábios úmidos, grossos e vermelhos contrastando com a alvura da pele; o nariz imponentemente grego; os olhos percucientes com cílios longos e sobrancelhas delineantes; os cabelos cinzentos levemente desalinhados.
“Parece artista até!” – pensou ela dividida entre o fascínio e o desdém.
Ele sorriu como se tivesse lido seus pensamentos, os dentes extremamente alvos e alinhados.
“Quer tirar o casaco?” – perguntou.
O anjo perdido deu com os ombros. O homem colocou o pires sobre uma das mesinhas de canto e se aproximou dela para tirar a pesada veste. Através desta atitude, o anjo percebeu, ou antes, sentiu que os olhos dele fixaram-se morbidamente na alvura do seu pescoço. Para ter certeza de que ela estava ali, piscou inúmeras vezes; sentia um ardor gélido no ventre e nada havia que fizesse cessar as estranhas sensações tidas na presença deste homem. Ela lembrava do seu sonho... Com um riso sarcástico, ele disse acariciando o pescoço nu:
“Tranqüilize-se, não vou lhe morder...”
Ela tentou sorrir, mas foi com tanta dificuldade que empregou este ato, que a contração muscular fez-lhe doer a face.
“Quero que dispa-se e retire toda a maquiagem!”
Maquinalmente ela efetuou seu pedido, enquanto o mesmo apanhava umas folhas e um lápis que estava sobre um móvel. Em seus pensamentos, o anjo não era tolo – sabia que nenhum homem surpreendente tira do nada uma mulher da rua, mas sabia também que aquele que estava ali com ela naquele instante era um ser excêntrico e que lhe tirara o sono por várias vezes. Em muitas ocasiões, ela era paga simplesmente para que ficasse nua ou conversasse, não se sentia muito confortável nessa situação, pois a maioria das pessoas que a procuravam neste sentido eram absolutamente carentes e desejavam ouvir algo que lhes fosse aprazível... Logo dela, que queria apenas ficar só... Nestas horas, as suas leituras em muito a ajudavam.
Ela nada sentia por ele, apenas um presságio inesperado e um gosto metálico na boca. Ao sair das suas reflexões, percebeu ela o quanto ele a contemplava, de cima a baixo, de forma perscrutadora. Logo depois, solicitou que deitasse ela sobre o divã e aproximou-se endireitando-a numa determinada posição. Petrificada como estátua humana, o anjo viu que era retratada numa das folhas de papel. Lisonjeada e curiosa agora, ainda continuou no seu silêncio, mas os olhos ficaram a passear lentamente de um lado para o outro; descobriu na estante, um livro marcado por uma faixa vermelha. Ela o conhecia: a famosa queda do arcanjo Lúcifer e a perca do paraíso pelos dois primeiros seres da espécie. Em face desta descoberta, tentou imaginar em qual página repousaria a fita.
Após terminado o retrato, ele chegou e aconchegou-se a ela para a concretização do ato carnal. Nunca, em toda a sua existência sentiu algo desta maneira, ele sabia perfeitamente o quê e como fazer, mas era frio, uma carne gélida e dura como o aço. Consumado seu desejo, ele adormeceu brevemente, dando tempo suficiente para que ela caminhasse pelo ambiente. Dum lado do aposento, encontrou ela, uma Bíblia; e do outro, o mesmo objeto. Cada uma delas estava aberta numa página; a primeira relatando a marca posta por Deus em Caim; e a segunda, nas terríveis profecias de Isaías. Era um pouco estranho, duas Bíblias marcarem textos tão distintos, e até mesmo sinistros.
Cautelosa, para não fazer qualquer barulho, vistoriou o seu retrato – lindo e ao mesmo tempo, demonstrando tanta pureza – achou-o estranho. Mas por descuido, deixou o anjo cair outras folhas, que rapidamente abaixou-se para pegar. Violentamente o sangue começou a correr pelo seu corpo, numa velocidade vertiginosa, e o coração com toda a força o bombeava, quase percebia-se os estampidos das batidas. Eram retratos de outras três moças, todas muito belas, porém seguidos por cópias horrendas em que as mesmas moças estavam com um sinal em forma de cruz sobre a testa e o flanco ferido, com uma chaga sanguinolenta semelhante a uma facada. O homem era um psicopata! Rapidamente, o anjo ergueu-se, mas, no mesmo instante deparou-se com o olhar gélido e letal do aço que lhe lançou; e ele calmamente caminhou em sua direção, nu, com as mãos às costas. Desesperada, tentou ela correr, fugir da serpente que se postava magneticamente a sua frente e tentava hipnotizá-la.
Como homem forte, augusto, prosseguiu ele em seu passo majestoso, e num ato imperioso conseguiu capturá-la e aprisioná-la fortemente contra seu corpo. Todos os esforços dela eram debalde em vão e a única coisa que tinha noção era do ardor que sentiu na fronte e da quentura do sangue a molhar sua face. Sarcástico, ele a libertou e contemplou, embevecido da sua obra celestial. O corte não era tão profundo, mas era suficiente para deixar uma cicatriz por toda a vida. Dorida, as mãos na testa, tentou ela estancar o sangue que insistia em conspurcar-lhe a pele, e no entanto, seus olhos ainda seguiam o ser desatinado. Qual a razão daquilo tudo? Daqueles assassinatos? Sentiria-se ele um deus? Seriam as outras prostitutas como ela?
“Agora a lança...” – afirmou ele, como um pintor a dar os últimos retoques numa tela.
Eis que o anjo a tudo compreendeu – o homem era um fanático religioso que realmente não se sentia um deus, mas o próprio Deus e tentava reescrever a odisséia bíblica a sua maneira doentia. A marca de Caim e a chaga de Cristo eram os veementes sinais da sua obsessão. Angustiada, correu ela por todos os cômodos e como um milagre, pela abertura de uma janela conseguiu escapar.
“Madalena!” – ouviu-o gritar.
Nua e petrificada parou no meio da rua, e pelas trevas da madrugada, contemplou a luz acesa da casa amaldiçoada. Viu pela janela, o doente com uma coroa de espinhos sobre a cabeça, desiludido por ter deixado escapar a presa e com a lança na mão. Seu movimento rápido e incisivo feriu a si próprio. Não poderia suportar a perda.
O susto perpassou tão violentamente o corpo da jovem, como ondas espasmódicas intensas. Tinha a impressão de ter estado face a face com o legítimo anjo da morte. Mas como podia alguém chegar a esse ponto de loucura? Ela mesma tão só, tão sofrida, tão despedaçada pela vida não sucumbira à demência. Que acontecera a tal homem para ser tão marcante e ao mesmo tempo, tão ensandecido? Pressupunha ser ele extremamente religioso, mas o que a religião pôde acarretar na sua alma psicopata? Qual o significado íntimo para todos aqueles símbolos?
As perguntas ficaram sem respostas, pois ao término destas cogitações, um veículo descontrolado atingiu a rua, e a toda velocidade, deixou prostrado o anjo caído no asfalto.

Ana Claudia Brida
17 de Janeiro de 2005.

Conto: O mapa da maldição

Quando nos mudamos para uma outra cidade, encontramos na casa onde iríamos residir alguns resquícios de seus antigos moradores, e logo começamos a nos desfazer dos mesmos. Uma coisa, no entanto, chamou-me a atenção, no fundo de um baú velho, carcomido por cupins, encontrei um papel amarelecido e dobrado num canto. Com um certo asco, segurei-o em minhas mãos, e lentamente o abri. Seu interior deixou-me intrigada, era como se fosse um mapa e uma história representada por alguns desenhos semelhantes aos das iluminuras medievais. Havia um título, escrito numa língua que eu não conhecia, mas no qual distingui, uma única palavra “Bavária”, imaginei que seria um relato fantástico desta região, fantástico não apenas por ser uma história de época que ali se apresentava, mas também pela ordem dos acontecimentos ali registrados.
Via-se no interior de uma taberna uma jovem, seu rosto mostrava uma certa placidez, o que era singularmente estranho, pois estava ela a servir uma mesa repleta de homens fortes e alvos, como pressuponho que tenham sido os bárbaros germânicos; o que era de fato assombroso, e que destoava da frágil aparência da moça, eram os seus olhos. Havia neles uma malignidade, algo de sombrio e misterioso. Em outros quadros, apresentavam-se cenas sangrentas de batalhas e assassínios, e em todas elas, a mesma jovem estava representada num plano estratégico, visível e com os mesmos olhos. Mais adiante, via-se a figura de uma moça, que pelos traços, deveria ser a mesma dos outros quadros; percebia-se nitidamente que a vida não mais habitava aquele corpo, que estava enrolado num manto branco, sobre uma fogueira, que é um hábito de culturas primitivas. Nos quadros que se seguem, não mais surge a moça. O quadro a seguir, representa um grupo de pessoas, todas de costas, vestidas de negro com as mãos estendidas para o alto. Nos próximos três quadros, estão representados animais, que, geralmente são denominados por pragas: uma barata, um rato e um escaravelho. No último quadro, simplesmente aparecia o vulto de uma mulher totalmente branco, ou seja, uma forma não muito definida, com os braços levantados ao céu.
Neste ponto, findava a suposta narrativa. Chamei por meus familiares e mostrei o objeto; meu pai tomou o papel de minhas mãos e o analisou minuciosamente. Bem onde findava o desenho, avistou alguns números escritos numa letra miúda, quase imperceptível, mas não foi possível saber do que se tratava. Deixamos o suposto mapa de lado, e fomos nos organizar.
Na sétima noite, passada na tal casa, um fato ocorreu. Estava eu deitada, já repousando, quando comecei a sentir uma certa inquietação. Despertei, sentindo como se algo corresse pelas minhas pernas, no mesmo instante pulei da cama e acendi a lâmpada... qual não foi minha surpresa ao ver uma grande e negra barata sobre os lençóis... precipitei-me para extinguir sua mísera existência, mas todos os meus esforços eram em vão, pois ela voava de uma parede a outra, como a zombar da minha figura; depois de um quarto de hora, acertei com precisão, um golpe sobre ela... claramente a vi cair ao chão, já inerte, e mais me espantei quando a vi tornar-se pó e desaparecer diante das minhas vistas. Esfreguei os olhos já cansados, procurei-a ainda por baixo das camas e dos objetos, mas não a encontrei; de fato, ela desapareceu diante dos meus olhos.
Tentei dormir, mas debalde conseguia esquecer o ocorrido. Lembrei-me, então, daquele papel com aquelas figuras enigmáticas. Procurei por uma lupa, e debrucei-me sobre a escrivaninha para descobrir que números eram aqueles tão miúdos. Senti uma espécie de calafrio percorrer-me a espinha, quando contemplei que se tratava de uma data e de uma hora, mas não era uma simples data e uma simples hora, e sim, a data e a hora do meu nascimento. Por mais que eu tentasse descobrir do que se tratava aquilo, menos encontrava respostas... não comentei o fato com mais ninguém, guardei em silêncio, na expectativa que a meditação no assunto me trouxesse as respostas que eu buscava.
Mais outra semana se passou, e mais uma noite chegou em que meu sono foi perturbado por ruídos insistentes e irritantes. Ao colocar os pés para fora da cama, senti algo quente e peludo correr sobre mim... meu coração disparou, novamente corri para acender a lâmpada e fiquei horrorizada com a presença de um rato grande e cinzento correr como um louco, sem sentido, de um lado para o outro...
Mas, com a iluminação a tomar todo o ambiente, a criatura asquerosa estacou e fixou seus olhinhos repugnantes e raivosos em mim, eu tremia, nada conseguia dizer, nem um grito escapava-me dos lábios. Ele abriu sua boca mostrando os dentes afiados e amarelos, numa atitude ameaçadora e partiu, com fúria em minha direção, para atacar. Fiquei estática, o único gesto que recordo de ter realizado, foi cobrir o rosto com as mãos... senti os dentes fixados em meu pé, e uma vertigem me tomar a ponto de desmaiar.
Quando acordei, estava em minha cama. Não lembro de ter ido até ela, de ter me deitado, e muito menos de que alguém tivesse entrado no meu quarto, pois tenho como hábito trancar a porta ao ir dormir. Imediatamente descobri minhas pernas e procurei a marca que provavelmente estaria no meu pé, mas não havia nada... absolutamente nada, nem um arranhão, nem uma gota de sangue nos lençóis. O papel estava sobre a escrivaninha, dobrado, da mesma forma como eu o havia deixado. Abruptamente o desdobrei, e na mesma hora, percebi que alguma coisa muito pequena caiu no chão, abaixei-me e imediatamente senti toda a minha repulsa retornar, ali, em minha frente, estava um dente minúsculo e afiado. Tentei argumentar os fatos com os meus familiares, foi em vão, a única coisa que me disseram é que simplesmente haviam pegado um rato com a ratoeira. Fui ao lixo e com asco, observei o cadáver, mas não era o ser grotesco que me atormentara na última noite.
Na noite seguinte, não consegui repousar, lembrava os acontecimentos misteriosos envolvendo os dois animais repulsivos, revirei-me de um lado a outro na cama e finalmente decidi levantar-me e entender o que era aquele mapa, ou aquela história.
Quando abri o papel, eu não vi o rosto da moça, mas vi o meu próprio ali estampado. E as cenas se sucediam como num filme, moviam-se; eu não consegui conceber se estava sonhando, se aquilo era fruto da minha mente já perturbada ou algo do gênero, sei que firmemente segurei o papel em minhas mãos, enquanto via toda a história se apresentar para mim.
Eu me via no lugar da moça, via os atos cruéis praticados por mim, via coisas abomináveis, que completavam aquelas cenas e que eram todas manipuladas pela minha pessoa. Via a minha própria morte e o ódio das pessoas contra o que eu havia feito, e mais do que isso, percebia que aqueles animais eram uma maldição lançados para mim, por tudo o que de ruim eu havia feito. Sentia, no transcorrer dos fatos, as lágrimas correrem pelos meus olhos, e foi então que compreendi o que era, o que significava aquele papel.
Era um mapa de fato, um mapa da minha outra vida, da reencarnação passada. A data, a hora, os acontecimentos em geral revelavam isso. Deduzi que vim da região da Bavária, e que aproveitando-me da minha aparência esbelta havia cometido toda a sorte de vilezas e maquinações pérfidas, e que em decorrência disso, uma maldição recaía sobre mim; essa maldição teria fim na vida presente, pois a última figura lembrava alguém alcançando a redenção. Talvez, o fato de ter encontrado este mapa na nova casa onde iria habitar, seria uma trama do destino, que a todos persegue, para mostrar minha verdadeira identidade. Foi então, que percebi, que ainda faltava um animal, o escaravelho, e aqui gelou-me o coração, tive medo da dor, tive medo da morte, tive medo de sentir medo. Ainda havia de enfrentar aquela última maldição.
Esperei, esperei angustiada e silenciosa pelo sétimo dia, até que finalmente o sono me venceu, e depois de tantas agitações consegui repousar. Mas, que repouso breve... ouvi grunhidos, barulhos angustiosos. Na mesma hora, despertei e pensei na maldição... não consegui ter forças para me levantar da cama, estava apavorada, e inexplicavelmente a luz se acendeu.
Não consegui nem exprimir direito o pavor que senti, ao ver o quarto todo coberto de escaravelhos agitados, negros e brilhosos. Tentei levantar-me, lançar algo em direção a eles que os fizessem desaparecer, mas, não tinha como me mover... pensava em mil coisas, mil soluções, mas nenhuma era possível ali. Foi então que senti algo erguer-se, fluir dentro de mim, e dei um grito, o grito que saiu do mais íntimo do meu ser, e também o grito mais horrível, tenebroso e áspero que já ouvi em minha vida.
Na mesma hora, acordei com a luz do dia, e minha mãe a entrar no quarto, pois naquela noite, eu, por descuido, esquecera a porta entreaberta. Tudo não passou de um sonho...


Ana Claudia Brida
01/10/2005

Conto: A casa



No ano de 1864, o marido de Andréa Walter trabalhava na fiscalização de propriedades para o governo, e ela sempre acompanhava suas peregrinações pelo interior do país, pois eles mal podiam ter uma residência pelo fato de viverem em constante movimento.
Numa de suas últimas viagens, o casal chegou num vilarejo onde os habitantes eram extremamente taciturnos e reservados, e como não havia hospedaria, tiveram de permanecer numa casa de família.
Andréa tomou sua prancheta e saiu de casa em casa tomando anotações. O fato que mais a surpreendeu foi que, num povoado tão rude, cercado por uma densa floresta, havia uma propriedade colonial que servia de museu. Fascinada com tal descoberta, decidiu ir conhecer o imóvel.
Um vasto matagal, envolvia a casa, que se estendia sobre palafitas até a margem de um rio; era um espetáculo fascinante e desolador, pois de um lado, era totalmente abandonada e do outro, bem tratada com paredes pintadas recentemente de um intenso branco. A vegetação chegava quase a ponto de invadir o lado abandonado, e foi por este que ela entrou. Havia uma média de cinco cômodos em estado de deterioração, quartos que se percebia que houveram sido mobiliados com extremo bom gosto no passado. Um quarto de casal, com uma pesada cama de ferro coberta por teias de aranha e pó, móveis praticamente destruídos e o que mais lhe chamou a atenção, era o fato de haver uma espingarda rústica, com vestígios de pólvora sobre a colcha da cama. O próximo quarto era de uma criança, e embora estivesse coberto por séculos de poeira, tudo estava devidamente organizado, até mesmo bonecas havia sob a cama. O outro compartimento, era uma espécie de cozinha, pois percebia-se um fogão rudimentar e panelas e utensílios domésticos espalhados por todos os cantos. Chegou em mais um quarto, e quando abriu lentamente a pesada porta, um cheiro acre a envolveu, como se algo podre houvesse sido largado ali durante muito tempo, e o que mais a apavorou foi o fato de que a única coisa que havia ali, era um cobertor, que outrora fora branco, cobrindo algo bem ao centro do aposento. Assustada, correu até a sala e ali, o choque não foi menor, havia um desenho de um corpo de uma mulher feito a giz, no chão, e do lado oposto, um urso de pelúcia carcomido pelo tempo; ela teve a impressão de vê-lo se mover, mas fora um rato que passara rapidamente por perto. Imediatamente saiu do local, indo em direção a uma luz, pensando consigo que tipo de museu era aquele, onde aparentemente eram preservados os horrores de algum crime.
Quando atingiu a luz, notou que estava numa sala ricamente mobiliada e pintada com o mesmo branco do exterior. Embora tudo o que houvesse ali fosse antigo, estava muito conservado. Uma senhora veio andando vagarosamente até sua direção, e quando Andréa notou, levou uma espécie de susto, pois não esperava mais encontrar qualquer coisa com vida.
“Bom dia! Por onde a senhora entrou?” – perguntou a sexagenária.
Ainda tomada pelo efeito do susto, disse que soubera da existência do museu, e que se aproximou pelo lado desolado da casa primeiro, por achar uma construção extremamente curiosa. Num gesto compreensivo, a senhora passou-lhe a explicar:
“De fato seu espanto é bem comum, ninguém ao ver esta casa ao longe imagina que é um museu, e principalmente no seu caso, ao ter visto a parte desolada primeiro, pode supor que seja algo complicado de se entender! Venha, eu lhe mostrarei como funciona nosso museu!”.
A senhora apresentou todos os cômodos da parte organizada da casa, e explicou-lhe que tudo ali eram relíquias da época do descobrimento do país, mostrou-lhe salas onde restauradores trabalhavam, mostrou um refeitório onde pessoas também trabalhavam e salas de estudos onde homens estavam debruçados sobre livros ou objetos singulares, pois, nas suas palavras, todo o material histórico adquirido pelo governo, era enviado primeiro a este local para ser restaurado e só então era enviado para museus maiores. De fato, havia ali riquíssimas telas, esculturas entalhadas na madeira, objetos preciosos, utensílios antigos. Mas, nem assim, a curiosidade de Andréa diminuía, pois não conseguia entender, o que a parte desolada da casa representava. Como se tivesse lido seus pensamentos, a senhora disse-lhe:
“Com certeza, a senhora deve estar se perguntando sobre o outro lado da casa, pois bem, digo-lhe: logo que os primeiros habitantes chegaram as nossas terras, trataram de fixar suas residências, e essa casa é considerada uma das primeiras delas. Quando aqui chegamos, percebemos imediatamente o valor histórico e decidimos preservar tal como estava, restaurando apenas um dos seus lados. Tudo o que você encontrou do outro lado, está da forma que nós também encontramos, pois conseguimos recuperar uma parte da história dos seus proprietários e decidimos não alterar a ordem dos fatos. Morava aqui uma família pequena, um casal e uma criança; com certeza eles possuíam algum recurso, pois é um imóvel grande e havia resquícios da presença de criados; mas o que aconteceu é que esta família foi dizimada de alguma forma, talvez numa invasão indígena ou saqueadores, pois os móveis não foram destruídos pelo tempo e sim com força bruta. Na sala, há o sinal de que um corpo de mulher ali foi encontrado, e de fato, o corpo ainda está lá, num quarto fechado; decidimos não removê-lo, por considerarmos interessante a conduta da pessoa que o recolheu, pois ela foi encontrada na sala, alguém indicou o lugar do óbito e levou-lhe para o quarto onde o que lhe resta ainda se encontra, ou seja, ninguém averiguou, houve apenas uma remoção dum corpo dum lado para o outro. Não há sinal do que aconteceu ao marido, mas segundo contam os mais antigos habitantes da região, que ouviram as histórias por seus avós, a criança permaneceu solitária na casa até desaparecer também de forma inexplicável. As pessoas comumente têm o hábito de dizer que a casa é amaldiçoada, que durante a madrugada escutam-se gritos de mulher e objetos se movem, mas com certeza é superstição, pois como nós trabalhamos aqui até as seis horas da tarde, quando chegamos, às sete da manhã do dia seguinte, tudo está como de costume e nunca fomos perturbados por qualquer coisa que fosse. Vejo que a senhora está espantada, não é necessário, todos que estão aqui agora não moram no vilarejo, um comboio nos leva e nos traz até uma cidadezinha que fica do lado oposto, mesmo porque não haveria como estudiosos residirem num lugar sem total recurso para suas pesquisas. O governo não se importa de que um resto mortal seja mantido por aqui, pois como a casa é considerada um museu, é visto quase como um sarcófago o lado escuso, por isso não pode ser modificado e nem removido”.
Andréa ficou surpresa com a história do recinto, no meio daquele vilarejo insípido um fato tão precioso e ao mesmo tempo assustador. Agradeceu a senhora pela argumentação e pediu-lhe para permanecer mais um pouco no local para fazer algumas anotações. Caminhou até a varanda da casa, que dava para o rio, e sentou-se, com as pernas balançando, observando o entardecer que se aproximava. Enquanto escrevia sentiu algo pousar em um dos pés, avistou borboletas brilhosas ao seu redor e continuou na sua atividade, mas subitamente refletiu que não havia flor alguma por ali, que se tratava apenas de um rio profundo, lodoso e que não era coerente a presença de tais seres naquele local, tornou a olhar e novamente assustou-se, deixando cair a prancheta na água: não eram borboletas, mas pequenos elfos, seres mágicos, corpo de homúnculo com asas encantadas e verdejantes, que lhe sorriam de forma irônica cantando numa voz sussurrada e melodiosa, apontando com suas mãozinhas delicadas para as profundezas aquáticas. Andréa se aproximou, e só compreendeu o que eles balbuciavam ao olhar na direção indicada:
“Nós a trouxemos para cá, para protegê-la do mundo físico, para que sua alma liberta fosse como a nossa!”.
Nas águas, via-se submerso o corpo da criança, uma menina, num vestido pesado que lentamente a foi puxando ao fundo, até desaparecer. Andréa tentou se afastar imediatamente, horrorizada, mas um dos elfos aproximou-se do seu ouvido e disse:
“Não grite porque ninguém a pode ver, sua alma de criança vive agora eternamente!”
“E por que eu estou vendo?” – perguntou Andréa sem entender a si mesma.
“Ela só quer uma amiga, foi ela que aqui te trouxe!”.
“Meu Deus! Estou ficando louca... preciso sair daqui!”
De repente, a luminosidade verdejante emitida pelos elfos tornou-se avermelhada, como num lampejo de raiva, e eles gritaram-lhe:
“Os homens queriam lhe fazer mal, nós a protegemos. Mataram toda a sua família e seus criados que estão cobertos por todo este matagal, a mãe sucumbiu à sua frente e a pobre criança sozinha ficou.... então nós, espíritos das florestas fomos tocados pelo clamor da infante, e para que se unisse a nós, a trouxemos para o rio, o mesmo rio que libertou sua alma. O material jaz lá no fundo, mas ela ainda está por aqui, e quer sair para brincar, mas não pode atravessar mais a sua própria casa, pois os homens que aí estão cobriram o seu passado, apagaram com novas tintas as lembranças que ela tinha, e você pode ajudá-la: faça-lhe companhia por uma noite apenas e ela será feliz!”.
Quando Andréa voltou a si, estava deitada na varanda e ficou apavorada, com receio de que alguém tivesse ouvido a conversa, mas ao se levantar e entrar pelos corredores do museu, as pessoas estavam encerrando suas atividades como se nada tivesse ocorrido. Foi quando, novamente viu algo fora do normal, no corredor que separava um lado da casa do outro, avistou uma linda menina transparente, de cachos dourados, trajando um vestido de mais de 300 anos a lhe sorrir tristemente, sentada ao chão, com os bracinhos cruzados, do seu lado estava o urso de pelúcia puído e lhe sorrindo com maldade, balançando a frouxa cabeça. Ela não sabia se sentia medo ou tristeza frente aquelas visões, apenas não entendia porque só ela via a menina, pois a sexagenária estava ao seu lado, falando que o museu estava sendo fechado. Atônita, olhou para a mulher e olhou de volta para a menina e seu brinquedo estúpido, a senhora notou seu olhar e disse-lhe:
“Ainda está assustada, minha filha? Não precisa ficar, não há nada aí, alguém que está morto não volta mais!”.
Naquela noite, deitada ao lado do seu esposo, Andréa não conseguia dormir, contorcia-se sob os lençóis pensando nos angustiosos fatos do dia, não agüentando mais permanecer naquela posição levantou-se, pegou a luneta do marido e caminhou até a janela. Seu coração disparou fortemente ao avistar a casa, e notar luzes que apagavam e acendiam justamente no lado abandonado, tinha a impressão, inclusive de avistar vultos passando pelas janelas, e seu medo deixava-a paralisada, pois queria chamar o esposo, e não conseguia.
Durante um longo tempo permaneceu sentada junto a janela do seu quarto, até que a fadiga venceu e ela descansou brevemente. De repente, acordou sobressaltada com a mão do marido em seu ombro, chamando-a para deitar, foi então, que num ato de desespero e de forma desordenada, ela contou-lhe o que acontecera. Interessado na história, o marido sugeriu para levantarem-se antes do clarear do dia e ir até o museu, e foi o que fizeram.
As últimas estrelas apagavam-se no céu, quando os dois, com lamparinas, foram em direção ao matagal que envolvia a casa; o marido estava surpreso com aquele acender e apagar de luzes, sabendo que ninguém ali estava, e nem mesmo havia um guarda para cuidar do imóvel. Ouviram então, gritos, intensos, agudos e amargurados saídos da casa, e também ouviam cada vez mais baixo o choro de uma criança. Sorrateiramente, de forma imperceptível, aproximaram-se de uma janela e espreitaram o que ali ocorria: uma mulher que outrora devia ter sido muito bela, caminhava ensangüentada e arrancando os cabelos pela casa, gritando. A criança, encolhia-se num canto, com a cabecinha entre as pernas como se estivesse muito assustada. E o que acharam ainda mais sombrio, era o urso, que no seu pequeno tamanho lutava consigo próprio e dava guinchos demoníacos. Com o clarear do dia, as manifestações iam desaparecendo. Primeiro, a mulher encaminhou-se até o quarto onde havia o corpo e desapareceu; logo em seguida, o urso levava a menina até o seu quarto, e voltava para o lugar da parede onde estava recostado. Tudo voltava a ficar como estava antes.
Andréa cobriu o rosto com as mãos, e implorou ao marido que desejava ir embora, nunca mais voltar aquele vilarejo; e ele assim o fez, levou-a dali, e no mesmo dia, partiram para uma outra localidade.
********************
Um jovem entregador de jornais bate a porta de uma casa, uma senhora idosa lhe atende:
“Olá, meu filho!”.
“Bom dia, senhora Walter! Aqui estão as notícias do dia!”.
“Obrigada!”.
A senhora Walter pegou o jornal e trancou a porta, e ao se encaminhar para a sua poltrona, contemplou os retratos sobre a estante, seu querido marido já falecido e os filhos crescidos e os netos morando longe. Sentou-se confortavelmente, e abriu o folhetim, suas mãos já enrugadas pelos anos, tremeram fortemente ao ler o título de uma das reportagens:
“Gazeta de W. 1916. Prédio Industrial construído sobre um antigo museu de Y. desaba num atentado”.
Não restava dúvida, a casa assombrada fora demolida para a construção de um prédio moderno, e este sofreu um atentado. Há mais de 50 anos que ela não tinha notícia do lugar, e nunca mais havia se deparado com manifestações sobrenaturais. Sentiu-se tentada em visitar o local, pelo menos uma última vez, enquanto a vida ainda lhe corria pelas veias. Sabia que só encontraria destroços, mas a necessidade de estar ali era muito mais forte.
As pessoas contemplavam aquela senhora idosa frente aos escombros com curiosidade, pois ali só haviam técnicos, homens do resgate e alguns religiosos fazendo suas preces. Andréa se encaminhou até um homem de aparência séria e indagou-lhe as causas do atentado. Ele respondeu:
“A guerra, minha senhora, a guerra, é a principal causadora disso tudo. Embora este prédio tenha sido muito mal construído, não justificava detonar explosivos com pessoas ali dentro!”.
“Por que ele era mal construído?”.
“Antigamente funcionava aqui um museu, foi saqueado algumas vezes e além disso, pessoas foram encontradas mortas pelos arredores. O governo então resolveu desativá-lo, e com a expansão, um vilarejo que existia aqui, se tornou uma cidade e no local foi construída uma indústria”.
“Mas ninguém fez nada com relação aos assaltos e mortes no museu?”.
“Não havia como, na época isso aqui era uma floresta praticamente, nunca foi identificado qualquer assassino na região. Mas todos os que foram encontrados mortos por lá, eram assaltantes, por isso não houve grande agitação!”.
“Mas continuo sem entender, por que o prédio era mal construído?”.
“Ah, sim! Uma boa parte do que havia no museu foi levado para outros locais, e segundo consta, havia um depósito abandonado, tudo foi derrubado tal como estava e em cima foi construído o prédio, mas havia muitas infiltrações, rachaduras, era como se ele estivesse balançando, pois foi construído até a margem do rio, que era um escoadouro dos resíduos industriais. Provavelmente, a estrutura não era muito bem feita e...”.
De repente, um senhor muito enrugado, com um aspecto casmurro, aproximou-se e cortou o assunto, dizendo:
“Nada, isso aí, era amaldiçoado!”.
Andréa assustada, imediatamente perguntou-lhe:
“Por que, meu senhor?”.
“Já meus pais diziam que o museu era uma casa onde houve muitas mortes horrorosas e que foi restaurado, mas uma série de acontecimentos estranhos ocorria; gente que ia lá a noite, não voltava, e depois que construíram a indústria, eu trabalhei durante um tempo como vigia, e foi um horror! Escutava passos, gritos de uma mulher, choro de criança e até mesmo um dia, encontrei um urso de pelúcia, extremamente velho encostado numa parede, joguei no lixo, e não é que na outra noite, ele estava no mesmo lugar onde eu o havia encontrado? Engraçado que ele estava do lado da parede onde havia a maior de todas as infiltrações, e nem assim estava molhado”.
O homem sério que estava conversando com Andréa, disse-lhe:
“Isto é superstição, ou ás vezes o senhor estava muito cansado!”.
“Não, sei muito bem o que faço! Não me engano fácil, não! Eu vi!”.
Foi quando um dos religiosos se aproximou e exclamou:
“Na certa, o museu e a indústria foram construídos em cima de uma casa onde houve grande sofrimento, as almas das pessoas que aí moravam foram sufocadas e não puderam se libertar!”.
O velho rabugento contou então ao religioso a mesma história, que a senhora do museu contou à Andréa. O religioso permaneceu um bom tempo em silêncio, meditando e por fim disse:
“A criança deve ter morrido afogada!”.
Andréa sobressaltou-se, como alguém jovem ainda, que não havia visto tudo o que ela viu, e que guardava consigo, poderia chegar aquela conclusão?
“A família inteira é assassinada e o que é feito dessa criança? Não há possibilidade de desaparecimento, pelo fato de ser numa vila onde todos se conhecem, alguém teria de saber alguma coisa, por mínima que fosse. O mais provável é que a menina tenha caído no rio ou sido morta por afogamento. Isso se deve ao fato das infiltrações num prédio tão novo e a presença do brinquedo, justamente no lado onde isto se torna mais freqüente. Com certeza onde quer que fosse, a menina levava o tal brinquedo. O que deve ter acontecido é que sua pobre alma não conseguiu se libertar e ficou presa na casa, por isso que ocorriam essas manifestações. E com certeza, também a alma da mãe ficou presa ali, tendo morrido antes, incapaz de proteger a criança, por isso o seu desespero”.
Andréa estava perplexa, tudo era exatamente condizente com o que ela havia presenciado, mas não entendia porque nada aconteceu a ela e ao seu marido e porque o brinquedo tinha vida. Perguntou a religião do homem, e ele respondeu-lhe:
“É uma nova doutrina...”
O homem sério, gentilmente pediu licença, e afastou-se; o vigia, no entanto, curioso, indagou ao religioso:
“Mas ainda não entendo esse acontecimento com o urso de pelúcia...”
“Provavelmente, o brinquedo foi presente do pai da criança, e ele deve ter sido o responsável pelo massacre que a família sofreu, e como deve ter sido o primeiro de todos a sucumbir, sua alma prendeu-se ao objeto, dando-lhe vida para proteger a alma perdida da criança!”.
Eram teorias surpreendentes, até mesmo revoltantes para uma concepção cética, mas não para a cabeça da idosa Andréa, que com seus 25 anos, presenciara tais façanhas. Ela sequer conseguia argumentar, apenas observava o diálogo que se instaurara. Foi quando o vigia fez a derradeira pergunta:
“Mas como seria libertada a alma, pelo menos da criança?”.
“Uma pessoa de bom coração durante a noite, deveria ter ido na casa, aberto a porta e guiado a criança até a terra; não só esta alma estaria salva, como a de todos os outros ali presentes!”.
Andréa sentiu como se a luz houvesse fugido dos seus olhos, e o chão dos seus pés, os homens a ampararam, alegando que ali não era local para uma senhora, mas ela insistiu, respirou fundo e permaneceu. Sua consciência estava em polvorosa, por culpa dela aquelas almas inocentes foram condenadas a viver aprisionadas, por culpa dela pessoas morreram, por culpa dela atraiu uma maldição para aquele local. Ela havia tido o poder para resolver toda a situação, mas seu medo deixou-a paralisada, sentia-se infinitamente culpada e não sabia como agir, por fim, perguntou ao religioso, que já se afastava:
“Mas, o que fazer pela alma de todos que aí ficaram?”.
“Rezar para que encontrem a paz!” e afastou-se.
Andréa voltou à sua casa, cansada, sentindo-se impotente, sem ninguém para desabafar a dor que sentia. Jogou sua bolsa ao chão do lado da porta, sentindo frio. Foi então que olhou para a sua poltrona estupidificada, e viu ali, o que restava do urso de pelúcia.

Ana Claudia Brida
17/04/2006.

Conto: A carta

    Uma manhã chuvosa.
Eu, preguiçosa, envolta nos lençóis deixava-me ficar, experimentando a sensação agradável proporcionada pelos pingos da chuva no telhado, pelo clima fresco e pelo labor dos ventos nas árvores. Havia paz em permanecer ali, quieta, sem me mover.
Mas o elemento externo insiste em invadir a privacidade alheia, e assim ocorreu. Uma carta, um simples pedaço de papel conseguiu destruir toda a calmaria que eu estava sentindo. Sentei-me, e antes de abrir a intrusa missiva, revirei-a nas minhas mãos a observar a procedência e a caligrafia, pisquei meus olhos, e senti meu coração reagir com tal estímulo. Lentamente abri o envelope, e extrai do seu interior o conteúdo bombástico.
Era uma carta do ser amado, uma carta terna e apaixonada, uma carta como a que todas as mulheres assumidamente românticas desejam; para mim, ainda não conseguia e não consigo explicar a reviravolta que se operou em meus sentimentos, sentia-me viver e morrer ao mesmo tempo.
Viver por me sentir objeto causador de tal sentimento em outra pessoa; por sentir que alguém, em outra parte do globo terrestre dedicava seus pensamentos a mim, e talvez naquele instante estivesse justamente pensando que eu estaria lendo as suas palavras, estaria tendo um pouco dela entre minhas mãos. Lisonjeada, regozijei-me neste pensar e ternas lembranças penetraram-me à alma. O primeiro contato, as conversas que demonstravam afinidades e diferenças encantadoras, o primeiro abraço, seguido pelo primeiro beijo dado de forma tremente, do primeiro contato carnal com o coração a se despedaçar no peito, a certeza de ambos que neste enlace havia a presença do amor e que daquele momento em diante algo sólido seria construído... lembranças agradáveis, mas que acabaram por me deixar a ponto de morrer...
Morrer por estar num estado de inércia catalisador; por saber que o ente amado não estava ao meu lado, e muito menos seria possível senti-lo num pedaço de papel, por mais que esfregasse meus lábios de encontro à carta na tentativa de sorver algum perfume deixado pelo toque das mãos durante a escrita... morrer por não poder sentir naquele momento seus braços a envolver-me o corpo; por não provar do néctar da boca tão sonhada; por simplesmente não colocar os olhos sobre seu vulto branco, e ter apenas como visão o nada; por não ter sua voz doce, máscula aos meus ouvidos compartilhando mistérios, coisas não desvendadas... então, as lembranças tornaram-se amargas, os dias que passavam vagarosamente desde a partida e que me conduziam a um estado alucinatório, desesperado e vegetativo ao mesmo tempo; o telefone que não se manifestava e que quando o fazia, não trazia a voz amada; a ausência de qualquer notícia; as noites em claro revirando-me entre as cobertas desejando desesperadamente alguém que estava longe.
A carta deitou-se ao meu colo, enquanto minhas mãos firmemente prendiam-se aos cabelos, quase os arrancando e as lágrimas abundavam-me nas faces, sentindo-me impotente, sozinha e me odiando, sem nem saber direito por quê... amando com toda a profundidade dentro da ignorância do que se sabe sobre tal sentimento, alguém tão distante, alguém que estava separado de mim talvez por força de entidades desconhecidas, mas não invencíveis, pois que o destino e a distância não impediram o encontro inicial.
Bendita e maldita carta, que me trouxe mais uma confirmação do sentimento correspondido e também me fez sofrer, por ser apenas um pedaço de papel inanimado... fechei meus olhos e transportei-me ao meu amado permitindo na imaginação todos os arroubos que um casal enamorado comete, mas quanta dor senti ao voltar a realidade, e ver-me ali em companhia da solidão avassaladora...
Novamente contemplei cada letra, cada frase formada e com isso, mais sentia o coração pungido, arrebentado, despedaçado. Praticamente inexplicável colocar em palavras tudo o que eu estava sentindo além de estar vivendo e morrendo num só tempo, e quanto mais eu pensava, mais meditava maior era a angústia, o vazio que me tomava e me possuía... pensava em como poderia um sentimento destas proporções invadir-me o ser, tomar-me por inteiro sem que eu tivesse como me defender, deixando-me completamente sem forças, amando incondicionalmente, loucamente... sentindo um desejo violento e incontrolável percorrer-me as entranhas, esgotando-me, levando-me à um frenesi endoidecido... sentindo uma necessidade pungente da presença física e espiritual do ser amado... que espécie de sentimento inexorável seria aquele que deixava-me febril, que assassinara os poucos momentos de tranqüilidade que eu desfrutava...
Ainda contemplo a carta, agora amarrotada, molhada, tão sufocada quanto a minha pessoa delirante, e ela se torna cúmplice das dores, dos tormentos causados por aquele que lhe deu vida, e ficamos juntas, largadas ouvindo o murmurejar das águas chuvosas, simplesmente sem encontrar a solução...



Ana Claudia Brida
19/10/2005